
Segundo Midani, João ‘não foi somente um revolucionário na arte musical, mas também na postura do artista perante a gravadora’
Conhecido como um dos produtores mais importantes de toda a música brasileira, André Midani veio ao Brasil pela primeira vez em 1955. Ainda que tenha nascido na Síria, cresceu na França e começou a trabalhar na Odeon aos 23 anos conquistando, em pouco tempo, o cargo de chefe do departamento de repertório internacional da gravadora.
Depois que João Gilberto mostrou ao Brasil a batida econômica no violão nas faixas “Chega de Saudade” e “Outra Vez”, do disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, Midani ficou atento e acabou conhecendo o compositor nas praias do Rio de Janeiro. Para ele, aquela era a música jovem que a gravadora Odeon tanto procurava.
Midani arranjou tudo para que João pudesse gravar o compacto com as faixas “Chega de Saudade” (desta vez cantada por João) e “Bim Bom”. E, para a gravação do excelente disco Chega de Saudade, foi um pulo.
Por telefone, Midani falou um pouco sobre como era essa relação com João Gilberto. “Os critérios que ele coloca na música dele são absolutamente eternos, ou seja, não é uma coisa de moda, que vai passar”, reverencia. Confira a entrevista:
Era difícil lidar com João Gilberto em estúdio?
Nunca cheguei a fazer a gravação. Eu investia nos custos da gravação e fazia os contratos com o João. Sempre tive uma participação com ele, mas nunca uma participação artística. No estúdio, eu era um espectador. Uma coisa que é importante: ele não foi somente um revolucionário na arte musical, mas foi revolucionário na postura do artista perante a gravadora. Ele foi o primeiro a peitar a gravadora no sentido de dizer: ‘quem vai aprovar a gravação sou eu, não o diretor artístico ou a gravadora’. Essa atitude foi uma tomada de poder que ele teve desde o primeiro disco, Chega de Saudade. Enquanto muita gente, e com toda a razão, fica conversando sobre a feição musical de João e a feição rítmica de seu violão, essas coisas que todo mundo aprecia no João, tem também esse outro lado. Tem a ver com a postura do artista diante da gravadora.
O perfeccionismo do João é evidente dentro das gravações. [Se] você trabalha com um artista extremamente poderoso, ou você fica engolido e vira um escravo dele ou você peita e tenta estabelecer uma relação de igualdade
Como foi lidar com o João, ainda mais você, que estava digamos ‘do outro lado’?
Como toda coisa revolucionária, foi um choque, mas depois você vai se acostumando e reconhecendo que dali em diante havia um outro jeito de trabalhar. Quero evitar essas conversas artísticas sobre João, porque todo mundo já falou sobre isso – todo mundo com mais capacidade do que eu.
Você investiu em João Gilberto justamente porque, naquele período, você o via como dono de um som ‘jovem’. Ainda hoje, você vê o som do João Gilberto como um som jovem?
É um som perfeito, mas não é um som jovem. Na verdade, o João é eterno. Os critérios que ele coloca na música dele são absolutamente eternos, ou seja, não é uma coisa de moda, que vai passar. No entanto, na pergunta que você me faz, acredito que o som dele não é mais jovem. Sempre vai ter uma faixa de juventude que vai ouvir o João com maior respeito e vai se associar com o João, artisticamente falando. É só ligar o rádio, e ver o que está acontecendo com a música brasileira. Não estou dizendo que seja ruim ou seja bom, mas a juventude de hoje pensa em algo diferente de João Gilberto.
Já chegou a ter alguma briga com o João em estúdio?
Claro, você trabalha com um artista extremamente poderoso, ou você fica engolido e vira um escravo dele ou você peita e tenta estabelecer uma relação de igualdade. Entre esses dois caminhos, evidentemente há momentos onde a relação treme. Mas sempre foi em prol – ou da parte dele, ou da minha parte quando estava envolvido – de ter o melhor resultado.
Essa característica, em relação a João, se dá por ele ser excêntrico? Ou é algo positivo?
É positivo, você vê no resultado. O perfeccionismo do João é evidente dentro das gravações.
Ainda bem que nem todos são como João Gilberto, não é?
Graças a Deus, se não todo mundo enlouquecia!
Já teve que engolir muitos sapos dele?
Não, francamente. Tive que engolir sapos de alguns artistas na minha carreira. Com o João, não ficou uma situação de ter que engolir sapo. Ele nunca me colocou a coisa como se eu tivesse que engolir sapo. Se eu tivesse que engolir alguma coisa, seria alguma coisa nobre. Mas quando havia algum conflito, era algo que eu estimava para o bem do projeto.
