Quem disse que ele não esteve por aqui? Afinal, o que quer dizer as premiações na MTV, os shows em grandes festivais como Coachella e Lollapalooza, os grandes registros de venda no iTunes, os mais de 800 mil fãs no Facebook e as mixtapes elogiadas pelas principais publicações brasileiras?
Emicida tá na área, e faz um bom tempo. Começou com a distribuição independente de Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe (2009) e, poucos meses depois, Sua Mina Ouve Meu Rap Tamém.
Prestígio maior veio com Emicídio, que integrou a lista de melhores discos de 2010 da revista Rolling Stone brasileira.
A partir daí, a guinada do MC que impactou com suas rimas matadoras teve grande ascensão. O rapper conheceu os produtores Beatnick e K-Salaam e ‘não perdeu a chance’, como diz, de gravar seu trabalho considerado mais elogiado, Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011).
Dois anos se passaram e, uma semana após o lançamento oficial de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, pode-se dizer que a aura de melhor trabalho anda em sintonia com o impacto do primeiro álbum.
“Eu queria muito um disco que fizesse justiça ao caldeirão de músicas que escuto, mas sem ficar com cara de coletânea ou como se estivesse atirando pra tudo que é lado”, disse Emicida em uma coletiva que contou com a presença de repórteres da Revista TRIP, Portal Vírgula, o site RockinPress e este que vos escreve. “Achei que muito do que estava escrevendo não estava me trazendo um ar de novidade. Fiquei quase um ano sem escrever pensando pra que lado levaria a minha música”.
Diferentemente dos outros trabalhos, ele foi pensado para direcionar a música do rapper a um panorama mais amplo, que engloba referências que permeiam a nova cena musical brasileira. Isso, claro, denota outro marco em sua carreira, até então erigida com EPs e mixtapes. “A mixtape é muito definida pelo tempo. Se parar em um final de semana, dá pra fazer uma”, separa o músico. “Um disco como esse já abraça uma estética maior”.
A produção musical levou em torno de cinco a seis meses. Sincronizando agendas, contando com uma colaboração mais ativa de parceiros e lapidando os versos com mais cautela, O Glorioso Retorno… reúne participações tidas como improváveis. Claro, os parceiros das antigas como Rael (“Levanta e Anda”) e Quinteto em Branco e Preto (“Hino Vira-Lata”) continuam lá, mas a primeira amostra de que algo diferente estava por vir bateu com a divulgação anterior de “Hoje Cedo”, com participação da Pitty.
“Eu queria gravar com a Pitty há muito tempo, mas ainda não tinha composto alguma coisa que ia deixá-la à vontade”, confessou o rapper. “Ela é uma das melhores compositoras que temos hoje. No quesito de levar qualidade para as FMs, é uma das linhas de frente, principalmente quando falamos de música jovem. A Pitty coloca uma densidade que às vezes necessita de certo tempo pra ser assimilada”.
Outra participação notável é a de Tulipa Ruiz em uma canção que soa como novidade na obra de Emicida. É o caso da singela “Sol de Giz de Cera”, que trafega por uma linha mais MPB. ““Sol de Giz de Cera” leva uma pessoa pra dentro da história. Conseguimos soar autênticos ao contar uma história triste, mas [na canção] eu quis fazer um caminho inverso: contar uma história que não tivesse um ar de tristeza, rancor ou ódio e que fosse tão intensa quanto [uma música triste]”.
Vale dizer que a lacuna de reflexão e tristeza é muito bem preenchida com “Crisântemo”, uma narrativa que, de tão autobiográfica, conta até mesmo com a participação da mãe Dona Jacira. A faixa ganhou um videoclipe igualmente intenso, dirigido por Fred Ouro Preto – outro parceiro de longa data (ele também dirigiu “Triunfo”, “Então Toma” e “Zica, Vai Lá”).
Irradiações controladas
Mas e o Emicida das antigas? Não existe mais?
Calma, respire, ouça “Nóiz” e deixe-se levar pelo flow de versos como ‘Ligeiro passando cerol/Independente da plateia, faço o que tem que ser feito que nem o sol’. A música foi escrita em 2007, mas entrou somente neste disco após ser muito retrabalhada (quanto a isso, os créditos a Felipe Vassão são essenciais).
