Bob Marley levou um tiro em 1976. Esse episódio pode ter sido uma amargura para o cantor, mas foi crucial para que ele abraçasse o mundo com o lançamento do mundialmente conhecido Exodus, gravado um ano depois na Inglaterra, país em que o cantor decidiu dar um tempo para ‘acalmar os ânimos’ na Jamaica.

A caminhada do cantor e ativista até conquistar o encantamento global com “One Love” e “Three Little Birds” foi longa e cheia de pedregulhos.

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Resgatar a história deste que foi um dos maiores músicos do século passado tornou-se missão do diretor Kevin McDonald, que não teve medo de enfrentar as principais discussões acerca de Bob: religião rastafari, sucesso, inveja, promiscuidade (ele é pai de 11 filhos com 7 mulheres diferentes), internacionalismo, oportunidades, maconha. Mas também não esconde a magia de um músico carismático, talentoso, humilde, lacônico, líder.

Facetas que você conhece são mostradas, mas há muito com o que surpreender em Marley, lançado nos Estados Unidos em 20 de abril (420), dia em que se discute a relevância da maconha na sociedade. (No Brasil, no entanto, ainda não há previsão de lançamento.)

O longa traz depoimentos de Rita Marley, Ziggy e sua filha Cedella Marley (que em alguns momentos parece meio cética em relação ao pai, já que o presenciou ‘traindo’ sua mãe Rita algumas vezes), mas os discursos mais valiosos vêm de:

• Bunny Wailer, que esclarece o rompimento dele e Peter Tosh com Bob, trio que formava o The Wailers original; • O diretor artístico Neville Garrick, um dos que mais revelam a história do mito após 1974, quando dava os primeiros passos para o estrelato;

•Lee ‘Scratch’ Perry, que, no pouco que fala, diz ter buscado essa afeição espiritual do músico após as frustrações comerciais de Bob com o produtor Coxsone Dodd.

(Sobre Coxsone, tem uma história reveladora sobre a música “Duppy Conqueror”, que não ousarei comentar. Há também uma bela versão gospel de “No Woman No Cry”, com Peter Tosh nos pianos, desconhecida do público.)

Muitos devem se perguntar o porquê da demora de um documentário sobre Bob Marley. No ano passado, completou-se 30 anos de sua morte. No entanto, muitos jornalistas e produtores foram barrados ao realizar um trabalho audiovisual sobre o músico, muito por conta da confusão que se tornou os direitos autorais do músico. Briga-se muito sobre a possessão das primeiras músicas de Bob (tipo “Brain Washing”, “Simmer Down”), porque na Jamaica não havia uma diretriz para os artistas serem donos de seus próprios singles. Sem falar que Rita, que detém boa parte do patrimônio de Bob, não era de permitir que qualquer trabalho sobre o músico fosse lançado.

Em Marley, assinam a produção executiva Ziggy Marley e Chris Blackwell, produtor musical que praticamente moldou Bob em suas primeiras turnês internacionais (e também o arquétipo capitalista que tornou-se o principal motivo para a dissolução dos Wailers originais).

Bob Marley não era de temores. Quando foi baleado em 1976, às vésperas de se apresentar no primeiro One Love Concert, não hesitou e se apresentou de graça para uma plateia que precisava superar a crise política instaurada pelos partidos JLP (conservador) e PNP (socialista).

Foi o teste que ele precisava para tornar-se um ícone da paz mundial. Depois disso, voltou à Jamaica e fez os líderes de oposição Edward Seaga (JLP) e Michael Manley (PNP) darem as mãos. Ele foi persuadido por membros de ambos os partidos a voltar à Jamaica, pois sua presença, de forte impacto, era necessária para que a violência cessasse ou, ao menos, diminuísse.

Um ano depois, visitou a África e viu que tinha uma nova missão após conhecer o Gabão. Pouco depois, ele já estava comprometido com a independência do Zimbábue, cravando um hino (“Zimbabwe”) que tornou-se destaque de um de seus discos mais importantes: Survival.

Para ele, a vida era uma passagem e não significava nada se não fosse empenhada para tornar a vida do outro melhor, ou menos miserável. No documentário Marley você certificará de que, quando se fala de Bob Marley, esse papo está longe de ser demagogia.

Marley poderia ser o documentário definitivo do músico, se Bob não fosse tão complexo. Como diz a letra de “Redemption Song”: ‘temos que preencher o livro’. Digamos que boas páginas a mais foram escritas aqui.