Não é preciso ser fã de rock para saber que 2013 é um ano em que muito se falou – e ainda deve-se falar – de David Bowie.
Um dos maiores músicos de todos os tempos, um dos artistas que melhor gerenciaram a própria carreira, um dos maiores experimentadores do pop: qualquer adjetivo é pouco para dimensionar a contribuição musical do famoso Camaleão do rock.
A inquietude até hoje é uma de suas virtudes mais impressionantes, e isso se reflete na sua capacidade de assimilar as novas percepções artísticas para devolver aos ouvintes e ao público da forma mais idiossincrática possível. Essa característica começou de forma tímida no final dos anos 1960, quando a música do The Velvet Underground havia feito a sua cabeça.
Veio os anos 1970, e a obsessão não assumida por The Rolling Stones fez com que o músico cruzasse riffs vigorosos com pianos arrebatadores – e isso ele fez dez mil vezes melhor que os Beatles e não sei quantas vezes melhor que os próprios Stones.
O estrelato tardou a chegar para David Jones e, em busca de frescor criativo (e distância das drogas), o músico trabalhou com Brian Eno e descobriu novas possibilidades musicais com a cena krautrock alemã de grupos como Neu!, Can, Tangerine Dream, entre outros. Tais influências bateram diretamente nos álbuns que formaram a Trilogia de Berlim: Low (1977), ‘Heroes’ (1977) e Lodger (1979).
Os anos 1980 foram duros, mas discos como a trilha sonora de Labyrinth (1986) feita em conjunto com Trevor Jones e a autorreciclagem com a Tin Machine deram propulsão para a busca de novas estéticas nos anos 1990, período em que álbuns como Black Tie White Noise (1993) e The Buddha of Subburbia (1995) revelaram um artista que estava longe de se aposentar.
A partir de agora, apresentamos diretamente todas as facetas possíveis de David Bowie. Nesta edição do Discografia Na Mira, debruçamos sobre os 28 álbuns de estúdio do músico britânico.
É muita coisa, mesmo. Mas, ainda assim, não é a totalidade da obra do Camaleão.
Por exemplo, não falamos de EPs como o compacto de 1966, a trilha sonora da peça de Bertold Brecht: Baal (1982), o disco em que Bowie faz um spoken-word sobre a obra Peter and the Wolf (1978), de Serguei Prokofiev, musicado pela Orquestra da Filadélfia; ou a trilha sonora de Christiane F. (1982), composta por músicas que já foram registradas em outros discos de estúdio.
Também não falamos de discos ao vivo, como os ótimos Stage (1978), Live at Santa Monica (1972), entre outros. No entanto, já deixo a dica: vá atrás destes registros e perceba como o Camaleão era potencialmente criativo em cima dos palcos. Tomara que ele volte logo a fazer shows. É o que todos queremos.
Antes, confira uma playlist só com as melhores músicas de Bowie (siga a gente pelo Spotify):
Sem mais delongas, boa viagem pela discografia reavaliada de David Bowie:

David Bowie
Data de Lançamento: 1º de junho de 1967
Gravadora: Deram
Avaliação: 4/10
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Alguns artistas têm facilidade de assimilar o que querem logo no primeiro disco. Isso quando já sabem o que pretendem. A exemplo do garotinho que interpreta Oscar Wilde no filme Velvet Goldmine (1998), Bowie queria ser uma estrela pop quando ‘crescesse’. Esse era o axioma – o problema era como realizar tal façanha. Apesar de já ser fã da excentricidade de Little Richard, foi na timidez de Bob Dylan com uma fórmula má garimpada do The Who que David Jones, que havia definido sua alcunha há pouco tempo, decidiu arriscar no trabalho homônimo. Naquele momento, o produtor certo cresceria os olhos diante de uma “Rubber Band”, que exibia controlada força vocal que, trabalhada, se tornaria audível em todo o mundo. O disco apresenta algumas composições bem bobinhas, como as duas primeiras faixas “Uncle Arthur” e “Sell Me A Coat” (ainda piores que as dos Beatles em início de carreira). Apesar de algumas composições arriscadas como a psicodélica “We Are Hungry Men” e a ironia do pós-guerra de “Little Bombadier”, David Bowie soa como um disco imaturo, o esqueleto do esqueleto do esqueleto do experimentador que ele se tornaria anos depois.

