
01 Voltou Clarear 02 O Que Vem da Bahia 03 Coisa Mais Bonita 04 Barquinho 05 Corcovado 06 Sai pra Lá 07 Você Foi a Primeira 08 Minha Musa 09 O Nordeste é Lindo
10 Fim de Noite
Voltou Clarear
Ano: 1994
Gravadora: Vitória Régia



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Se o álbum anterior foi uma espécie de ‘libertação’ das limitações da soul music, em Voltou Clarear Tim Maia foi ainda além da bossa nova. Em suma, é um disco que comprova o ecletismo tanto de suas influências quanto de seu poderio vocal. A bossa nova, tão bem cantada no disco anterior, mais uma vez está presente: a singela “O Barquinho” (Ronaldo Bôscoli/Roberto Menescal), a paisagística “Corcovado” (Tom Jobim) e a melancólica “Fim de Noite” (Chico Feitosa/Ronaldo Bôscoli) são algumas delas. A incursão de Tim Maia no gênero foi tão intensa, que o motivou a compor “Você Foi a Primeira” com Almir Chediak: nela, o Síndico criou uma espécie de fusão dos arranjos bossanovistas com o baile-retrô que caracterizou seu som na década de 1980. Em “O Que Vem da Bahia” é nítida a influência de Dorival Caymmi, com uma forma mística de nos transportar ao cenário fantasioso da Bahia. No entanto, quando chega próximo do fim da música, Tim Maia muda totalmente o ritmo e cai em um forrózinho pra falar de Pernambuco. Aliás, esse lado ‘Gonzagão’ de Tim Maia é muito bem executado em “O Nordeste é Lindo”, citando a Asa Branca, rapadura e a felicidade daquela gente de Maceió, Ceará, Pernambuco, Aracaju. Não faz feio não em um baile nordestino, visse! Se ficou assustado com o passeio rítmico de Tim Maia neste disco, conforte-se em saber que “Coisa Mais Bonita”, “Sai Pra Lá” e “Minha Musa” (todas escritas pelo próprio, sendo que a primeira tem coautoria de Claudio Mazza) mantêm a identidade do homem intacta.
Ouça: “Sai Pra Lá”

01 Nova Era Glacial 02 Totalmente Natural 03 Essa Tal Felicidade 04 Arrastão 05 Oceano 06 Corcovado (Quiet Night of Quiet Stars) 07 Vale Tudo 08 Não Me Iludo Mais 09 Aquarela do Brasil
10 Meditação (Meditation)
Nova Era Glacial
Ano: 1995
Gravadora: Vitória Régia/Warner Music



Alguns cientistas já alertavam para o excesso de calor do planeta – algo que iria se tornar irreversível anos depois, quando foi constatado o tal do aquecimento global. Eles afirmavam que frios iriam se tornar mais frios – e os verões, cada vez mais quentes. Bom, Tim Maia não era de acreditar muito nisso. Louco como sempre foi, entrou numas de que o mundo logo entraria numa era glacial (coisa que já aconteceu com o nosso planeta). E deu o tom alerta na faixa-título: ‘Todo mundo sabe/Mas ninguém quer dizer/Não é responsável/Pro que vai acontecer/Se prepare, garota/Sem shortinho/Sem bustiê’. Mas, ao contrário da intensidade de sua fase Racional, essa é a única canção do disco que fala de frios e geleiras. De suas composições, uma nova parceria com Almir Chediak na baladinha “Totalmente Natural”, o realismo que já está incrustado na veia do Síndico em “Não Me Iludo Mais” e a bela “Essa Tal Felicidade”, uma reflexão sobre a vida. A “Corcovado” daqui é a versão em inglês, que lá fora ficou conhecida como “Quiet Night of Quiet Stars” (responsável por alavancar a carreira de Astrud Gilberto); e “Meditação”, que ficou bonita no álbum anterior, ganhou uma versão à altura com o inglês de Tim Maia.
Ouça: “Essa Tal Felicidade”

