Depois de muita hesitação, experimentação e até mesmo frustrações, o Lingering Last Drops lançou recentemente seu terceiro disco: no.

Trafegando pela cena alternativa paulista, a banda formada por Carlos Paraná (guitarra, percussão, samples e teclados), R. Paraná (guitarra), A. Witzgel (sax), Egobandit (baixo e guitarra), Selma (bateria e programações) e Maeder Morris (voz e programações eletrônicas) retrabalha gêneros como space-rock, shoegaze, psicodelia e drones em um trabalho que busca a alcunha de ‘acessível’.

“Nossas influências vão do jazz até musica tribal africana”, disse Carlos Paraná, o único membro-fundador da atual formação. “O ponto de referência principal é o rock, mas vai desde os terrores orquestrados de Scott Walker até o batmacumba dos Mutantes”.

O processo de gravação completo levou cerca de três anos, revelando um disco bem lapidado e híbrido.

Para que o ouvinte se adentre melhor na obra do Lingering Last Drops, o músico Carlos Paraná explicou cada uma das sete faixas que compõem no (ouça na íntegra no player abaixo).

Confira:

01. “Innocent”
Tentei algo acessível e popular. Sei lá se deu certo. Se você ouvir a versão do EP [Innocent, lançado em 2011] e a do álbum, elas têm a trilha de vocal diferentes. Esta foi a única vez que usei auto-wah e, embora tenha gostado, o pedal era emprestado (!).

02. “Boxes”
Essa canção nasceu depois que ouvi “Hologram” do These New Puritans. Pensei que podia fazer também uma balada de piano agitada o bastante para que não fosse possível relaxar ao ouvi-la. Como você pode perceber, meus experimentos não chegam exatamente ao resultado esperado: não é uma balada de piano, mas ao menos não é sonífera. Comecei a adicionar elementos, e ficou muito diferente do planejado. Quis pensar em uma música que tenha uma atmosfera totalmente diferente nos versos e no refrão (os versos são absolutamente congestionados e cheios de reverb, enquanto o refrão é relativamente limpo). Conheci o saxofonista Andy [Witzgel] pela internet e perguntei se ele tinha algo a contribuir. Fiquei feliz quando percebi que ele havia adicionado sax em cinco faixas, mas deixei o material de lado para outros projetos.

03. “Moon Canyons
Grande parte de “Moon Canyons” é retirada de nossa única apresentação ao vivo, onde tocamos na casa de amigos logo depois que o primeiro álbum foi lançado. Preferimos (eu e a pessoa que me acompanhava na banda na época) fazer uma improvisação de synth e guitarra (rodando guitar rig). A linha de synth na parte do vocal são os minutos restantes de nossa apresentação. O sax do Andy pertence a uns minutos não usados de “Seeing Voices”.

04. “Iqlusion\Flatliner Blues
A letra dessa música é tirada de parte da solução de um enigma chamado Kryptos, uma escultura localizada em uma unidade da CIA nos EUA. Lá, o escultor Jim Samborn propôs quatro enigmas que compõem a escultura. Três deles já foram solucionados e o último está insolúvel há anos… Inicialmente, eu ia usar exclusivamente os enigmas da escultura como letras da música. Mas eu já tinha grande parte do álbum pronto quando tive a ideia e, como já tinha realizado dois abortos, não queria começar de novo. A segunda parte de “Flatliner Blues”, na verdade, pertencia ao início da música.

05. “Outerspace”
Essa foi trazida por R. Paraná num domingo. Eu preparei alguns loops de bateria e ele tinha uma sequência de acordes que se encaixou perfeitamente. Entretanto, ela passou por diversas alterações – especialmente adição de outras guitarras e do órgão Farfisa. Novamente, quis que a música iniciasse em um ponto diferente e fosse para outro inusitadamente. A parte final foi gravada no quintal de minha casa. 

06. “False Projection”
Não aceito completamente que minhas músicas tenham elementos de terror; elas transmitem outras emoções também. Excepcionalmente no caso desta música, quis fazer com que ela se comportasse como filme de terror: um início hesitante, o corpo da música indicando alguns elementos estranhos e um final ‘chocante’.

07. “Musidora”
A letra dessa música foi uma espécie de mantra que escrevi por muitas folhas de caderno após um grande problema que tive. Tentei um crescendo que não tivesse nada a ver com post-rock (termo que em suas origens é bastante interessante, mas atualmente é um dos maiores clichês musicais). Queria incluir muito mais escaleta no álbum, mas…