Siba, Céu, Curumin, BNegão e os Seletores de Frequência… Todos esses discos foram celebrados pelo Na Mira do Groove quando foram disponibilizados. Mas o lançamento mais aguardado por este espaço em 2012 foi, sem sombra de dúvidas, Bahia Fantástica, sucessor de São Mateus Não é um Lugar Assim Tão Longe.
Pipocaram faixas novas, previews e até uma entrevista exclusiva de Rodrigo Campos já foi cedida ao Na Mira. Portanto, a expectativa era algo natural.
O disco foi produzido por Gustavo Lenza junto com todos os instrumentistas que tocam nele: Thiago França (sax tenor, flauta, EWI), M. Takara (bateria), Maurício Fleury (pianos e teclados), Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo e arranjos de corda), o próprio Rodrigo (voz e violão) e Romulo Fróes, que assina a direção musical e artística.
Hoje, caiu na rede o álbum Bahia Fantástica, que deve ir às lojas ainda neste mês. A seguir, confira as impressões de cada uma das 12 faixas deste que, em pouco tempo de vida, já é um dos destaques do ano:
1. “Cinco Doces”
É uma faixa introdutória, que já mostra as faíscas da excelente trupe instrumental, composta por Thiago, Takara, Fleury, Kiko e Cabral, além do próprio Rodrigo. Em clima flutuante, o músico celebra o impacto da Bahia em sua obra.
2. “Princesa do Mar”
A música fala de uma garotinha que, provavelmente, não vai com muita frequência para a praia. De tanta vontade de ir, ela abraça o mar, mesmo depois do almoço, para matar uma saudade imensa. No entanto, quando o compositor diz que ela ‘entrou na maré bruta, virou na maré mansa’, narra a morte da garota por afogamento. Que Iemanjá a abençoe.
3. “Ribeirão”
Uma linda poesia escrita para Criolo brilhar – sim, é o rapper quem canta aqui. Dos tempos da senzala, a canção parece ambientar uma Bahia em que os escravos tinham como fugacidade o momento de ir ao ribeirão lavar roupas. Como toda história escravocrata, não termina bem. E aqui, fica difícil dar mais créditos a: a) o instrumental, que tempera calmaria e tensão como se tais contrapontos fossem lineares; b) Rodrigo Campos, que escreveu a trama; c) Criolo, que a interpreta lindamente. Provavelmente o rapper deve cantá-la em suas próximas apresentações, não tenha dúvidas.
4. “Beco”
Tava com saudades dos personagens da periferia de São Paulo, do disco anterior? Não há nenhuma localidade geográfica no beco, ele é quase invisível – mas existe a semelhança com as crônicas do disco anterior nesta canção, algo indelével na arte de Rodrigo. O beco é local mais que apropriado para conhecer pessoas, marcar esquema, trocar o óleo. Rodrigo centra em um triângulo que envolve o personagem principal, Beto e Nani, que ‘trocam figurinhas’. Rodrigo dá o conselho que um irmão daria para o virgem mais novo: ‘deixa o Beto te ligar’. Canção de relembrar as primeiras experiências amorosas.
5. “Morte na Bahia”
Maurício Badé assume a percussão, montando um climão umbanda. É a trilha que deve ter vindo na cabeça do músico ao contemplar uma flor no meio do caminho, nos bairros de Salvador. Um rito que paira em nossas cabeças, ‘mas meu coração não entendeu’. Quem canta aqui é Luisa Maita.
6. “Sete Vela”
“Buda” Nascimento introduz a canção com um violino lúgubre que conta a crônica meticulosa de um rapaz chamado Alexandre que tenta roubar um carro importado, mas está com medo de morrer. E aí, ele relembra a história de Maurício, que ‘rodou geral’ e morreu quando atingiu a maioridade após assaltar um carro.
