Não é preciso ser fã de rock para saber que 2013 é um ano em que muito se falou – e ainda deve-se falar – de David Bowie.
Um dos maiores músicos de todos os tempos, um dos artistas que melhor gerenciaram a própria carreira, um dos maiores experimentadores do pop: qualquer adjetivo é pouco para dimensionar a contribuição musical do famoso Camaleão do rock.
A inquietude até hoje é uma de suas virtudes mais impressionantes, e isso se reflete na sua capacidade de assimilar as novas percepções artísticas para devolver aos ouvintes e ao público da forma mais idiossincrática possível. Essa característica começou de forma tímida no final dos anos 1960, quando a música do The Velvet Underground havia feito a sua cabeça.
Veio os anos 1970, e a obsessão não assumida por The Rolling Stones fez com que o músico cruzasse riffs vigorosos com pianos arrebatadores – e isso ele fez dez mil vezes melhor que os Beatles e não sei quantas vezes melhor que os próprios Stones.
O estrelato tardou a chegar para David Jones e, em busca de frescor criativo (e distância das drogas), o músico trabalhou com Brian Eno e descobriu novas possibilidades musicais com a cena krautrock alemã de grupos como Neu!, Can, Tangerine Dream, entre outros. Tais influências bateram diretamente nos álbuns que formaram a Trilogia de Berlim: Low (1977), ‘Heroes’ (1977) e Lodger (1979).
Os anos 1980 foram duros, mas discos como a trilha sonora de Labyrinth (1986) feita em conjunto com Trevor Jones e a autorreciclagem com a Tin Machine deram propulsão para a busca de novas estéticas nos anos 1990, período em que álbuns como Black Tie White Noise (1993) e The Buddha of Subburbia (1995) revelaram um artista que estava longe de se aposentar.
A partir de agora, apresentamos diretamente todas as facetas possíveis de David Bowie. Nesta edição do Discografia Na Mira, debruçamos sobre os 28 álbuns de estúdio do músico britânico.
É muita coisa, mesmo. Mas, ainda assim, não é a totalidade da obra do Camaleão.
Por exemplo, não falamos de EPs como o compacto de 1966, a trilha sonora da peça de Bertold Brecht: Baal (1982), o disco em que Bowie faz um spoken-word sobre a obra Peter and the Wolf (1978), de Serguei Prokofiev, musicado pela Orquestra da Filadélfia; ou a trilha sonora de Christiane F. (1982), composta por músicas que já foram registradas em outros discos de estúdio.
Também não falamos de discos ao vivo, como os ótimos Stage (1978), Live at Santa Monica (1972), entre outros. No entanto, já deixo a dica: vá atrás destes registros e perceba como o Camaleão era potencialmente criativo em cima dos palcos. Tomara que ele volte logo a fazer shows. É o que todos queremos.
Sem mais delongas, boa viagem pela discografia reavaliada de David Bowie:

David Bowie
Data de Lançamento: 1º de junho de 1967
Gravadora: Deram


Alguns artistas têm facilidade de assimilar o que querem logo no primeiro disco. Isso quando já sabem o que pretendem. A exemplo do garotinho que interpreta Oscar Wilde no filme Velvet Goldmine (1998), Bowie queria ser uma estrela pop quando ‘crescesse’. Esse era o axioma – o problema era como realizar tal façanha. Apesar de já ser fã da excentricidade de Little Richard, foi na timidez de Bob Dylan com uma fórmula má garimpada do The Who que David Jones, que havia definido sua alcunha há pouco tempo, decidiu arriscar no trabalho homônimo. Naquele momento, o produtor certo cresceria os olhos diante de uma “Rubber Band”, que exibia controlada força vocal que, trabalhada, se tornaria audível em todo o mundo. O disco apresenta algumas composições bem bobinhas, como as duas primeiras faixas “Uncle Arthur” e “Sell Me A Coat” (ainda piores que as dos Beatles em início de carreira). Apesar de algumas composições arriscadas como a psicodélica “We Are Hungry Men” e a ironia do pós-guerra de “Little Bombadier”, David Bowie soa como um disco imaturo, o esqueleto do esqueleto do esqueleto do experimentador que ele se tornaria anos depois.
Ouça: “We Are Hungry Men”

David Bowie (Space Oddity)
Data de Lançamento: 4 de novembro de 1969
Gravadora: Philips/Mercury



