Segundo Zuza Homem de Mello, ouvir João Gilberto é mais que uma experiência. ‘É um maná da música brasileira’

Zuza Homem de Mello é um jornalista e musicólogo que dispensa comentários. Na época em que os festivais de música na Record conquistavam picos de audiência, Zuza era um dos engenheiros de som. Hoje, é o coordenador da Enciclopédia de Música Brasileira.

Ainda sobre o ESPECIAL João Gilberto, conversei com Zuza sobre a importância do cantor e violonista. Seu estudo sobre o músico é tão vasto, que inclusive resultou na publicação de um livro todo dedicado a João: João Gilberto, publicado em 2001 pela Publifolha. Isso sem falar no obrigatório Eis Aqui os Bossa Nova, que traça todo um mapa sobre o ritmo que revolucionou a música popular brasileira.

Zuza dá uma dica essencial para absorver com eficácia a pureza da arte de João: “Ao contrário de todos os cantores brasileiros, e pode-se dizer até do mundo, o cantor e o músico João Gilberto não pertencem a duas entidades separadas, como acontece com todos os cantores e músicos”. Ou seja, devemos ouvir a música de João pela primeira vez “concentrando na voz. Depois, reouvir concentrando no violão. E depois, reouvir pela terceira vez, concentrando na sonoridade da voz e do violão. Esse é o ponto crucial para se ouvir João Gilberto”.

Este é apenas um dos muitos aspectos da música de João. Confira a entrevista com Zuza Homem de Mello a seguir:

O que compõe todo esse mistério de João Gilberto?
Ao contrário de todos os cantores brasileiros, e pode-se dizer até do mundo, o cantor João Gilberto e o músico João Gilberto não pertencem a duas entidades separadas, como acontece com todos os cantores e músicos. Geralmente, o cantor é acompanhado por alguém e, ao ouvir, não que se separa, mas você tende a se concentrar mais na voz do cantor do que no acompanhamento. No caso de João, isso tem que ser entendido como um unívoco que se compõe de duas metades: uma delas é a voz, e a outra metade, o violão. Para que você possa entrar no mundo maravilhoso da música de João Gilberto, você tem que fazer uma espécie de exercício para poder se habituar a ouvir as duas coisas ao mesmo tempo e não ficar concentrado só numa delas. Um método seria ouvir a primeira vez concentrando na voz. Depois, reouvir concentrando no violão. E depois, reouvir pela terceira vez, concentrando na sonoridade da voz e do violão. Esse é o ponto crucial para se ouvir João Gilberto. Porque as duas coisas se interpenetram uma na outra. Você tem que ter essa capacidade, que você pode desenvolver, de ouvir as duas coisas ao mesmo tempo. E aí, gozar da beleza que é o som de João Gilberto.

Se atribui a isso o fato de João Gilberto cantar cada canção, mesmo as que ele não compôs, como se fosse dele?
Lógico, e é exatamente o que acontece nas canções que foram gravadas por ele e que eram de épocas anteriores à bossa nova. Porque as canções da fase dos três discos da gravadora Odeon [Chega de Saudade, O Amor, o Sorriso e a Flor e João Gilberto] – que não estão no mercado hoje em dia – eram de dois tipos: as novas, que eram do Tom Jobim, Carlos Lyra etc – e as velhas que ele recriava, que pertenciam a uma fase anterior, quando ele gravou Dorival Caymmi, Geraldo Pereira, Ary Barroso, etc. Nessas canções, ele apresenta uma nova canção. Se você fizer uma comparação da canção gravada pelo João Gilberto e quaisquer das gravações anteriores, incluindo as do Dorival Caymmi, que era um excepcional violonista e cantor, mesmo assim a diferença é gigantesca.

“Desafinado” contém vários elementos que deram um choque violentíssimo na música popular – um choque positivo. Ou seja, leva as pessoas a induzirem que desafinado é expresso através daquela canção. Não perceberam que “Desafinado” é só o título de uma maneira absolutamente irretocável em termos de afinação

Como João Gilberto conseguiu captar o que ocorria naquele momento pré-bossa nova? Por mais que estivesse formulando a batida, alguns músicos do Rio já estavam fazendo experimentações sonoras, como João Donato e Johnny Alf. O João pegou algumas coisas que eles estavam experimentando para trazer ao som dele?
Nos anos anteriores a 1958, já existia no Rio de Janeiro uma tendência de modernidade da música brasileira, que aparece mais ou menos nítida na obra de Tito Madi, na forma de cantar de Dick Farney, mas que acaba ficando mais clara em Johnny Alf, em primeiro lugar, e João Donato, em segundo lugar, ambos pianistas. Mas, tudo isso que aconteceu no Rio de Janeiro, acaba se concentrando de uma maneira sintética através do violão de João Gilberto. A impressão que se tem é que ele ouvia tudo isso e ruminava. O Johnny Alf me contou em uma declaração para o livro que escrevi, Eis Aqui os Bossa Nova, que João ouvia e ficava prestando atenção exatamente na mão esquerda dele, que extraía acordes soltos, completamente diferente do que os outros pianistas faziam. E esses acordes soltos induzem muito nitidamente ao que ele faria depois no violão.

