Após seis discos lançados com The White Stripes, mais dois com The Racounteurs, dois a mais com o The Dead Weather, sem contar a produção de álbuns de Wanda Jackson, Loretta Lynn, suas participações com rappers malucos como o Insane Clown Posse e Black Milk. É uma lista já extensa para alguém que ficou conhecido a partir de 1999.

Eis que, finalmente, um dos músicos mais inquietos da atualidade lança seu disco solo, intitulado Blunderbuss. Nele, todas as facetas de White aparecem: tem um pouco de country, nostalgia Rolling Stones, solos surpreendentes de sua guitarra eletro-blueseira e diversas experimentações que provavelmente não se encaixariam em nenhum dos (diversos) projetos que já se envolveu.

O lançamento oficial de Blunderbuss é dia 24 de abril, mas felizmente o disco já caiu na rede (ouça na íntegra no player acima). Confira as impressões do Na Mira de cada uma das 13 faixas do disco:

1. “Missing Pieces”
O início é sinistro e poderia muito bem integrar uma sinfonia com a intercalação de pianos e guitarras. No entanto, Jack canta com toda a liberdade que já adquiriu com o White Stripes. Ah, esqueça as baterias monossilábicas: a dinâmica do instrumento serve como pano de fundo ideal para o atrito entre pianos e violões.

2. “Sixteen Saltines”
Esta aqui ganhou recentemente um clipe que serve quase como um contraponto a “The Suburbs”, do Arcade Fire (dirigido por Spike Jonze). Jack White está agressivo e nos celebra com os melhores momentos de um White Blood Cells revisitado. Mais do que adequada para um single.

3. “Freedom At 21″
Aqui já entra um momento mais Dead Weather com os riffs circulares. Você tem a impressão de já ter escutado algo parecido, até que a partir de 1min50s, entra um solo bagunçado de guitarra que oferece uma dissonância necessária à música. Não adianta teimar, em momentos que você menos espera o Jack White chacoalha suas impressões.

4. “Love Interruption”
Foi a primeira amostra de Blunderbuss. A canção é um dueto com Ruby Amanfu, num folk cortante extraído dos violões de ambos os cantores. Soa como um hino despretensioso que pode ser entoado no alpendre da casa de sua avó – ou na sacada do seu apartamento. A partir de então, White evidencia aos poucos sua habilidade como compositor.

5. “Blunderbuss”
Um dos ápices do poder de composição de White. A letra é densa e fala de uma mulher desregrada que, de tantas trapaças amorosas, acaba ‘despertando’ o amado a encarar o mundo e a vida. “Fazer o que as pessoas querem nem sempre está no menu”, encerra White após a dura experiência de ter aprendido com o sofrimento.

6. “Hypocritical Kiss”
Uma típica canção que encara o rock como uma sinfonia perfeita, algo que parecíamos ter perdido no meio de tanta esfoliação sufocada que vai do shoegaze às desconstruções do art-rock. Talvez o classicismo do piano junto com a firmeza da bateria sustentem tal epítome. Mas é tão bonito de se ouvir…

7. “Weep Themselves To Sleep”
Tem a mesma estrutura da música anterior, mas White aparece com vocais mais agressivos, como se tivesse se inspirado em Bruce Springsteen – e, claro, a sonoridade estupenda da E Street Band. A letra também fala de medos diante da sociedade, mas não é tão direta como as do The Boss. Quando se aproxima dos três minutos, White emenda seus solos blueseiros quebrados. Tem potencial para levantar festivais.

8. “I’m Shakin’”
Uma divertida brincadeira com os primórdios do rock’n roll, acelerando aquilo que vem lá de Buddy Holly. Com direito a backing vocals e paradinhas que inspirariam passos criativos de Elvis Presley, Jack White prova que é possível rememorar esses bons tempos com toda a liberdade das pedaleiras de sua guitarra.

9. “Trash Tongue Talker”
Aqui o piano conversa melhor com o baixo, mas o que fica evidente mesmo é mais uma composição matadora de Jack White. Ele deixa os instrumentos soarem mais altos que sua voz roqueira.

10. “Hip (Eponymous) Poor Boy”
Essa é mergulhada no folk. Talvez o som de Jack White que mais se aproximaria a Woody Goothrie. Se o músico teve ou não esforço para isso, fica a seu critério julgar. Mas o que mais me impressionou aqui foi a sua capacidade de enaltecer e sublevar seus vocais. Pô, parece que o cara domina tudo!

11. “I Guess I Should Go To Sleep”
O ligeiro início lembra trilha de desenhos animados que perduram nas cabeças de crianças que perdem o sono ao assistir as aventuras malucas dos Looney Toones (os antigões, bom dizer). Jack White cria um looping que entra aos poucos em experimentações rítmicas dentro do country folk. Quando cair nos ouvidos do Keith Richards, vixe… motivos não faltarão para ele tecer ainda mais elogios ao colega.

12. “On And On And On”
O baixo misterioso introduz as notas de piano que lembram o interlúdio para uma música do Queen. Não é tão impactante como as outras por trazer um lado mais folk-intimista, algo não muito típico de White. Mas não deixa de ser um terreno novo, não é verdade?

13. “Take Me With You When You Go”
As notas iniciais lembram bastante um Quicksilver Messenger Service em meio às areias de deserto. No entanto, na última música do disco White decidiu viajar por uma gigante jukebox onde cabe música barroca (com o violino), trilhas de filmes animados (vide os pianos), progressivo, punk rock, uma bateria que lembra hip hop, rimas ágeis, aquele blues sujo novamente. Apenas um resumo da multiplicidade que paira na música de Jack White. Blunderbuss veio para evidenciar algo que já imaginávamos.

E você, já ouviu Blunderbuss? O que achou? Dispare nos comentários!