Dani Turcheto sabe tocar guitarra, gosta de rock e tem grande apreço pela música americana. Mas é um sambista, daqueles que tocam cavaco e reverenciam Paulinho da Viola. Ainda assim, ele injeta outros gostos musicais na pureza do seu som – coisa que se percebe ao ouvir seu disco Madeira Torta, lançado neste ano e distribuído pela Tratore.

Tem órgão Hammond, baixo, efeitos wha-whas nos cavaquinhos… “O som que faço, que é bem anos 70, tem referência da banda da Elis Regina, César Camargo, Zimbo Trio”, definiu o músico. “Eu adoro rodas de samba, sempre toco, mas o meu autoral é samba-jazz, porque faço arranjos pensando no teclado, no baixo. Não penso no sete cordas”.

Em entrevista ao Na Mira do Groove, Dani falou sobre o processo de gravação de Madeira Torta, o contexto do samba nos dias de hoje, o projeto de relançar alguns vinis e, claro, a influência de Paulinho da Viola e a importância de João Gilberto. Confira o bate-papo:

Desde quando você começou a fazer música?
Sou sambista desde criança. Toco em roda de samba, festa de família, festa de amigos, sempre teve samba na família. Desde pequeno, me davam um tamborinzinho pra sossegar; a molecada brincava, e eu queria batucar. Aí eu saía em escola de samba, saí tocando em baterias. Também tocava rock: toco violão e guitarra desde criança também. Mas quando estava acabando a adolescência, o rock foi perdendo influência e eu comprei um cavaco. Aprendi a tocar em seis meses! (risos). Então, o samba é muito minha parada mesmo. Comecei a fazer sambas, gravei o Sobremesa em 2007 e lancei em 2009. Já Madeira Torta, tem composições desde 2009 até agora.

Você até diz no encarte que houve um amadurecimento natural entre os dois discos.
Sim. Gravei Madeira Torta metade aqui e outra metade em Nova York. Gravei com um pessoal gringo: tem o Jon Cowherd, ele é muito foda. Gravei em um estúdio que tinha três Hammonds, diversas guitarras, baixo, bateria… aí tinha o B-3 [uma categoria de teclado], e eu não sabia se ele tocava muito. Ele mandou a primeira… foi foda! No primeiro take, eu estava com o produtor e falei: ‘o que é isso?!?’. Chamei o Jon e falei: ‘grava todas’ (risos!).

O Hammond fica evidente em várias faixas mesmo.
Em várias. Ele gravou todas, mas ponderamos bem, senão ia ficar um disco de Hammond. Mas o cara é muito talentoso. Gravar lá ajudou muito. Meu produtor, João Erbetta, que gravou os baixos, não é sambista. Ele gravou os baixos mais ‘no chão’, para os gringos fazerem a onda. Decidimos não abrazucar: vamos deixar eles fazerem o jazz deles no samba. Achei que ficou legal por conta disso.

O seu samba cria um diálogo com a música americana, algo não tão comum. Você considera essa tomada de decisão algo arriscado?
Como a bossa nova trouxe muita coisa do jazz, principalmente na cadência harmônica, rolou uma mistura natural na rítmica brasileira com influência americana. O som que faço, que é bem anos 70, tem referência da banda da Elis Regina, César Camargo, Zimbo Trio. Tem muita coisa americana no som deles. Se você volta lá atrás e ouve samba, vê uma influência do jazz muito grande. No meu som, com certeza tem isso. É o groove, cara: uma divisão que você não explica, que tem pra todo lado.

Mas você define seu som como samba?
Samba-jazz, no caso. Normalmente quando falo samba, o pessoal já pensa em rodas. Eu adoro rodas de samba, sempre toco, mas o meu autoral é samba-jazz, porque faço arranjos pensando no teclado, no baixo. Não penso no sete cordas.

“Madeira Torta” é uma metáfora feita para o gênero feminino. Tipo uma mulher que não tem um amor correspondido, então é uma metáfora que fala que a árvore e a planta, quando não são regadas, vão secando e se entortando. E a pessoa que também não recebe amor vai secando, sofrendo.

Qual a sua principal referência dentro do samba?
Não tem um, posso te falar cinco? João Bosco, aquela banda do César Camargo e Mariano, que tocava com a Elis Regina, Paulinho da Viola, Chico Buarque. Putz, é difícil encerrar… João Nogueira.

E João Gilberto?
Ele é muito foda! É que eu não faço voz e violão. Mas o João é sinistro. Ele adianta a harmonia e atrasa a melodia na levada do violão. É muito louco! Ele tem uma maestria no acorde, na harmonia, que é coisa de maluco. João é meio maluco mesmo. Ele inventou muito acorde: ficou martelando que depois de uma nota sol tinha que vir um lá, mas que não existiam.

