Ainda com o pesar de deixar inúmeras faixas de fora, posto aqui as 10 maiores canções de Bob Marley. Obviamente que as escolhas foram pautadas mais por gosto pessoal do que qualquer outro critério. É assim que funciona. Claro que também pesa a relevância de cada canção, mas deixo isso para os antropólogos de plantão.
Também gostaria de fazer uma menção honrosa a algumas canções que não entraram na lista, como “Kaya”, “How Many Times”, “Buffalo Soldier”, “Time Will Tell”, “Duppy Conqueror” e uma centena de outras. Que pelo menos fique como registro.
Claro que este espaço está livre para críticas, elogios, sugestões e tudo aquilo o mais que não canso se repetir. Veja a lista a seguir:
Confira também: As 20 Melhores Canções de Bob Marley (Parte I).
10. “Rebel Music” (1974)
Álbum: Natty Dread
Nesta faixa, Bob se desprende do reggae music no primeiro álbum sem os integrantes originais do The Wailers. Aqui a gaita ferve, Aston Barrett dá passe livre para as magníficas incursões de Al Anderson e Bob Marley entra na onda das I-Threes e faz a voz principal como se fosse parte dos backing vocals. Talvez essa seja uma das músicas mais dinâmicas e bem pontuadas do rei do reggae.
9. “Satisfy My Soul” (1978)
Álbum: Kaya
A tonalidade de Bob Marley está acentuadíssima; essa canção foi gravada em um momento ápice de sua carreira, e a letra parece dialogar com aquilo que ele estava passando naquele momento. “Oh darling-darling, I’m calling-calling” soa como se fosse um chamado musical para que todos prestassem atenção no que ele queria passar. E isso, de alguma forma, “satisfazia sua alma”.
8. “Burnin’ and Lootin’” (1973)
Álbum: Burnin’
Bob Marley teve um sonho estranho quando estava começando a namorar Rita. Sonhou que estava dormindo no chão e que alguns espectros estavam invadindo a casa para capturá-lo. Ele não era conhecido ainda na Jamaica mas, depois dessa passagem, evitou dormir sem a companhia de alguém. Essa canção é um pouco do reflexo desse sonho esquisito, mas carrega consigo o fardo de ainda ter que agradar os ouvintes, quando diz: “são as drogas deixam vocês lentos, não a música do gueto”. Pode parecer exagero, mas a conexão ficou ótima.
7. “Trenchtown Rock” (1975)
Álbum: Live!
Essa canção já tinha sido gravada em 1971 e passou por diversas reformulações. Foi no grandioso show em Londres no Teatro Liceu, no memorável 5 de dezembro de 1975, que Bob Marley mostrou a versão definitiva, recheada de muito swing e energia. “Uma coisa boa sobre a música é que quando ela bate você não sente dor”. Pura poesia!
6. “One Drop” (1979)
Álbum: Survival
Essa canção tem um quê interessante de brasilidade: por mais que pareça quase imperceptível, as percussões entram de forma esporádica no reggae bem estruturado da canção, que fala sobre união e perseverança. Extrato de um dos álbuns mais importantes na discografia de Bob Marley, “One Drop” universaliza os problemas recorrentes na África, continente que explorava naquele momento, incitando o fortalecimento contra algo grande que estava por vir. Quem sabe fosse um presságio para a independência do Zimbábue?
5. “Running Away” (1978)
Álbum: Kaya
“Você não pode escapar de você mesmo”. Bob Marley repete essa frase insistentemente, não à toa, para convencer os ouvintes de que todos devem aceitar aqueles que são. Pelos tempos difíceis que havia passado na Jamaica no início da carreira, com a perseguição da polícia e do establishment contra os rastas, Bob sugere que, mesmo que estivesse no pico do estrelato (como realmente estava em 1978), não podia abandonar suas raízes. Talvez a música tivesse alguma ligação com sua recusa em mutilar seu corpo para contornar o câncer que começava a dar ares de surgimento.
4. “Who the Cap Fit” (1976)
Álbum: Rastaman Vibration
A importância de Bob Marley no contexto musical estava crescendo de forma estrondosa. Mas, com as artimanhas que as ruas e a vida lhe garantiram, ele sabia que em breve estaria cercado de má companhia. Essa canção reflete a maturidade do compositor em saber lidar com todos os tipos de pessoas possíveis. Afinal, o inimigo é aquele que dorme mais próximo de você, que conhece os seus passos. Então, deixe que a carapuça sirva.
3. “Zimbabwe” (1979)
Álbum: Survival
Essa daqui tem um peso imenso. Tornou-se o hino do país africano após ser tocada no Dia da Independência do país ante a colonização britânica. Provavelmente muitos jovens que estavam acompanhando a carreira do compositor não teriam contato com a realidade da África sem ouvir essa canção. O mais incrível é que ela tem uma pegada pop, fala de direitos humanos de forma universal e mostra o vigor de um artista que ainda tinha muito a mostrar pelo mundo.
2. “Redemption Song” (1980)
Álbum: Uprising
Não tem como ficar impassível a “Redemption Song”. Já pelo lúgubre batuque inicial, Bob Marley exala uma poesia crua, da forma mais folk possível. Aqueles que afirmam que ele se inspirou nas crônicas de Bob Dylan, provavelmente estão certos. Mas também denota o período existencial do jamaicano com a aproximação da morte e os questionamentos da vida. Apenas por vias de comparação, essa música tem a mesma representação que “Like A Rolling Stone” (que Bob chegou a fazer uma cover com os Wailers originais) tem para Dylan ou “A Day in The Life” para os Beatles.
1. “Sun is Shining” (1971)
Álbum: Soul Revolution
Naquela época, o ska e o rocksteady eram a grande febre na Jamaica devido às pegadas dançantes e a um certo abuso dos metais. Lee ‘Scratch’ Perry estava formatando as primeiras nuances do dub e era contra essa ‘contaminação’ das bases rítmicas do reggae. Ele produziu o álbum Soul Revolution e acertou ao propor um contraponto estético entre a sobreposição vocal (com uma certa defasagem, criando um eco) de Bob Marley e os solos esvoaçantes de guitarra. A canção chegou a ser remasterizada e integrou o álbum Kaya, de 1978. Mas ela tem uma aura única. Toda a ambientação criada – seja pelas adequadas pausas, o eco de Bob, os curtos solos de guitarra, backing vocals – contribuem para que “Sun is Shining” torne-se o hino que melhor resume toda a trajetória de Bob Marley.
