
Patrick Laplan iniciou com o projeto Eskimo em 2006
Começa com um looping tão rápido como um raio laser, e então parece que vamos ouvir um som psicodélico revivalista. Aí, entram nuances da surf music. Também ouve-se esquisitos barulhos de videogame. Em pouco menos de 40 segundos, a canção “Cavalo de Fogo” provoca vãs expectativas acerca do que está por vir. Se você ouvisse essa faixa sem saber o nome dela ou de quem está cantando, arriscaria todos os palpites possíveis – mas demoraria para adivinhar que se trata de rock nacional.
Tango à brasileira, surf music, folk reggae, rock pesado, samba-rock-eletrônico… Depois de ouvir Eskimo, seus comentários sobre o futuro do rock nacional certamente serão diferentes
O Eskimo não tem dificuldade alguma para reverter a (inexistente) lógica de que o rock brazuca está rodeado de clichês. Já tem cinco anos que o multiinstrumentista Patrick Laplan toca o projeto com o vocalista Cauê Nardi. Experiente, Laplan praticamente vivenciou a trajetória do rock nacional: já tocou com Biquini Cavadão, Los Hermanos, Rodox, Marcelo Yuka, MV Bill, entre outros.
E, apesar da deliciosa esquizofrenia de “Cavalo de Fogo” ter se tornado a porta de entrada para conhecer o grupo (a canção foi listada no Music Alliance Pact de junho, promovido por mais de 20 blogs de música em todo o mundo), ela apenas aponta os primeiros passos para o sincretismo que está por vir em seu recém-lançado álbum Felicidade Interna Bruta, que também conta com a participação dos músicos Dudu Miguens (guitarra), Fabrizio Iorio (teclados) e Diego Laje (percussão e bateria).
Tem um pouco de tango ‘à brasileira’, com percussões e distorções (“A Las Mujeres Les Queda Mal Torear”), surf music (“Homem ao Mar”), folk remodelado ao tempo do reggae (“No Fundo do Mar”), bate-cabeça (“Forte Apache”), samba com batidas eletrônicas (“Harbolita”, com o termo ‘você deixou de ser a Brastemp da minha vida’)… Só para citar alguns.
“Homem ao Mar”
Todo esse caldeirão de influências foi se gestando no processo de composição de Laplan. Em entrevista ao blog Música Contemporânea, o multiinstrumentista disse que Felicidade Interna Bruta evidencia seu processo de trabalho.
“Agora eu acredito que alguém pode ouvir o disco e dizer que entendeu quem eu sou”, disse Laplan. “Antes disso, teve muita coisa da qual me orgulho muito, mas que não dizia tanto de mim”.
“O Grande Crime”, por exemplo, começa com riffs de metal progressivo mas, abruptamente, cai para uma surf music torneada por teclados que formam ondas vibrantes. A letra é simples, fala sobre não se arrepender ao se arriscar – acaba entrando em contraponto com os versáteis barulhos que mostram a excelente produção da música. Mas é justamente aí que está a graça: uma espécie de tormenta que exibe as diferentes referências de Laplan e Nardi.
Em 2006, o grupo lançou um EP homônimo com quatro faixas que integram o F.I.B.: “A Curva”, “O Grande Crime” e “Homem ao Mar” e “Canção Para os Amigos”. No momento, o grupo prepara o videoclipe da canção “Bipolar”.
Depois de ouvir Eskimo, seus comentários sobre o futuro do rock nacional certamente serão diferentes. Neste caso, diferente para melhor.
“Cavalo de Fogo”
