Muitos podem não saber, mas Bob Marley foi um artista pop bem sincrético. Sempre trafegando por referências suburbanas e negras, ele explorou o reggae como ninguém com ritmos como rock, funk, ska, rocksteady, jazz e até mesmo bossa nova (na “Pray For Me”, que foi descoberta postumamente).

Cada um de seus álbuns representa uma distinta fase do músico: dos tempos difíceis na Jamaica junto a Peter Tosh e Bunny Wailer à honoris causa dos problemas sociorraciais no continente africano, Bob universalizou o ritmo lutando contra o sistema, pregando a paz universal ou mesmo declarando seu amor pela vida.

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Na lista, perceba que a fase mais criativa de Bob deu-se entre os anos de 1976 e 1980, período que dimensiona o quanto o músico e compositor evoluiu em tão pouco tempo.

A seleção pode ser um pouco pessoal, obviamente, mas até que a considero justa.

E pra você? Qual o seu álbum favorito de Bob Marley? Diz pra gente nos comentários.

10. Uprising

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 10 de junho de 1980

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Apesar de refletir o pesar dos últimos dias de Bob Marley, aqui o rei mostrou que ainda tinha muito para mostrar. Como já disse, ele correu atrás do tempo para ir se desvencilhando aos poucos das raízes regueiras e partir para experimentações no campo do afrobeat (“Could You Be Loved?”), funk (“Work”) e até mesmo em letras mais profundas e densas, como “Comming In From The Cold”.

Ouvindo hoje, parece que havia algo melancólico no ar, como se tivesse previsto a morte poucos meses depois. Musicalmente, o grande mérito deste álbum fica para “Redemption Song”, não apenas por ser a famigerada ‘última canção do último álbum’, mas por denotar a maturidade filosófica do músico ao partir para algo mais poético.

9. Soul Revolution

Gravadora: Upsetter/Trojan
Data de Lançamento: 1971

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Quando dois dos maiores artistas jamaicanos se juntam, coisa boa tem que sair. Bob Marley e Lee ‘Scratch’ Perry ainda não tinham todo esse peso quando se uniram para fechar a produção deste disco, mas davam passos promissores para formatar a gênese do reggae (difundida por Bob) e do dub (de Lee).

O produtor fez questão de ordenar uma espécie de ‘limpeza’ de instrumentos metálicos e sugeriu uma densidade instrumental mais pungente. Daí saíram alguns dos maiores hits de Bob, como “Sun is Shining”, certamente uma das músicas mais bonitas de seu repertório; “Kaya”, que depois daria nome a um de seus melhores álbuns; e a praticamente desconhecida (mas excelente) “Duppy Conqueror”, já gravada quando Bob era mais novo. Crueza pura!

8. Natty Dread

Gravadora: Island/Tuff Gong
Ano de Lançamento: 25 de outubro de 1974

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Este disco foi um marco na carreira de Bob, por ser o primeiro sem um integrante original do The Wailers (ou seja, sem Peter Tosh e Bunny Wailer). Bob contratou as I-Threes para acompanhá-lo nessa bonita incursão a um reggae mais grooveado, cheio de energia e com muitas referências ao dub.

Aqui, surgiu a primeira versão do seu maior hit radiofônico, “No Woman, No Cry”, além de contar com uma participação mais ativa dos instrumentistas (marcadamente os irmãos Aston e Carlton Barrett, que tocavam baixo e bateria, respectivamente) nas composições. “Talkin’ Blues”, “Them Belly Full” e “Rebel Music” são algumas das faixas que não são da autoria do rei – mas são tão boas, que soam como se fossem. Não podemos deixar de mencionar “Bend Down Low”, uma aula de Touter no acompanhamento no órgão, e a emocionante jornada que resulta em “Revolution”, que apresenta um dos melhores arranjos de reggae já gravados.

7. Rastaman Vibration

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 30 de abril de 1976

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Gravado em uma das épocas mais frutíferas de Bob, Rastaman Vibration superou o obstáculo de ser apenas mais um disco à altura do seu já ótimo Natty Dread, que estourou internacionalmente em 1975. Bob focou no roots reggae, inclusive chegando a gravar uma canção que exalta essa incursão: “Roots Rock Reggae”, que se tornou um de seus maiores sucessos. Foi o único disco de Bob a chegar ao top 10 das paradas nos Estados Unidos.

Mas Bob tinha aquele folclórico compromisso de trazer canções reflexivas, lacuna que foi preenchida por clássicos como “Who the Cap Fit” (uma das minhas canções favoritas do rei) e “Cry To Me”. Rastaman Vibration, porém, é um disco ainda mais abrangente: fala de positividade em “Positive Vibrations”, que tornou-se hino de surfistas, mas também revela a indignação de Bob com o status quo na Jamaica, como em “Crazy Baldheads”, “Rat Race” e a antológica “War”, com os versos: ‘Até os direitos humanos básicos/Serem garantidos para todos/Sem consideração à raça/Isso é uma guerra‘.

6. Catch a Fire

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 13 de abril de 1973

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Registro fabuloso de um período onde a sinergia entre os Wailers resultava em faixas carregadas de visões políticas que iam direto ao combate – talvez por conta da fúria contida no processo de composição de Peter Tosh. Houve uma briga nos bastidores por conta da separação da nomenclatura Bob Marley e Wailers, motivado pelas ideias marqueteiras do influente produtor Chris Blackwell, que queria fazer (e conseguiu) de Bob Marley uma estrela individual.