01 Ter Você é Ter Razão 02 Essa Tal Felicidade 03 Ela É Carioca 04 Lindeza 05 Amigo do Rei 06 Não Quero Dinheiro, Só Quero Amar 07 Telefone 08 Samba do Avião 09 Azul da Cor do Mar
10 Valsa de uma Cidade
Amigo do Rei (com Os Cariocas)
Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia




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Para quem não sabe, Os Cariocas é um dos grupos mais tradicionais do Rio de Janeiro. Formado nos anos 1940 por Ismael Neto nos arredores da Tijuca, foi responsável pelo grande sucesso “Adeus América” (também gravada por Tim Maia no disco de mesmo nome) e, tempos depois, também entrou na onda da bossa nova depois da morte do fundador. Tim Maia, já acostumado a gravar o que e com quem quiser com a sua gravadora Vitória Régia, conquistou uma grande realização ao dividir um disco com caras tão importantes da música nacional. Os coros vocais d’Os Cariocas exigem uma levada mais suave, estética a qual o Síndico estava acostumado desde o primeiro disco que interpretava clássicos da bossa nova (até pode-se dizer que os anos 1990 formularam a ‘fase bossa’ do músico). “Ela é Carioca” poderia ser ambientada em cabarés chiques da praia de Copacabana de tão old-fashioned que é – principalmente por conta do coro. O sambinha bom de “Amigo do Rei” (Braulio Tavares, Lenine) nos transporta para os tempos de Carmen Miranda. Escrita por Caetano Veloso, “Lindeza” ganhou um tom popularesco era-JK – ficou bonita. Claro que Tim Maia não deixaria de testar seus clássicos com o grupo: em “Não Quero Dinheiro, Só Quero Amar”, eles é que tiveram que entrar na onda do Síndico e encararam o desafio de fazer os backings do refrão; “Telefone” ganhou uma levada sambista, com direito a brincadeiras esquizofrênicas nos vocais do grupo; e “Azul da Cor do Mar” ficou mais radiofônica, sem perder a beleza dos arranjos orquestrados.
Ouça: “Valsa de Uma Cidade”

01 Estória de Cantador 02 Naná 03 Pro Meu Grande Amor 04 Pra Fazer Você Sorrir 05 Oceano 06 Tudo Era Lindo (E Se Foi) 07 Rio 08 Por Causa de Você 09 Flor de Lis 10 Rapaz de Bem 11 Eu Confesso 12 Olê Olá 13 Eu Sei que Vou Te Amar
14 A Felicidade
Pro Meu Grande Amor
Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia




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Como o próprio título já entrega, Tim Maia está todo amores. As músicas são de amor e, apesar de uma ou outra melada (“Por Causa de Você”, “Eu Sei Que Vou Te Amar”, que o Síndico interpretou muito bem), até que ele está inspirado. Ao saber que foi bem elogiado ao cantar a faixa “Oceano” (de Nova Era Glacial, sucesso de Djavan que também entrou neste álbum), Tim Maia se interessou em gravar versões de outras composições do alagoano: “Flor de Lis”, com aquela levadinha bossa que já se enraizou no trabalho do Síndico na década de 1990; e a abertura “Estória de Cantador”, um pop romântico que ganhou belos arranjos de metais. Aquele balanço malandro do homem não podia ser descartado – e ele o inseriu muito bem nas composições que assina no disco: “Pra Fazer Você Sorrir”, “Tudo Era Lindo (E Se Foi)” (que, por mais que seja triste, te faz mexer de alguma forma com aquela percussão meio escondida) e “Eu Confesso”, talvez a marchinha de Tim Maia mais próxima de algo carnavalesco. Apesar de ser eternizada por inúmeras versões, é bem impactante a interpretação de “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Uma vez dentro da bossa nova, Tim Maia precisou de pouco tempo para saudá-la como um verdadeiro mestre.
Ouça: “Oceano”

