Créditos da imagem: Gilberto Silva (ogilsilva)

Marcus Vinicius Silva escuta rap desde os 12 anos, mas só conseguiu gravar seu primeiro álbum solo vinte anos depois. Até o lançamento de Non Ducor Duco, Kamau (como Marcus é conhecido) integrou o grupo Consequência com Sagat e DJ Ajamu, participou de um processo seletivo para ser VJ da MTV com a saída de KL Jay (não conseguiu, já que a emissora estava de olho em Thayde) e lançou o disco Escuta Aí com o projeto Simples que, além dele próprio, era composto por Stefanie e Rick.

Sem falar na clássica entrevista que fez com o rapper Sabotage, a criação da gravadora Plano Áudio, a parceria com o grupo Instituto e a desistência da faculdade de Matemática na Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). “Fiz matemática quando comecei a rimar, em 1997”. Mas acabou não se formando. “Se eu tivesse focado, teria me formado. Fiz dois anos, voltei pra cá e fiquei um ano. Daí, voltei e ainda tinha dependências do primeiro ano”. A data de quando trancou ainda está na memória: “Em 28 de agosto de 2002, parei”.

Em um sábado de sol enganador devido ao frio de inverno, Kamau recebeu a mim e ao produtor audiovisual Gilberto Silva para uma conversa em sua casa. O grande acervo de LPs limita o espaço do cômodo em que estamos: da trilha sonora do clássico filme Ao Mestre Com Carinho ao novo álbum do Criolo, Nó na Orelha, o rapper deixa exposto suas ricas influências para uma conversa informal que partiu da influência da lógica no seu processo de composição aos tempos de skate. Além das discussões em torno do rap, é claro.

Quando você compõe ou faz alguma rima, acha que a matemática influencia?
Acho que sim, no sentido de fazer com que a lógica leve de um ponto a outro. Na matemática, aprendemos o por que de cada fórmula. Quando eu não sabia, deduzia. Inclusive, aprendi a raciocinar desta forma, a minha cabeça funciona meio estranha: apontar pra um barato e falar ‘isso é isso’. Raciocínio lógico.

Você ainda vem colhendo bons frutos com o Non Ducor Duco? Já se vão três anos desde o lançamento dele.
Graças a Deus eu fiz um álbum. Porque era o conceito que eu queria, fazer uma obra sólida e que me fizesse pensar nas coisas que eu ouvia antes. Por exemplo, o disco Midnight Marauders (A Tribe Called Quest) ou Things Fall Apart (The Roots), foram lançados nos anos 90 e eu escuto até hoje. E eu queria fazer uma música que, quando eu escutasse, ainda soasse atual para mim e tivesse uma relevância. Engraçado que hoje em dia as pessoas falam ‘Tô ouvindo uma música do Kamau de ‘mile anos’’, mas o disco [Non Ducor Duco] tem três anos. Então eu penso na música soar bem fora do tempo dela. Talvez tenha colhido bons frutos porque não fiz algo jogado.

O rap está em uma ótima fase e se expandindo cada vez mais, se desamarrando de algumas regras que as pessoas acham que a gente tem que seguir

O Non Ducor Duco é intimista, como se percebe em “Equilíbrio” e “A Quem Possa Interessar”. Pretende seguir essa linha nos próximos trabalhos?
Minha música em geral tem esse aspecto. Eu falo o que eu acho, que nem em “Parte de Mim”, como diz o refrão: ‘Falo de mim, do que eu sou, do que eu vejo, o que eu penso e desejo pra fazer minha parte’. Quero o melhor pra mim e pra minha família através do meu trabalho com a música. Falo em primeira e segunda pessoa geralmente.

Hoje o rap vive um novo momento comparado aos anos 90. Muita gente da classe A e B está envolvida, sendo que antes havia um certo distanciamento, talvez por conta das letras. Como você vê o rap atualmente?
Naquela época, a informação não era tão imediata como hoje. Sempre quem tinha um padrão melhor de vida tinha esse acesso, e isso distanciava muito uma pessoa da outra. Ao mesmo tempo, o rap não tinha acesso a algumas coisas e não fazia questão de sair do mesmo lugar. E algumas pessoas tinham receio de chegar no rap, não faziam questão de saber mais. Acho que as pessoas estão começando a perceber que precisamos trocar informações. Se a gente não fizer isso, vamos viver num mundo viciado, e isso não ajuda a evoluir em nada. Hoje todo mundo acha que sabe tudo, mas sabe dentro do seu mundo. Várias pessoas estão ouvindo rap agora e são de lugares, vivências e aprendizados muito diferentes do meu. Não posso pensar que isso é um distanciamento do que era antes, penso mais como uma conquista de quem faz rap. Ninguém quer ficar no déjà vu a vida inteira. Se você quer o passado de novo, olha pro passado, e volta pro presente.