Mais ou menos como um vai-não-vai…
Mas que cria um impulso rítmico muito maior, porque ele se apoia na síncope. Ele dá aquele impulso rítmico de maneira muito mais sutil, mas com mais força.

Essa síncope vem do jazz, não é?
Toda música de origem africana é baseada em síncope. Ela veio da África para a música das Américas, como na música de Cuba, no jazz, na música brasileira. Tanto que a síncope não tem uma presença forte na música europeia. No caso da Argentina, por exemplo, que não tem uma influência da música negra muito forte, ela tem uma síncope parecida com a europeia. Não tem aquela síncope dançante que tem a música brasileira, por exemplo.

Dá pra nomear qual seria a canção que seria um marco na carreira de João Gilberto?
“Desafinado”, apesar de não ser a mais perfeita canção da bossa nova. A mais perfeita é “Samba de Uma Nota Só”. É que “Desafinado” contém vários elementos que deram um choque violentíssimo na música popular – um choque positivo. Esse choque começa com o fato da música se intitular “Desafinado”. Ou seja, leva as pessoas a induzirem que desafinado é expresso através daquela canção. E ela é exatamente o contrário. Mas isso não foi percebido. Na época, muitos comentavam: ‘ah, João Gilberto, aquele que canta desafinado’… Mas não se referindo ao título, mas na maneira dele cantar. Não perceberam que “Desafinado” é só o título de uma maneira absolutamente irretocável em termos de afinação. Não tem nenhum desvio sequer da pureza de cada nota que ele emite. Depois, a letra contém procedimentos também inusitados na música. E ele faz valer tudo isso que é contido na canção, para apresentar, ainda por cima, a nova forma de se ouvir e interpretar a música popular brasileira que resultou na bossa nova – que é uma nova forma das mesmas canções que já existiam e das novas que passaram a existir. Essa forma é de tal maneira patente, que você pode reduzir todas as canções à mesma forma, como João Gilberto fez. Ele pega uma música como “Rosa Morena” e a coloca de uma nova forma. Mas ‘Desafinado” tem, por trás, toda essa contextualização do que vinham a ser as várias novidades que revolucionaram a música popular na época.

A partir de 1964, a bossa nova deu lugar a outra espécie de canção popular aqui no Brasil, momento em que João Gilberto foi aos Estados Unidos gravar um disco com Stan Getz. E como ficou a bossa nova aqui no Brasil?
Com a partida de João Gilberto e Tom Jobim em 1962, quando eles foram pro Carnegie Hall e não voltaram nunca mais, a bossa nova se esvazia no Brasil. A ausência deles provoca isso. Em 1964, a música começa a receber influências de áreas diferentes da bossa nova. Quando João passa a residir nos EUA e participar de espetáculos em discos apresentados internacionalmente, mantém a mesma postura. Alguns até dizem que ele continua fazendo sempre a mesma coisa que fazia no início. E você vê quantas das canções dos três primeiros discos continuaram a fazer parte do repertório dele, como “O Pato”, “Corcovado”, “Desafinado”, “Chega de Saudade”. Aquele grupo de músicas nunca deixou de participar dos espetáculos e dos discos: ele já regravou várias vezes algumas destas canções. Se você for comparar as gravações da mesma música, você verá que ele é o mesmo. A voz muda em função da idade – é lógico, isso acontece com qualquer pessoa. A limpeza de execução, o brilho e, sobretudo, esse binômio voz e violão se mantêm sempre. É uma marca que só ele tem.

Você citou que cada apresentação do João Gilberto é uma experiência. Como ele se mantém sem se repetir, ao mesmo tempo?
Isso não tem explicação. Tem que assistir (um show) pra entender. É mais ou menos como o jazz. Como você define o jazz? Você tem que ouvir, não tem explicação. A única explicação possível é você ouvir as pessoas saindo do show do João Gilberto e perguntar se foi ou não uma experiência (risos!). Cada um vai dizer de uma maneira diferente.

É que ainda não vi nenhuma apresentação dele…
A única coisa que recomendo com empenho é que, antes, faça uma concentração tipo jogador de futebol. Ou seja, pare de ouvir música por vários dias. Não ouça nada, vá com o ouvido bem limpo e com a cabeça limpa para poder se concentrar totalmente no que vai assistir. E aí você gozará do maná que o Brasil oferece pro mundo. E esse maná tem apenas dois nomes: João e Gilberto.