Por que ‘Madeira Torta’?
Porque a primeira música do disco se chama “Madeira Torta”, que é uma metáfora feita para o gênero feminino. Tipo uma mulher que não tem um amor correspondido, então é uma metáfora que fala que a árvore e a planta, quando não são regadas, vão secando e se entortando. E a pessoa que também não recebe amor vai secando, sofrendo. Fiz a música quando estava em um inverno, dois meses sem chover. Andava numa praça e via todas as árvores secas, dava a impressão de que elas iriam morrer. Tipo um cachorro sem dono. Quando se dá água pra planta, você está dando amor pra ela.

No primeiro disco, Sobremesa, a primeira faixa também é a mesma do álbum. É algo que você persegue?
Não, foi coincidência mesmo, acabou rolando.

E o processo de gravação, como foi?
Eu estava aqui, e aí o João Erbetta, amigo de infância e produtor do disco, estava em Nova York e voltou pro Brasil para recomeçar. Aí chamei ele pra produzir meu disco, e ele topou. Ele disse que ia ter que voltar pra Nova York porque precisava terminar diversos trabalhos. Aí eu disse: ‘pronto, a gente grava aqui e lá’. Gravei a metade do disco aqui e a metade lá, ele mixou em 15 dias, e levamos mais 15 dias para masterizar.

Todas as canções já estavam prontas?
Sim, só uma que regravei do Chico Buarque (“Amanhã Ninguém Sabe”), que pegamos em cima da hora. Mas as minhas já estavam prontas.

Em relação à turnê: tem feito muitos shows?
Fiz dois shows do disco Madeira Torta lá em Londres. Fui pra Portugal e gravei um programa e aí voltei, fiz show na Fnac, na Melodrama. Está indo.

Já tem um público consolidado?
A galera gosta, mas ainda estou definindo público. Tem muito amigo de amigo de amigo. Meu som não é dos mais populares, mas estou ralando. Estou começando um projeto de montar um selo só de vinil, pra lançar artistas novos e relançar discos antigos, mas que já estão esgotados. Estamos relançando o Di Mello, que gravou um disco de 1965 que já esgotou. Já estamos prensando, eu e o DJ Niggas, do projeto ‘Vinil é Arte’. Temos alguns canais de venda, via DJ.

Vocês estão sondando quais os próximos a relançar?
Isso está mais com o Niggas, que ele trabalha com vinil há 15 anos. Ele sente muito o que o mercado precisa. Temos que conciliar títulos artisticamente interessantes com o valor de mercado, lançar uma coisa que venda, senão não vale a pena prensar tudo de novo.

Acho que o pagode é uma escolha popular que tem que ser bem respeitada; ele vem de uma árvore genealógica do samba. E é bom ter bastante samba, bastante pagode, bastante samba de raiz.

Dani, como você vê o contexto do samba hoje?
Em São Paulo, acho que o samba reviveu. Vemos um monte de bar de samba, tinha sumido isso. No meio disso tem muito pagode – mas, quer saber? – não é o que faço, mas não tenho nada contra. Acho que é a maior expressão popular, tem uma raiz ali. Muita gente diz ‘ah, legal é nos anos 70, quando tocava Chico Buarque nas rádios’. Meu gosto seria esse, mas era o que o povo daquela época tinha disponível. Hoje eles têm uma gama muito maior, e o povo quem está escolhendo. Acho que o pagode é uma escolha popular que tem que ser bem respeitada; ele vem de uma árvore genealógica do samba. E é bom ter bastante samba, bastante pagode, bastante samba de raiz. Tem uma galera que já tinha feito esse tipo de som há alguns anos atrás, como a Mariana Aydar, que eu gosto muito. Essa coisa do samba-jazz é um outro braço.

Mas tem uma diferença: a Mariana traz o jazz, mas com uma vertente mais próxima da MPB. Você é mais apegado ao samba…
Porque eu toco cavaco, acaba puxando. Toco com pedal de efeito, uso wha-wha, delay… tem música que fica com o cavaco limpinho, que puxa mais pro samba de raiz. Aí, quando meto efeito, como eu toco com baixista ao invés de violonista, os músicos entram na onda e sai um som meio jazz. Na hora que eu desligo os efeitos, deixo o violão e pego o cavaco, puxo de novo pra raiz.

Ao vivo funciona legal os efeitos num cavaco?
Acho que sim. Eu prefiro os shows do que o disco. Fica bem louco!

O Fred Zero Quatro (Mundo Livre S/A) faz isso também, né?
Sim. Mas peguei muita referência do Paulinho da Viola, que ouço desde pequeno. Fica meio tradicional mesmo o som.

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Para conhecer mais o som de Dani Turcheto, visite o seu site oficial.

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