Antes, o rap era imbuído de mais crítica social. Ainda hoje também é. Mas hoje já se fala mais de amor, de sentimentos íntimos com mais liberdade.
Sempre teve isso, só que as pessoas resolveram falar de outras coisas. O problema é quando as pessoas esperam que o rap fale de certa coisa. Em “Qual é o Critério?” (da mixtape Pau de Dá em Doido Vol. 1) falo ‘gritar pra quem não escuta é importante pra você?’. Por muito tempo o rap falou: ‘vocês, o governo e tal’. Estamos muito longe deles. Não estava errado antes; quer dizer, estávamos fazendo de um jeito que não estava funcionando muito bem. E agora estamos fazendo rap de outra forma. Se eu falar para um camarada que ele tem que estudar, estou atingindo muito mais do que falar que o governo precisa melhorar a nossa educação. A Dilma não vai ouvir o meu rap assim. Essa liberdade que temos agora de conversar com os nossos próximos é o diferencial – e os próximos nos entendem muito mais.

Pretende continuar com o projeto Simples?
Quero fazer meu próximo disco em primeiro lugar. O Rick acabou de lançar um disco, Meu Dito Meu Feito. A Stefanie está trabalhando em um disco. Está todo mundo trabalhando, é bom que isso aconteça. O reencontro é natural, nunca nos separamos.

Como está o andamento do próximo disco?
Estou há um tempo sem lançar EP, mixtape ou álbum. Não posso ficar correndo atrás do ritmo do mercado, senão a música vira um produto. Já tenho o nome do EP: Entre, porque está entre um álbum e outro. Tem 7 ou 8 músicas inéditas e mais 4 ou 5 remixes, uma grande quantidade para um EP. Tenho uma releitura da música da Flora Matos, “Pretinha”, a “Só” (de Non Ducor Duco) remixada e o remix da “Resistência”, com a Invincible. Elas estão confirmadas. O EP vai juntar algumas músicas que já saíram, como a “21/12” e a versão oficial da música “Eu Vou”, que lancei no ano passado, além de outras coisas.

Tem previsão de lançamento?
Breve. Assim que tiver pronto. Não gosto de prometer.

Já fez alguma turnê fora do Brasil? Pensa pro futuro?
Não cheguei em várias cidades daqui ainda, mas penso sim. Só que a barreira maior é a linguagem. Tenho muita vontade de ir aos países que falam português na África: Guiné-Bissau, Angola, Moçambique etc, e Portugal também. Dizem que meu rap é conhecido na Angola, já falaram que minha música toca bastante lá, graças a Deus.

Como andam os negócios com a gravadora Plano Áudio?
O site está fora do ar, mas aproveitamos para direcionar pro meu trabalho. A Plano Áudio sou eu, meu cérebro, meu coração e minhas pernas. Foi assim que lancei o disco do Simples, minha mixtape, meu álbum e assim que espero lançar meus próximos trabalhos. Uma parceria é sempre bem-vinda, mas ainda não aconteceu. Por enquanto, a Plano Áudio é minha assinatura nos trabalhos que faço.

Pretende expandir?
Primeira coisa que quero fazer é lançar quem está mais próximo, talvez a Stefanie. Teve alguns que ficaram próximos de lançar, mas não aconteceu. Pretendo dar continuidade, sendo meu ou de outras pessoas que têm a ver com o que eu penso.

Como você vê o rap de forma universal? Acha que ele está mais pop?
O rap está em uma ótima fase e se expandindo cada vez mais, se desamarrando de algumas regras que as pessoas acham que a gente tem que seguir. Estamos evitando essas amarras e cruzando fronteiras que não necessariamente tornam tudo uma coisa só. O rap consegue conversar com o mundo todo, assim como o rock. Mas acho que o rap consegue conversar muito mais entre si. Por exemplo, tem banda que faz rock em inglês aqui pra poder ir pra fora. Não desmerecendo, mas o rap consegue fazer o som na sua própria língua e conversar com outros raps. Posso não entender o que o cara está falando, mas eu sinto isso. Temos duas opções: ou escutar o que chega, ou procurar o que a gente gosta.

Pensa em alguma parceria com rappers de lá de fora?
Sim, já tenho um som em parceria com a Invincible e pretendo trabalhar com o J Live. Tem vários hoje em dia que gostaria de trabalhar, principalmente produtores. Como letrista, o LMNO, de Long Beach, que já consegui conversar. Daqui tem vários que quero trabalhar também: MV Bill, Seu Jorge, Mano Brown. Gostaria de fazer algo com o Marcelo Camelo também, a gente ensaia no mesmo estúdio onde o Instituto ensaia. Gosto dos Los Hermanos.

