Na quarta-feira passada, o selo Laboratório Fantasma disponibilizou para download gratuito o segundo disco solo de Rael, Ainda Bem Que Segui as Batidas do Meu Coração. É o segundo trabalho do rapper, que agora se firma como cantor. Ele sucede MP3: Música Popular do 3º Mundo, de 2010.
Produzido pela dupla Beatnick e K-Salaam – que, além de produzir trabalhos de Lauryn Hill e de grupos jamaicanos, estiveram envolvidos em Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011), de Emicida – Ainda Bem… traz mais referências da música brasileira, sem deixar de lado as típicas rimas do rap.
Tem a levada afro-beat de “Caminho”, já mostrada no ano passado, o ragga dançante de “Diáspora” e até uma releitura do samba noventista, “Oya”, grande sucesso do grupo Sensação.
Mas a primeira canção escolhida para ter um clipe foi a romântica “Semana”, lançada hoje. O vídeo em preto-e-branco mostra Rael e a banda em ambientes familiares, como se tivessem ensaiando para uma serenata. “Escolhi ela porque é a que mais destoa do disco musicalmente”, disse o músico em entrevista ao Na Mira.
Confira o clipe abaixo. A direção é de Emicida e Felipe Rodrigues:
Além disso, o cantor (e rapper, também) explicou o conceito de Ainda Bem…, falou do congelamento com o Pentágono e as novas incursões musicais que permeiam seu disco “mais maduro e profissional”, de acordo com o próprio.
A seguir, a entrevista:
Seu novo disco é produzido por K-Salaam e Beatnick, que produziram o último trabalho do Emicida. Como foi esse encontro? O que a dupla agregou ao teu som?
O encontro rolou quando fui gravar a mixtape do Emicida em Nova York, no estúdio deles. Aí rolou a ideia de fazermos algo juntos. O Emicida ia ficar um tempo sem gravar e me perguntou: ‘Rael, como você tá fazendo o seu disco?’. Eu disse que estava fazendo sozinho em casa; cheguei a lançar o single “Ela Me Faz”.
Ele falou assim: ‘vamos fazer pela Laboratório Fantasma e chamar alguém pra produzir, de repente o Beatnick e o K-Salaam mesmo’. Aí rolou, os caras vieram pra cá, ficamos 20 dias no estúdio da Trama e produzimos o disco. Foi bem louco, porque eu já era fã dos caras e ouvia antes mesmo do Emicida gravar com eles; ouvia as mixtapes e os discos produzidos na Jamaica.
Agora você está tocando com banda, como deu pra ver numa apresentação do ‘Metrópolis’, na TV Cultura. Como foi essa decisão?
Desde o disco MP3: Música Popular do 3º Mundo (2010), a ideia sempre foi fazer com banda. Só que naquele tempo eu não consegui construir uma estrutura. Rodei mais com DJ, mas o próprio MP3 foi gravado com banda e não teve nada sampleado.
Na verdade, temos três formações: uma banda que vai estar no lançamento [dia 28/03, no Sesc Vila Mariana]; uma mais reduzida, porque às vezes pode complicar para viajar; e, em último dos últimos dos casos, a gente faz com DJ.
O novo disco mostra que você está bem mais apoiado com a banda, mesmo.
O MP3 foi meu primeiro trampo assinando produção e entrando com banda no estúdio, porque eu não tinha experiência de como captar a musicalidade.
Além disso, o que mais você sentiu que existiu de evolução do MP3 para o novo disco?
Ah, cara, tanto eu quanto as pessoas envolvidas são bem amadurecidas dentro do projeto. O Beatnick e K-Salaam têm experiência com produção e, para eles, acrescentou também porque eles nunca tinham produzido um artista direto no estúdio.
O forte deles sempre foi o rap mesmo, além de algumas coisas puxadas pro reggae. Aí eles se deparam com “Semana”, por exemplo, que é uma música bem brasileira. Então, acho que foi uma evolução de ambas as partes. Eu estou achando o disco mais maduro, mais profissional, com cara de 2013.
“Sempre gostei mais de cantar do que de rimar. Meu forte sempre foi mais a melodia, e exploro isso bastante nesse novo disco”
Você falou de “Semana”: ela é uma canção mais melódica e romântica. E, além dela, tem outras músicas em que você adotou essa linha. Isso tem a ver com o novo Rael, que também já não é mais só ‘da Rima’?
Na verdade eu já tinha algumas músicas prontas. Mostrei pros caras e acabou mudando tudo: umas entraram, outras ficaram de fora. E a “Semana”, eles me mostraram um arranjo no violão no estúdio, eu fiz a melodia na hora, rolou e ficou o que se pode ouvir.
Eu acho que este é um Rael que já existia dentro de mim, mas que se soltou agora no calor do estúdio. [O antigo Rael] não estava maduro ainda para fazer com confiança um trabalho mais sólido. Sempre gostei mais de cantar do que de rimar. Meu forte sempre foi mais a melodia, e exploro isso bastante nesse novo disco. Acho que Ainda Bem… é um MP3 melhorado.
Sobre participações: no disco, Emicida e Paulo MSário, que já são colaboradores há um bom tempo, cantam. Mas também tem a Mariana Aydar e o Péricles, que me pareceram inusitados. Como aconteceram essas parcerias?
Eu gosto de samba dos anos 1990: Sensação, Katinguelê, etc. E aí rolou essa ideia de regravar a “Oya” (letra de Carica, com o Prateado). Pensamos juntos em quem chamar pra participar, e aí falamos do Péricles. Mas o foda é que ele tinha gravado há pouco tempo um DVD em que canta 10 músicas do Sensação, inclusive a “Oya”.