Apesar de bem conhecido pelo single de mesmo nome do disco, no momento em que foi lançado o título era simplesmente David Bowie – isso mesmo, segundo disco homônimo. Apesar da ida do homem à Lua naquele ano, Space Oddity é bem mais influenciado pelo filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço (tanto que o nome da canção é um trocadilho) que pela viagem de Neil Armstrong. Mesmo sem o devido reconhecimento que mereceria na época, “Space Oddity”, que abre o disco, é uma grande e soberba canção. Traz consigo a atmosfera espacial graças ao stylophone e a bateria esparsa de Terry Cox, simulando uma performance flutuante ‘da forma mais peculiar possível’ no espaço sideral. “Letter to Hermione” é o depoimento não entregue a uma adolescente que estremeceu o jovem coração de David Jones (nenhum biógrafo conseguiu apurar com precisão se a tal Hermione ainda vive). Algumas canções já exibem um Bowie mais maduro, como é o caso de “Janine” e “Unwashed and Somewhat Slightly Dazed” (inspirada pelo amigo e rival Marc Bolan, do T. Rex). A bela “Wild Eyed Boy From Freecloud” era o Bowie sincero tomado pelo budismo que, em contrapartida, era incompatível com o hype. Mas a verdadeira direção a seguir estava na composição de “Cygnet Committee”, clara amostra de sua desolação por não atingir o grande público: ‘Eu desbravei a causa que os guiaram/Para pequenos pagamentos’. E aí ele suplica, com ardor: ‘Nós queremos viver/Eu quero viver!’. Linda música!
Ouça: “Space Oddity”

The Man Who Sold the World
Data de Lançamento: 4 de novembro de 1970
Gravadora: Mercury





Este. Sim, este aqui. ESTE é o primeiro grande disco de David Bowie. É o primeiro disco do Camaleão com Tony Visconti e o guitarrista Mick Ronson, e isso é algo muito grande. Pela primeira vez estamos diante de um artista paranoico, que deixa se levar por extensas e estupendas linhas de guitarra. E, se é hit o que você quer, agradeça Kurt Cobain por ter desencavado a faixa-título no Unplugged MTV, do Nirvana, de 1994. Mercadologicamente, “A Width of a Circle” seria um erro por iniciar o disco com oito minutos logo de cara. Mas, pelamor, que início! A música te transporta pelos céus e te chacoalha como nenhuma outra conseguiu anteriormente. Menos Velvet Underground e Stooges e mais T. Rex, TMWSTW não deve em nada às obras posteriores no quesito qualidade. “All the Madmen” é libertária; “Saviour Machine” une crônica e guitarras pesadas; “After All” é pura psicodelia espacial e fantasmagórica. E “The Superman”, que encerra o álbum, exibe a lucidez de um artista que sabe que ninguém está intransponível perante a tristeza, a ira e até mesmo a morte – mesmo que seja simbólica.
Ouça: “The Man Who Sold the World”

Hunky Dory
Data de Lançamento: 17 de dezembro de 1971
Gravadora: RCA





Se The Rise and Fall of Ziggy Stardust… é um disco grandioso, bom, ele não teria resquício algum de grandiosidade se não fosse por essa obra. Sequer existiria. Desde o início de sua carreira, Bowie estava a procura de um rumo para trilhar, e foi nas grandes canções deste disco que ele fixou bem a direção: estabelecer composições que dialogavam com a geração que ainda queria se encontrar nos anos 1970. Beatles foi pro beleléu e mesmo artistas outrora festivos como Sly Stone tinham admitido que aqueles tempos de lisergia acabaram (vide There’s a Riot Goin’ On, também de 1971). Logo na primeira canção, Bowie confirma as incertezas do novo tempo: ‘Todas as vezes que pensei ter feito a mesma coisa/Parecia que o gosto não era tão doce/(…)Apenas tenho que ser um homem diferente’, diz a letra de “Changes”. Muito apoiado pelo piano, Bowie entregou melodias divinas que até hoje ressoam na música pop (observe a dobradinha “Oh! You Pretty Things” e “Eight Line Poem”), mostrou aquela que, para este que vos escreve, é a sua melhor canção (“Life On Mars?” – e nem é preciso muito para explicar), sem falar nas homenagens aos seus ídolos: “Andy Warhol”, “Song For Bob Dylan” e a roqueira “Queen Bitch”, que faz uso dos riffs sobre vozes à lá White Light/White Heat (1968) como dedicatória a Lou Reed.
Ouça: “Life On Mars?”
Páginas: ≪1≫ | ≪2≫ | ≪3≫ | ≪4≫