Ainda assim, Tosh entregou algumas de suas melhores composições, com destaque para “400 Years”. E Bob já sugeria influências africanas em seu trabalho no compasso de “Concrete Jungle”, que abre o disco com a clássica levada regueira, e na versão definitiva de “Kinky Reggae”, com os backings masculinos fortalecendo outra entidade do repertório do jamaicano.

5. Live!

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 5 de dezembro de 1975

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Taí o melhor registro ao vivo de Bob Marley. Pelo menos musicalmente. Gravado em uma apresentação no Teatro do Liceu em Londres, este disco foi responsável por cravar a universalidade não apenas do artista, mas do reggae como um todo – que teve sua entrada justamente no Reino Unido, onde exerce até hoje uma influência sem precedentes na música popular.

O rei apresentou suas canções de maior destaque gravadas até então, numa apresentação visceral e cheia de energia. Iniciando com “Trenchtown Rock”, passando por hinos como “Lively Up Yourself” e “I Shot The Sheriff”, o show foi ovacionado pelo público e pela crítica, abrindo a brecha necessária para que Bob investisse em sua carreira internacional.

4. Kaya

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 23 de março de 1978

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Kaya é de longe o álbum de estúdio mais pop de Bob Marley e contribuiu imensamente para a construção de sua imagem como compositor pop, revolucionário, musicalmente afinado. Ele adotou uma estética musicalmente suavizada com canções mais sentimentais como “Is This Love” e “She’s Gone”, por exemplo. Até mesmo a canção que abre o disco, “Easy Skanking”, deixa clara essa mudança.

Bob aproveitou para dar novos arranjos a faixas antigas, como “Sun is Shining” e “Kaya”. Durante o One Leave Peace Concert, que marcou seu retorno à Jamaica (após um atentado contra a vida dele), Bob apresentou essa sua faceta mais tranquila e acalmou os ânimos em sua terra natal, que sofria com a repressão policial e inúmeras complicações políticas. Nesse quesito, nenhuma faixa é tão importante quanto “Time Will Tell”, em que comparava: ‘Você acha que está no paraíso/Mas está morando no inferno‘.

3. Exodus

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 3 de junho de 1977

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1977 foi um ano turbulento para a música mundial, e não poderia ter um disco que melhor representasse a força do reggae nesse contexto do que Exodus, que mostra uma abordagem mais política do jamaicano. Bob criou um diálogo musical interessante com o punk rock da Inglaterra (“Punky Reggae Party”, que só foi lançada na versão deluxe), o groove universal de “Exodus”, a psicodelia de “The Heathen” e o roots meio pop de “Three Little Birds”, uma de suas canções mais conhecidas.

Este disco marcou uma espécie de desprendimento de Bob às raízes jamaicanas. No ano anterior, Bob sofreu um atentado em sua terra natal que quase tirou sua vida. Há especulações de que a CIA ou mesmo o governo interino do país estariam envolvidos nessa tentativa de assassinato. Contudo, a mensagem ainda foi positivista. Afinal, como sugere a canção “So Much Things To Say”, ele ainda tinha muito o que dizer. Destaque, também, para “Three Little Birds” e o medley de “One Love/People Get Ready”, exemplos de que a busca pela paz era o melhor protesto diante das turbulências de seu país natal.

2. Survival

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 2 de outubro de 1979

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Já falei profundamente desse disco aqui. Afinal, não é exagero nenhum dizer que este é o álbum mais importante de sua carreira, por expor sua faceta revolucionária e compromissada diante dos inúmeros problemas recorrentes na África, continente em que excursionou em comprometimento com suas raízes musicais e religiosas (“Africa Unite”, no caso, é a prova disso).

Não é para qualquer um tocar “Zimbabwe” no dia da Independência de um país que sofria com a colonização europeia e resumir de forma veemente os ‘causos’ do mundo com a aparentemente singela “So Much Trouble in the World”. Sem falar em outras canções grandiosas, como “One Drop” e “Ambush in the Night”, que relembra a noite em que quase foi assassinado na Jamaica.

Survival é um tributo honroso à mãe-África, além de mostrar a potencialidade de Bob em contextualizar os problemas sociais do continente de forma universal.

1. Burnin’

Gravadora: Island/Tuff Gong
Data de Lançamento: 19 de outubro de 1973

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Existe uma mística por trás desse disco. Foi o último registro em estúdio da banda original do The Wailers, com Peter Tosh e Bunny Wailer. Alguns singles foram remixados ou gravados novamente, como “Put It On” e “Duppy Conqueror”. Peter e Bob estavam com os nervos fervilhando não apenas pela difícil relação entre eles, mas também pela onda de repressão e violência que assolava a Jamaica.

As letras são bélicas, chegando até mesmo a incitar a reação dos rastafáris que fossem submetidos às batidas policiais humilhantes (vide “I Shot The Sheriff”). Se um dia as minorias ou todos os rastas decidissem ir para a guerra, teriam que colocar esse disco no player. “Get Up, Stand Up” dá o gás inicial, “Burnin’ and Lootin’” fala diretamente que o reggae não tem nada a ver com as falsas conexões com o tráfico de drogas e “Small Axe” ilustra a assertividade ideológica dos Wailers.

Por mais que soe como contraponto ao resumo da obra de Bob Marley, Burnin’ é a representação-mor da força das minorias. É um disco que vai além da estética musical ou da militância política. Burnin’ é, acima de tudo, um disco que consegue ambientar de forma perfeita essa necessidade de combater o establishment. Creio que essa é uma das maiores contribuições de Bob Marley para a cultura universal.

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