
Dizzy Gillespie e Trio Mocotó gravaram o disco nos estúdios Eldorado (foto de Osvaldo Jurno)
Dizzy Gillespie foi um dos trompetistas mais influentes no jazz por ter encabeçado, junto com Charlie Parker e Thelonious Monk, a verve do bebop, que revolucionou o gênero por volta dos anos 40. Por isso, muitos se perguntam qual seria o impacto causado na música universal se o disco Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó tivesse sido lançado naquele longínquo ano de 1974.
Somente há alguns meses atrás a Biscoito Fino conseguiu relançar essa pérola fonográfica. É que, na verdade, Dizzy gravou esse disco por meio de uma parceria entre a sua gravadora nos Estados Unidos com a Philips brasileira, e levou a master do disco assim que ele foi gravado, num período de 8 horas, para ser lançado em 1975.
Até hoje ainda não se sabe por que Dizzy não a lançou. Ele chegou a gravar outras canções com brasileiros, mas decidiu engavetá-la. Por sorte, o suíço e grande amigo do trompetista, Jacques Muyal, achou essa master em 2009 e decidiu entrar em contato com o baterista João Parayba, do Trio Mocotó, para obter mais informações sobre os créditos do álbum.
Depois de uma longa pesquisa nos acervos do Estúdio Eldorado e um bom período de mixagem em Los Angeles, Muyal assinou a produção e agilizou o lançamento para o ano passado.
E o resultado? Surpreendente, se comparado às fusões já exploradas do samba com o jazz. Poderia ter sido mais soft e leve, pegando carona na já firmada Bossa Nova. Mas percebe-se que a pungência e o sentido libertador do bebop se faz mais presente do que nunca neste disco – algo que fica perfeitamente claro em “Dizzy’s Shot (Brazilian Improvisation)”. Esta faixa sofre leves variações até cair na suavidade do cool jazz.
Mas a verdadeira aura instrumental do álbum está em “Rocking With Mocotó”, com um compasso rápido do bebop e as dificílimas notas alcançadas por Dizzy. Parayba estava bem inspirado, formando uma simbiose esplêndida com a cuíca de Fritz Escovão.
Aqui também percebe-se a divergência de influências de Dizzy. Por mais que fosse o ‘bebop professor’, ele era grande fã de música brasileira, das baterias de escola de samba à bossa nova. Desse sincretismo, Dizzy fez questão de trabalhar todas essas referências com o Trio Mocotó: tem a amenidade do Bossa Trio Jazz na faixa “The Truth” e até jazz clássico cantado: “Evil Gal Blues”, canção de Lionel Hampton e Leonard Feather que fez grande sucesso na voz de Dinah Washington. A faixa é interpretada pela voz grave de Mary Stallings, com o próprio Dizzy também se arriscando nos vocais. O ritmo é levado pelo compasso de percussões africanas, com Parayba no comando.
Um disco tardio, que traz dois desafios: conhecer um pouco mais a trajetória de um artista que se tornou uma lenda no jazz, e perceber como o trompete bem intercalado proporciona uma dinâmica diferente ao samba-jazz, que com o passar dos anos ficou rotulado como bossa nova. Talvez a música brasileira seguisse outros rumos com o lançamento desse disco. Quem sabe a partir de agora…
Para ouvir o álbum na íntegra, visite o Rádio UOL.