Pensamos: será que ele vai topar? Mandamos a proposta para a Nova Show, que o agencia, e ele disse: ‘demorou, tô dentro’. Disse que conhecia meu trabalho, achava legal, que eu era um dos caras que estava mudando a forma do rap hoje em dia. Fiquei felizão, porque também sou fã dele. Ele abraçou a música e colocou um acento fodido. O Emicida também escreveu em cima e ficou bem louco.
E com a Mariana Aydar, como foi?
Eu já tinha a letra da canção, e pensei que seria uma boa ter um diálogo com uma voz feminina. Conversei com o [Evandro] Fióti, e ficamos ouvindo, estudando o estilo de algumas cantoras que estavam em atividade. Paramos em uma música da Mariana Aydar e percebemos o timbre dela. Achamos da hora. Ela estava em turnê na Europa e, de lá, curtiu pra caramba. Como estávamos em estúdio, tivemos que esperar um tempo pra ela voltar – tanto que ela escreveu a parte dela no avião.
O legal da música é que ela foge daquela ideia clichê: de um cara falar algo pra uma mina responder. Ela aparece como conselheira, me dá um toque dizendo que mulher é de um determinado jeito. Achei bacana essa ideia.
Por que a escolha de “Semana” como primeiro clipe? Vem mais clipes por aí?
Quando eu estava fazendo o disco, é como se tivesse cozinhando. Vem com a massa, vai experimentando e prepara para outras pessoas degustarem. Conversei com várias pessoas e a maioria delas teclava: ‘bum, “Semana”!’. Aí falei: ‘ah, vamos chegar com ela’. Porque ela destoa do disco musicalmente. É uma coisa bem brasileira.
Íamos soltar o clipe no mesmo dia de lançamento do disco, mas achamos que era muita informação – já tinha disco novo pra baixar. Futuramente, dependendo de como tudo fluir, a vontade é de fazer mais clipes, sim. Eu tenho vontade de fazer o clipe da “Diferenças”.
Achei “Diferenças” uma das melhores músicas do disco. Teve alguém que o inspirou na letra? Alguém com uma correria parecida, ou que já chegou a passar por aquela situação?
Quando trabalhava e estudava, eu tinha essa dificuldade comum de quem mora em São Paulo. Uma vez eu colei numa faculdade e tinha uma galera com condições melhores que estava, tipo [imita uma voz de garota patricinha]: ‘ah meu, acho que vou parar, não sei o que quero’. Eu falei: ‘pô, você tá brincando com o dinheiro do seu pai?’.
E nessa mesma faculdade tinha um rapaz que trabalhava lá, que cuidava da manutenção pra poder pagar os estudos. Isso ficou na minha mente. Falei: ‘caralho, a menina com tudo na mão e não tá nem aí’. Disso veio a ideia de fazer a letra: entrei nessa temática e decidi contar um pouco disso. Coloquei a voz e só depois percebi que ela funciona como um filme.
O legal é que a música não entra naquela ideia: ‘o rico tem e o pobre não tem e tudo tá uma merda’. É uma realidade ao mostrar que tudo depende do esforço de cada pessoa, não importa a classe social.
E não cai naquele depoimento de sofredor, de perdedor. É um depoimento de quem está correndo atrás. O personagem vai atrás das coisas, só que é difícil pra ele. Apenas isso: fala de extremidades.
“Tanto eu quanto as pessoas envolvidas são bem amadurecidas dentro do projeto. O Beatnick e K-Salaam têm experiência com produção e, para eles, acrescentou também porque eles nunca tinham produzido um artista direto no estúdio”
Mas você acha que de uns tempos pra cá tem mudado isso, ou isso tende a acontecer muito mais?
As diferenças sempre irão existir. Deu uma clareada agora, porque o Brasil de hoje não é o mesmo dos anos 80 e 90: temos mais oportunidades. Mas tem que ir atrás! Nesse tempo que estou na música, considero uma faculdade e estou me formando agora. Tenho que fazer pós-graduação ainda. Você cola em algum lugar e vê que tem gente limpando o rabo com dinheiro, enquanto para outros a situação é mais complicada.
Qual a sua perspectiva em relação ao Pentágono, que você fazia parte? A ideia é manter os dois ou focar apenas na carreira solo?
Agora, eu parei pra focar nesse trampo, que envolve várias pessoas, não só eu: a Laboratório Fantasma, o Beatnick, K-Salaam, ensaios, músicos e muita gente que está se prontificando pra fazer acontecer. Então não dá pra conciliar os dois, tive que parar. Já trocamos essa ideia faz tempo, fizemos um vídeo explicando que isso aconteceria.
Mas os caras estão fazendo shows sem mim e correndo atrás dos trabalhos solo. Foi uma decisão que tomamos antes mesmo de sair o último disco [Manhã]. Nele foi tudo ‘pá-pum’, não houve aquele tempo que sempre tivemos nos anteriores. Foi uma correria pra fazer.
Mas vai rolar de reunir o Pentágono novamente?
Vai, vai. Os próprios músicos da banda que formei pro disco: provavelmente terei que reduzir no meio do caminho. Mas não significa que não vou mais tocar com eles. É difícil essa parada, mas é necessário para que o projeto possa andar – a mesma coisa que fiz com o Pentágono. Tive que parar e falar: não, desta vez vou ter que focar nisso. Foquei vários anos com o Pentágono e deu certo o trabalho conjunto. Depois, eu vou estar a pampa, eles vão estar a pampa, e vamos partir pra outra!