Como um todo, O Glorioso Retorno… soa mais ameno em comparação com as mixtapes anteriores. De acordo com Emicida, esse já era um caminho pensado porque a ideia era ser menos momentâneo nos temas e mais elaborado no conceito.
Antes de lançar Doozicabraba…, o músico estudou canto (“os caras me mandavam cantar Ed Motta. Ia pro estúdio e woowww”) em prol de uma estética mais sofisticada de rima falada. “No rap em geral, tudo é muito intuitivo. É uma minoria que se dedica a estudar música de uma maneira séria”, relativiza. “Estudei um pouco de piano durante Doozicabraba… e, por isso, o considero o disco mais melódico. Este que estamos lançando tem um pouco disso”.
“O rap não precisava vestir a camisa e falar: ‘vem pra rua que o gigante acordou’, porque o rap já tava na rua e acordado faz tempo”
Sendo assim, as explosões líricas têm suas irradiações controladas. Nesse quesito, Emicida cita as faixas “Bang!” (com participação de Adriana Drê) e “Samba do Fim do Mundo”, cujos versos já haviam sido apresentados no VMB 2011. “Ela é bem especial porque todos acham que a escrevi durante as manifestações”, diz sobre a faixa que conta com as presenças de Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Fabiana Cozza e Rael. “As pessoas não deram atenção naquele momento, porque ainda não tinham vivenciado. E aquilo era algo que a periferia sempre viveu”.
(Ah, e já que tocamos na ferida, Emicida deixou bem claro que não quer compor nada sobre a onda de protestos que começou em maio e se desdobra numa menor proporção até os dias de hoje. “Não queria fazer um poema de maneira tão pontual”. E prossegue: “O rap não precisava vestir a camisa e falar: ‘vem pra rua que o gigante acordou’, porque o rap já tava na rua e acordado faz tempo”.)
Houve um ponto fulminante para que esses novos caminhos musicais se abrissem. Aí, cortamos pra 2012, momento em que lançou o single “Dedo na Ferida”. Num show em Belo Horizonte (MG), o rapper chegou a ser preso, talvez pelo tom acusatório contra a polícia (‘fodam-se vocês/fodam-se suas leis’) já intrínseco à canção. “Achei que passou dos limites a maneira como o refrão foi interpretado. A poesia perdia pro refrão, porque ele era um monte de xingação. Não via as pessoas discutirem sobre o real conteúdo da letra. Minha preocupação era como fazer aquele tema ser incisivo sem apelar pra um refrão que chame as pessoas daquela maneira. Esse foi o pensamento acima de qualquer coisa, não que eu dissesse: ‘nossa, não quero ser preso de novo’”.
Cão do segundo livro
Mas, se a intenção do músico era passar incólume às polêmicas, a surpresa não tardou a vir. Feministas e algumas mulheres que simpatizam com o movimento criticaram o teor de “Trepadeira”. A canção, que tem participação do lendário baterista Wilson das Neves, fala de uma mulher que ‘dá pra todo mundo’ e não merece o empenho de um rapaz que, a priori, estava gamado por ela. Acusaram o rapper de machismo, principalmente no termo ‘merece era uma surra de espada-de-são-jorge’. “Não dá para ‘deixar passar’ uma letra que sugere que uma mulher ativa sexualmente – biscate, segundo o autor – mereça uma surra”, acusou a blogueira e escritora Nádia Lapa. Emicida teve que responder em sua página oficial no Facebook: “Não quer dizer, obviamente, que represente a minha opinião pessoal sobre as mulheres de forma geral. É uma história ficcional”.
Sobre a canção, Emicida diz se ‘orgulhar bastante’ apesar da polêmica. Na letra, há menção a vários nomes de flores (bromélia, ipê, lírio, girassol, violeta…) – cortesia indireta do parceiro Tom Zé. “Ele foi o primeiro cara a ouvir essa música. E chapou, cara. Falou que eu era o ‘cão do segundo livro’, seja lá o que isso for”.