01 Hey There Lonely Girl 02 What A Wonderful World 03 Tears On My Pillow 04 Save The Last Dance For Me 05 Daddy’s Home 06 Chain Gang 07 Earth Angel 08 On Brodway 09 Diamonds And Pearls 10 Since I Don’t Have You 11 What’s Your Name
12 When We Get Married
What a Wonderful World
Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia




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Realmente, os anos 1990 serviram para Tim Maia pagar suas dívidas pessoais no âmbito musical. Depois de revisitar à sua maneira bossa nova, samba e baião (os dois últimos em menor grau), neste álbum de 1997 o Síndico foi ainda mais nostálgico e resgatou um pouco do que ouviu quando foi morar nos Estados Unidos: músicas de raízes negras, que influenciaram sua carreira no Brasil. O clima é bem intimista mesmo. Talvez só vá despertar o interesse de verdadeiros fãs do músico, ou fãs de sua voz, que não costuma falhar quando entra em ação. “Hey There Lonely Girl”, de Leon Carr e Earl Schumann que fez sucesso na voz de Eddie Holman, serviu de inspiração para a desconsolada faixa-título do anterior Pro Meu Grande Amor. Aqui, ela é cantada na versão original, em inglês – como todas as demais. “Since I Don’t Have You”, que muitos devem conhecer na versão dos Guns’N Roses, é uma canção de 1958 que ficou eternizada na versão dos The Skyliners (by the way, ficou bem melhor que a versão de Axl Rose por ser bem mais natural, sem aquele esforço vocal que beirava o estapafúrdio do vocalista do Guns). Algumas versões podem enganar ouvidos desatentos: “What a Wonderful World” não é menção ao clássico de Louis Armstrong, mas sim ao hit de Bradford Lewis na voz de Ben E. King; e “Diamonds and Pearls” não é regravação da música de Prince que dá título ao disco de 1991 – é aquela versão que foi composta no início da década de 1960 para o grupo de doo-wop The Paradons. Ao contrário da maioria dos intérpretes, Tim Maia não tenta se destacar ao cravar suas versões de clássicos da música popular. What a Wonderful World é apenas um exercício, uma prova de amor do Síndico às origens da soul music. Ainda assim, uma dedicatória que vale muito a pena ouvir.
Ouça: “Since I Don’t Have You”

01 Olhou Pra Mim 02 Só Você 03 Vixe 04 Cross my Heart 05 Lindo Lago do Amor 06 Não Se Envolva 07 Só Danço Samba 08 People 09 E Nada Mais 10 Eu Te Adoro 11 Saigon 12 O Morro Não Tem Vez 13 Day by Day
14 Vivo Sonhando
Só Você (Para Ouvir e Dançar)
Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia




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“Lindo Lago do Amor”, do Gonzaguinha, é uma canção estupenda. A levadinha retro-oitentista permeia uma composição que valoriza a beleza natural de uma forma mística, contemplativa. O que poderia ser um trabalho árduo para muitos intérpretes, foi fichinha pra Tim Maia. O contrabaixo rhytm’n blues e a preservação daquele sax melancólico combinaram com a voz do Síndico, que continuava límpida como nunca mesmo depois dos 50. Para garantir o sucesso do álbum, o Síndico gravou uma versão de “Só Você”, composição de Vinícius Cantuária nacionalmente conhecida na voz de Fábio Jr. “Saigon” tem um piano de poucas notas e flashes de um baixo que ensaia uma levada funky, mas logo revela ser uma das canções mela-cuecas do Síndico de contemplar o céu e as ‘estrelas na escuridão’. Fez sucesso sim porque é muito bonita – mas não deixa de ser mela-cueca. “Vixe”, um soul-funk que evoca os velhos tempos de balanço nas pistas, é temperada por um compasso sutil e irresistível. Ela foi escrita pelo compositor, que parece ter voltado a se inspirar nas composições que datam de sua fase disco-funk. Além desta, ele assina mais seis faixas: o soul delicioso de “Cross My Heart”, o ardor perigoso de “Não Se Envolva” (coautoria de Reginaldo Francisco), a bossanovista “People” (coautoria de Paulo R. Alves), o groove curtismayfieldiano de “Eu Te Adoro” e a dobradinha “Day By Day” e “Vivo Sonhando”, que encerram um álbum que mostrou que Tim Maia ainda tinha muito o que mostrar musicalmente pouco antes de sua triste partida.
Ouça: “Vixe”