Estou gravando algumas faixas do meu novo trabalho na casa dos caras do Strike. O André gravou guitarra em algumas músicas, o Cadu vai tocar bateria em outras. Quem sabe não posso estar no próximo disco do Strike também

Já pensou em explorar outros ritmos além do rap em próximos trabalhos?
Pretendo incorporar outros elementos ao meu som, que é o que o rap pode fazer que outros gêneros não fazem com muita propriedade. Não me vejo com talento para outras coisas. Eu sempre vou beber em outras fontes e me inspirar nas mais variadas coisas, principalmente por conta dos meus parceiros musicais. Estou gravando algumas faixas do meu novo trabalho na casa dos caras do Strike. O André gravou guitarra em algumas músicas, o Cadu vai tocar bateria em outras. Quem sabe não posso estar no próximo disco do Strike também.

Mas sempre rola aqueles comentários: ‘ah, o cara é do rap, e está gravando com caras do rock mais pop’. Acha que isso é um preconceito que vem se desvencilhando, como é?
Está recomeçando. Porque eu também não sei o que se passou quando o Run DMC gravou “Walk This Way” com o Aerosmith. E hoje em dia é um clássico. Ou quando saiu o disco Judgement Night, com o Helmet fazendo parceria com o House of Pain ou o Teenage Fanclub com o De La Soul. Muita gente falou mal sem ouvir. Sobre a minha parceria, não digo que todo mundo vai gostar ou achar um clássico. Sempre tem a estranheza e aquele ciúme, tipo ‘meu rap não pode se misturar com aquela parada que não acho legal’. E tem aquela inimizade por associação.

Não é uma coisa boa para ambos os lados?
O mais importante pra mim nesse laço é a amizade que se cria. E compartilhar vivências. Por exemplo, eu já toquei fora e o NX Zero não. Eles foram lá pra passear, e eu não. Tem aquela troca de ideias, porque é a música trocando ideia, e isso é bem louco.

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Antes de se tornar conhecido no rap, Kamau já havia competido em campeonatos de skate. Hoje em dia, aos 35, se diz ‘velho’, mas continua na cena fazendo locução em algumas competições. “Assim, posso ir pro campeonato com tudo pago, sem o estresse da competição e ainda encontrar os meus amigos”. Faz isso com tempo limitado, já que se dedica bastante à música. “Mas nunca vou deixar de ser skatista”.

Falando em ser ‘velho’, eis que Gilberto Silva não deixou escapar:

Gilberto Silva: Kamau, vejo você meio que um ‘paizão’ nessa nova cena do rap, tanto do Emicida quanto da Flora Matos, assim como de outros rappers. Estou errado em relação a isso?
Não diria que sou o ‘paizão’, estou mais para aquele ‘tio que leva pra passear’, tá ligado? A Flora nem tanto, ela veio pra cá por conta dela e o KL Jay deu oportunidade pra ela. Emicida e eu nos conhecemos batalhando em Alphaville em uma rádio. A parceria foi natural e eu acreditava nele. Levei ele pra vários lugares, como o Indie Hip Hop, participei do lançamento do primeiro single, “Triunfo”. Eu tive oportunidades dadas por outras pessoas também. O primeiro grupo que me deixou fazer uma música junto foi o Possementezulu. Mas sou amigo do Rappin’ Hood há muito tempo porque andava com o Parteum de skate. Sempre falo: ‘pô, chega aí’. Quero mostrar isso pro mundo e eu faço isso com as pessoas.

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Para finalizar, deixo um momento confessional de Kamau, que não está encaixado em nenhuma das perguntas feitas.

“Sempre tenho uma playlist que faço no final do ano. Sempre passo sozinho, num quarto escuro agradecendo o ano que eu tive e pensando no outro que quero ter. Eu sempre escolho uma música pro momento certo da virada da meia-noite. Em dois anos seguidos, toquei a “Equilíbrio”, porque ela é muito significativa pra mim. No primeiro ano, foi porque consegui fazer o disco e, no segundo, porque vi que tinha muito a ver ainda. E de 2010 pra 2011 eu coloquei a “Só Rezo”, do NX Zero. É algo que realmente acredito: queria rezar porque talvez estivesse em um momento de bloqueio e precisava disso aí. Ainda acho uma música boa, o próprio Di diz que foi uma das paradas mais maduras e soltas que ele já fez”.