7. “Aninha”
Tal qual a onda de mar que avança pela noite, ou o sol que se põe antes das 18h, “Aninha morre todo fim de tarde”. A música é quase carnavalesca, mas também busca um sentido espiritual mais denso até partir para a agressividade instrumental, que parece significar os acessos de raiva e nervosismo ao deparar-se com o estranho significado do termo ‘morrer’.
8. “Jardim Japão”
A mulher que canta aqui é Juçara Marçal, com o clima amazônico que vem de Metá Metá. A música foi escrita por Rodrigo Campos em parceria com Vicente Barreto, e é uma das mais complexas de Bahia Fantástica. Fala dos lúgubres momentos antes de ‘tomar a boca’, ação que ficou bem conhecida após o sucesso de Cidade de Deus. Vai ter morte (portanto, ‘não pira o cabeção’). Juçara está fantástica e a guitarra de Guilherme Held mais a percussão de Badé flamejam como o fogo que se espalha no Jardim Japão.
9. “General Geral”
Ser mandatário de algum lugar ou alguma coisa requer especialidade, mas muitas vezes confunde-se hereditariedade com dom. Neste caso, Rodrigo poderia estar falando de algum rico que é respeitado em suas redondezas por conta de sua herança – ou não. “A razão de alcunha elegante/Capitão General sem por quê”. A música entra em uma jam envolvente, onde todos os músicos que formam coro parecem venerar o tal ‘general geral’.
10. “Elias”
Rodrigo volta para São Paulo, mais precisamente a estação de trem Prefeito Saladino, favela da 18. O personagem mudou de vida, quis deixar de lado a ‘memória da maloqueragem’. O violino de “Buda” Nascimento complementa a dramaticidade que vem durante o período de mudança.
11. “Capitão”
Uma das canções mais idiossincráticas de Bahia Fantástica. Rodrigo fala da vida de um capitão que não acredita na vida após a morte: ‘Não crê em Deus, Ogum, nem nada/vai deixar de ser’. Na entrevista exclusiva com o Na Mira, Rodrigo explicou essa relação com a morte: “Essa incompreensão de deixar de existir é muito forte”, disse. “E é uma humildade muito grande assumir a finitude das coisas e não preparar outro mundo depois da morte”. Tipo o capitão.
12. “Sou de Salvador”
Uma música folclórica, de encerramento. Celebra a Bahia da forma como ela se impõe na cultura brasileira: com muita festividade, alegria, dança… Rodrigo, sem compromisso, fez uso da conhecidíssima “Escravos de Jó”, que muitos já devem ter cantado em rodas junto com os colegas nos primeiros anos escolares.
ERRATAS:
• Em “Princesa do Mar”, Rodrigo Campos fala de criança feliz, mas dá um final trágico. Não tem nada a ver com a vontade de contemplar a calma apreciando o mar à distância, como estava anteriormente.
• A canção “Sete Vela” não versa sobre um ‘playboy’ que está de rolê com sua Mitsubishi, mas não sabe como arrumá-la quando ela dá pau, como estava anteriormente. Na verdade, fala de um assalto.
• “General Geral” não fala de sólida hierarquia e patentes, como estava antes. Ela fala de relações de ‘cima para baixo’, e de ‘baixo para cima’, de um modo ‘geral’.
• “Capitão” não é continuação de “General Geral”, como estava anteriormente. É um profundo questionamento da vida.
Todos os equívocos foram apontados por Rodrigo Campos. Muito obrigado pelos toques!
Importante dizer: as descrições das faixas do disco são apenas uma interpretação do autor que vos escreve. Como toda obra artística, o disco irá suscitar inúmeras outras reflexões. O que fiz foi apenas um ‘apanhado’ inicial do que percebi ao ouvir o álbum. São necessárias muitas e muitas audições para perceber outros temas, interpretações e idiossincrasias – e isso, com certeza, farei com o maior prazer.
E você, já ouviu Bahia Fantástica? O que achou?