David Bowie (Space Oddity)
Data de Lançamento: 4 de novembro de 1969
Gravadora: Philips/Mercury
Avaliação: 6/10
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Apesar de bem conhecido pelo single de mesmo nome do disco, no momento em que foi lançado o título era simplesmente David Bowie – isso mesmo, segundo disco homônimo. Apesar da ida do homem à Lua naquele ano, Space Oddity é bem mais influenciado pelo filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço (tanto que o nome da canção é um trocadilho) que pela viagem de Neil Armstrong. Mesmo sem o devido reconhecimento que mereceria na época, “Space Oddity”, que abre o disco, é uma grande e soberba canção. Traz consigo a atmosfera espacial graças ao stylophone e a bateria esparsa de Terry Cox, simulando uma performance flutuante ‘da forma mais peculiar possível’ no espaço sideral. “Letter to Hermione” é o depoimento não entregue a uma adolescente que estremeceu o jovem coração de David Jones (nenhum biógrafo conseguiu apurar com precisão se a tal Hermione ainda vive). Algumas canções já exibem um Bowie mais maduro, como é o caso de “Janine” e “Unwashed and Somewhat Slightly Dazed” (inspirada pelo amigo e rival Marc Bolan, do T. Rex). A bela “Wild Eyed Boy From Freecloud” era o Bowie sincero tomado pelo budismo que, em contrapartida, era incompatível com o hype. Mas a verdadeira direção a seguir estava na composição de “Cygnet Committee”, clara amostra de sua desolação por não atingir o grande público: ‘Eu desbravei a causa que os guiaram/Para pequenos pagamentos’. E aí ele suplica, com ardor: ‘Nós queremos viver/Eu quero viver!’. Linda música!

The Man Who Sold the World
Data de Lançamento: 4 de novembro de 1970
Gravadora: Mercury
Avaliação: 9.5/10
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Este. Sim, este aqui. ESTE é o primeiro grande disco de David Bowie. É o primeiro disco do Camaleão com Tony Visconti e o guitarrista Mick Ronson, e isso é algo muito grande. Pela primeira vez estamos diante de um artista paranoico, que deixa se levar por extensas e estupendas linhas de guitarra. E, se é hit o que você quer, agradeça Kurt Cobain por ter desencavado a faixa-título no Unplugged MTV, do Nirvana, de 1994. Mercadologicamente, “A Width of a Circle” seria um erro por iniciar o disco com oito minutos logo de cara. Mas, pelamor, que início! A música te transporta pelos céus e te chacoalha como nenhuma outra conseguiu anteriormente. Menos Velvet Underground e Stooges e mais T. Rex, TMWSTW não deve em nada às obras posteriores no quesito qualidade. “All the Madmen” é libertária; “Saviour Machine” une crônica e guitarras pesadas; “After All” é pura psicodelia espacial e fantasmagórica. E “The Superman”, que encerra o álbum, exibe a lucidez de um artista que sabe que ninguém está intransponível perante a tristeza, a ira e até mesmo a morte – mesmo que seja simbólica.

Hunky Dory
Data de Lançamento: 17 de dezembro de 1971
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10
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Se The Rise and Fall of Ziggy Stardust… é um disco grandioso, bom, ele não teria resquício algum de grandiosidade se não fosse por essa obra. Sequer existiria. Desde o início de sua carreira, Bowie estava a procura de um rumo para trilhar, e foi nas grandes canções deste disco que ele fixou bem a direção: estabelecer composições que dialogavam com a geração que ainda queria se encontrar nos anos 1970. Beatles foi pro beleléu e mesmo artistas outrora festivos como Sly Stone tinham admitido que aqueles tempos de lisergia acabaram (vide There’s a Riot Goin’ On, também de 1971). Logo na primeira canção, Bowie confirma as incertezas do novo tempo: ‘Todas as vezes que pensei ter feito a mesma coisa/Parecia que o gosto não era tão doce/(…)Apenas tenho que ser um homem diferente’, diz a letra de “Changes”. Muito apoiado pelo piano, Bowie entregou melodias divinas que até hoje ressoam na música pop (observe a dobradinha “Oh! You Pretty Things” e “Eight Line Poem”), mostrou aquela que, para este que vos escreve, é a sua melhor canção (“Life On Mars?” – e nem é preciso muito para explicar), sem falar nas homenagens aos seus ídolos: “Andy Warhol”, “Song For Bob Dylan” e a roqueira “Queen Bitch”, que faz uso dos riffs sobre vozes à lá White Light/White Heat (1968) como dedicatória a Lou Reed.

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars
Data de Lançamento: 6 de junho de 1972
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10
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David Bowie sempre quis ser um superstar. Como fazer para chegar a ser um? Bom, inventando e interpretando um que tinha todos os passos do estrelato. Para quem não sabe, a história é assim: um ET chamado Ziggy Stardust sabe que a Terra será destruída em cinco anos e decide se tornar um rock star para alertar os seres humanos. As inspirações para o nome do personagem vieram de Iggy Pop (naquele momento um rock star decadente entregue à heroína) e o pioneiro do psychobilly Norman Carl Odam (também conhecido como The Legendary Stardust Cowboy). Anos depois, Bowie afirmaria que o grande espelho era o músico Vicent Taylor que, de tanto tomar LSD, chegou a dizer que era encarnação de um Apóstolo e entregou para Bowie um mapa onde estariam todos os OVNIs aqui na Terra (vale lembrar que Bowie já tinha um afeto por esses assuntos espaciais desde Space Oddity). Com este disco, ele reprocessou tudo que estava feito no âmbito do rock’n roll para dar uma nova possibilidade ao glam rock, que engatinhava com Marc Bolan e o T. Rex. Um disco para ouvir do começo ao fim; uma bíblia de como fazer rock’n roll instigante com inteligência, personalidade e autenticidade.

