
01 Morena de Angola 02 Sem Companhia 03 Viola de Penedo 04 Ninho Desfeito 05 Coração em Chama 06 Peixe com Coco 07 Brasil Mestiço, Santuário da Fé 08 Dia a Dia 09 Estrela Guia 10 Regresso 11 Meu Castigo 12 Última Morada
13 Artifício (Bônus)
Gravadora: EMI-Odeon
Data de Lançamento: 18 de agosto de 1980
No dia 2 de abril de 1983, há exatamente 30 anos atrás, falecia uma das maiores vozes femininas da música brasileira. Seja no samba, nas modinhas ou nas canções afrobrasileiras, Clara Nunes se firmou como uma das maiores intérpretes da nossa música, quebrando o paradigma de que apenas cantores masculinos dominariam o mercado de vendas de discos.
O prestígio de Clara Nunes no momento de sua morte era tão grandioso, que houve polêmica acerca das verdadeiras causas de sua triste partida. Ela ficou 28 dias internada por conta de um choque anafilático após uma cirurgia de varizes, dando margem para possíveis erros médicos. Muitas especulações pipocaram na imprensa, mas a grande verdade é que, se quisermos nos contagiar com a doçura de voz da cantora, inevitavelmente teremos que recorrer aos seus discos.
E, como já é de costume da seção #Grandes Álbuns, fixaremos em um: Brasil Mestiço, até hoje o mais conhecido, elogiado e comercialmente bem-sucedido álbum da mineira de Paraopeba, ultrapassando a marca de 2 milhões de cópias vendidas.
O álbum começa com a alegre “Morena de Angola”, canção de Chico Buarque preparada especialmente para Clara depois de uma série de apresentações que resultaram no Projecto Kalunga – organizado pelo carioca e que também contou com a presença da mineira.
As alfaias e atabaques que introduzem a canção logo caem na síncope do samba, já servindo como vitrine para o caldo de influências africanas e brasileiras que permeiam o disco. Para divulgar o novo trabalho, Clara protagonizou um clipe numa plantação de cana-de-açúcar ensaiando passos que de alguma forma anteciparam o que seria o axé. Vemos mulheres negras com vestimentas que lembram o país africano retratado na música e uma intérprete alegre, celebrando a existência da personagem fantasiada. Ganhou estreia no Fantástico, da TV Globo, que por si só dimensiona a relevância artística da cantora (confira no final do post).
O clima alegre ainda toma conta do álbum com o baião festeiro de “Viola de Penedo” (letra de Luís Bandeira) e o partido alto de “Peixe com Coco” (Alberto Lonato, Josias, Maceió do Cavaco).
Quando vai para canções mais tristes, Clara Nunes não precisa de muito esforço para adequar suas cordas vocais. O timbre dela casa com tudo, por isso era fácil transitar por subgêneros do samba que vão da soturna interpretação de Nelson Cavaquinho em “Ninho Desfeito” ao hino proletário de “Dia a Dia” (Candeia, Jaime): ‘Não é mole não/Acordar segunda-feira pra tentar ganhar o pão/(…)Se você demora o trem pode passar’.
Foi aqui que Clara Nunes melhor cantou o difícil retrato de ser brasileiro numa época em que a repressão da ditadura começava a desvanecer – e a inflação, aumentar. E aí é que entra a importância do compositor Paulo César Pinheiro no álbum. Além de ser marido da cantora na época, ele afiou a pena para entregar letras que revelavam o Brasil como um país excludente.
“Estrela Guia” é uma marcha que versa sobre a ausência de tempos melhores, ou o ‘mais feliz dos Carnavais (…) pela esperança de um povo em paz’. Uma das canções mais emocionantes e belas já interpretadas pela cantora. A vocação com que Clara canta é um depósito de fé em um povo que encara a própria religião como um santuário, como canta em “Brasil Mestiço, Santuário de Fé”. Ela diz que ‘cantar é o único alento do trabalhador’. E é pelo canto que podemos fazer uma autorreflexão de nossa situação social, econômica e existencial. (Ah, só pra ressaltar: as duas canções citadas são de Paulo Cesar Pinheiro.)
Versátil que é como letrista, Pinheiro também fez questão de entregar o lindo samba-canção “Sem Companhia”, que ganhou arranjos dramáticos de Ivo Lancellotti, sem deixar de citar a solene “Meu Castigo”, onde a dor estoura por não aguentar mais a quietude.
‘Quando eu morrer/Eu quero uma batucada/Pra me levar à última morada’, cantou Clara Nunes em “Última Morada” (Noca da Portela, Natal). Não é o encerramento de seu último disco; a intérprete ainda lançou dois álbuns antes de sua partida: Clara (1981) e Nação (1982). Ainda assim, é uma bonita lembrança da cantora que expandiu a audiência do samba e colocou sua obra próximo ao cume das maiores intérpretes de todos os tempos.