A amizade do rapper com Tom Zé teve início nas gravações de Tropicália Lixo Lógico, onde canta em “Apocalipsom”. Essa parceria se estendeu e, inclusive, veio a influenciar um dos artistas mais irrequietos da música brasileira: é dele o título para Tribunal do Feicebuqui, uma resposta em formato de EP aos algozes que apontaram o dedo em riste depois de Zé ter feito uma campanha publicitária para a Coca-Cola no primeiro semestre deste ano.
“Eu vivo numa era em que é natural o convívio com as redes sociais. Agora, pro Tom Zé, foi mais pesado receber aquelas críticas”, explica Emicida. “Não achei tão bacana ele dar tanta satisfação, porque as pessoas foram bem cruéis. Existe esse negócio de ter um assunto relevante de se tocar, e as pessoas virarem o tribunal do Facebook: elas se colocam como arauto da justiça e igualdade social e aí começam a perseguir a pessoa com uma violência que os próprios acusadores não teriam cabeça e espírito pra aguentar”.
De bafafá por bafafá, Emicida entende. O bastante para prever a retórica que viria com “Zóião”, primeira de suas músicas a integrar uma novela global (Sangue Bom). “Eu sofri três dias antes [de lançar a música]. Só que aí, foi uma piada. A frase ‘Tem gente que não pode ver ninguém feliz’ responde tudo. E os haters ficaram: ‘puta, se a gente falar mal a gente vai ser hater, porque na música ele tá falando de nóis’ (risos). Aí, eu consegui pegar os caras”.
(Talvez ainda seja cedo para afirmar, mas é bem capaz que a faixa “Gueto”, com participação de MC Guime, do funk ostentação, gere alguma discussão aprofundada no rap.)
“Concebemos um álbum e, agora, queremos conceber um espetáculo. A banda tem ensaiado todos os dias. Realmente queremos dar o passo que faltava”
Caminhos recíprocos
Em menos de meia década de carreira registrada, Emicida já pode ser considerar protagonista da cena. O Glorioso Retorno… dialoga com todos os outros gêneros em que já flertou anteriormente, com ênfase para o samba e, obviamente, o rap.
Em pouco tempo de lançamento, o disco já atingiu o segundo lugar de mais vendidos no iTunes no Brasil (“batemos a Anitta, tio”, vangloria-se) e um dos mais executados na plataforma de streaming Deezer, onde lançou o disco. “Sou vaidoso sobre como minha música vai chegar às pessoas”, admite. “Os artistas precisam se preocupar mais com a parte chata. Abdico de parte do meu tempo e mergulho diretamente em outras coisas, mas que me trazem um prazer igual, porque está indiretamente ligada à música. Tipo a produção de todo merchandising”.
Essa influência, diz, vem do mercado norte-americano. Ele cita como exemplo a Roc-A-Fella, de Jay-Z, cuja distribuição de discos fica a cargo da gigante Universal. “O mercado aqui é escasso: tem muito investimento no mainstream, e muito pouco investimento na música independente”.
Mantendo o selo Laboratório Fantasma, que agencia os Rael, Ogi e Mão de Oito, além do próprio trabalho, Emicida estabeleceu um modelo que serve de diretriz até mesmo para a velha geração do rap. Um bom exemplo é a Baguá Records, que surgiu depois com um casting ainda mais amplo – entre eles, Ice Blue, Edi Rock e Helião. “Se em algum momento eu abri o caminho para algum ícone da velha escola, é simplesmente uma forma de agradecimento por todos os caminhos que eles abriram pra mim”, diz.
Espetáculo retorno
O show de lançamento do disco está marcado para os dias 10 e 11 de setembro, no Teatro do Sesc Pinheiros. A formação já está estabelecida: duas guitarras elétricas, violão, cavaquinho, baixo, percussão e DJ, além de backing vocal.
“Pela primeira vez teremos um puta de um cenário e projeções. Concebemos um álbum e, agora, queremos conceber um espetáculo. A banda tem ensaiado todos os dias. Realmente queremos dar o passo que faltava. Tô ansioso pra caralho!”.