01 Pense em Mim (Não Me Trate Assim) 02 Sozinho 03 Acenda o Farol 04 Pra Que Vou Recordar (O Que Chorei) 05 África Mãe 06 Dizer Que Te Amo (É Muito Pouco) 07 Crazy Feelings 08 Sorriso de Criança 09 The Queen
10 O Pescador
Sorriso de Criança
Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia




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‘Eu fico ali sonhando acordado/Juntando/O antes, o agora e o depois’: quem cresceu ouvindo muita rádio FM provavelmente deve pensar que os versos de “Sozinho” são de autoria de Caetano Veloso. Enganam-se: a música é de Tim Maia. Assim como quase todas as demais que integram um dos últimos lançamentos em estúdio do Síndico. Com exceção de “Acenda o Farol” (que ficou menos acelerada, com clima de nostalgia de belos tempos idos), as demais músicas são inéditas. Começa com “Pense Em Mim (Não Me Trate Assim)”, que acabou ficando brega demais com os backings de Tim Maia interrompendo a canção como aquele famoso programa moralista da Gazeta FM. “Para Que Vou Recordar”, de autoria de Carlos Daffé, mais uma vez expurga os sentimentos do cantor e é a única do álbum que não foi escrita por Tim Maia. Falar de consciência social não era algo tão comum ao Síndico, mas de vez em quando ele enaltecia o orgulho negro (lembra de “Rodésia”, né?). Neste álbum, ele vai mais a fundo nessa faceta, que talvez se tornasse mais presente em sua obra caso permanecesse vivo: em “África Mãe”, fala de não abrir mão do respeito à sua cultura com um lamento que, aos poucos, lhe enche o peito de orgulho – perceptível quando ele aumenta o grave da voz e diz: ‘Erguer a cabeça/E ter confiança/Uma liderança/Para conduzir essa gente bela/Sem esperanças’. Inspiradora! Na faixa-título, o Síndico toma de assalto a autoridade de um mentor e chama, sem pedagogia, as crianças a valorizarem o ensino diante de um abismo social que não perdoa nem os pequeninos: ‘Tanta gente fica rica ganhando tanto dinheiro/E um bocado de criança ficando sem aprender’. Sem deixar de desapontar os aficionados (ou simpatizantes) pela sua veia dançante, também tem o disco-funk de “The Queen” (conhecidíssima como “Jurema”). Apesar de não ter muitos hits, Sorriso de Criança é um discão difícil de ser citado. Mesmo nos anos finais de vida, Tim Maia ainda tinha poder de sobra no campo artístico. Parafraseando o próprio músico em “Dizer que Te Amo (É Muito Pouco)”: ‘Se você for logo embora/Tudo isso irá mudar’. O tempo e as loucuras aceleraram a partida de Tim Maia. Uma grande pena, porque não há nenhum outro artista que dê impulsão à soul music brasileira como este Síndico: não tão amado por alguns, mas adorado por milhões e milhões de fãs, que crescem a cada dia, cada hora. Viva Tim Maia!
Ouça: “Dizer Que Te Amo (É Muito Pouco)”
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ERRATA: Conforme foi atualizado, o disco Tim Maia (1976) foi reavaliado com quatro estrelas, e não com três, como estava anteriormente.
E aí, o que achou deste Especial dedicado a Tim Maia? Concorda com as avaliações? Foi injusta? Faz jus à obra do Síndico. Não hesite em opinar. Dispare aí nos comentários!