Aladdin Sane
Data de Lançamento: 13 de abril de 1973
Gravadora: RCA
Avaliação: 9/10
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David Bowie sabia e todo o público que viu a grandiosidade de Ziggy Stardust apontava: como superá-lo? Bom, a ideia é não usar o trabalho anterior como comparativo. Aqui, Bowie continua com a persona de Ziggy ao se comportar como uma verdadeira estrela do rock. Se no álbum anterior temos como parâmetro Stooges e Velvet Underground, em Aladdin Sane o camaleão começa a flertar com os Rolling Stones. O álbum é a reação à grandiosidade de Exile On Main Street (1972), considerado o maior dos discos dos Stones. Canções como “Watch That Man”, “The Jean Genie” e o próprio cover de “Let’s Spend the Night Together” são reveladoras. Se você for encarar como uma imitação, então aceite: Aladdin Sane é David Bowie sendo os Stones ainda melhor que os próprios Stones. Nessa perceptível competição de estrelato, Bowie soma ao rock’n roll dosagens viscerais de heroína e uma energia macabra que remonta ao jazz improvável de Thelonious Monk. Afinal, Bowie contratou seu próprio Thelonious para arrebentar as estribeiras: o exímio pianista de avant-garde Mike Garson, que traz o vigor bebop em “Aladdin Sane (1913-1938-197?)” e vai pelas belas linhas de Franz Liszt na lindíssima “Lady Grinning Soul”, que encerra com chave de ouro.

Pin Ups
Data de Lançamento: 19 de outubro de 1973
Gravadora: RCA
Avaliação: 5/10
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Eis o disco menos comentado de David Bowie nos anos 1970. Isso porque Pin Ups é um disco só de covers repaginados. Numa esteira sucessiva de obras-primas, e com todas as estrelas voltadas para a magistral aparição de Ziggy Stardust, Pin Ups carrega o difícil fardo de surgir quase apagado. Ouvindo hoje, o álbum soa como um divertido disco de rock’n roll sem medo de abraçar o ingênuo (“Here Comes the Night”, do Them) e até mesmo flertar diretamente com o progressivo na psicodélica “See Emily Play” (escrita por Syd Barrett). Meses depois de se ver obrigado a sustentar um personagem, Bowie se inspirou em encontrar novos rumos para quebrar de vez a barreira do pop. No entanto, assumiu referências tão distintas, que parecemos estar diante do Bowie mais fake dos anos 1970 – e olha que estamos falando de um artista multifacetado, onde o fake pode ser um suspiro de genialidade. Todavia, não deu muito certo em Pin Ups. Ainda assim, vale citar o experimentalismo resultante da mencionada “See Emily Play” e o cover sedutor de “I Can’t Explain”, do conterrâneo The Who.

Diamond Dogs
Data de Lançamento: 24 de abril de 1974
Gravadora: RCA
Avaliação: 5/10
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É a literatura de George Orwell e a possibilidade de um rock apocalíptico que permeiam o álbum. Quem já leu o emblemático 1984 vai sacar na hora as referências diretas na faixa do mesmo nome do livro de Orwell e na intempestiva “Big Brother”, um rock que quer e consegue soar belamente degradante. No entanto, as duas canções meio que destoam da sonoridade que o cantor queria atingir no disco. Muito familiarizado com o estilo e a música de Mick Jagger, Bowie decidiu beber de vez da fonte dos Rolling Stones – algo já feito em Aladdin Sane – a ponto de se tornar uma cópia deslavada. Vide a faixa-título e a balada “Rock’n Roll With Me” (com um título bem familiar aos Stones, não?). É como se o Camaleão, já obcecado pelas feituras de Mick-Keith, decidisse agir como a Record faz para tomar a audiência da TV Globo hoje em dia. E o que falar de “Rebel Rebel”? Se Bowie fosse sensato o suficiente, pagaria por direitos autorais aos Stones de tão copioso que é – e alguns fãs parariam de teimar de que essa é uma de suas grandes canções. Pode ser boa o tanto que for, no entanto até mesmo um ingênuo arriscaria que o riff, a melodia e o tempo foram roubados de uma sessão de Sticky Fingers (1971). Esquecendo essa comparação, Diamond Dogs é um bom disco – a ponto de acreditarmos ser um dos grandes clássicos de Bowie. Mas o problema é: dá pra esquecer tal comparação?

Young Americans
Data de Lançamento: 7 de março de 1975
Gravadora: RCA
Avaliação: 8/10
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Depois de acabar com Ziggy Stardust e deixar de lado sua fase apocalíptica de Diamond Dogs, David Bowie resolveu fazer o que queria. E declarou que, a partir de então, era um soulman. Que era estranho ninguém tinha dúvidas, mas a crítica especializada, naquele momento, não deu muita bola e viu em Young Americans apenas como mais um passo excêntrico de Bowie. A verdade era que Bowie, por mais que não parecesse, finalmente estava empenhado em fazer aquilo que sempre admirou: soul music. Para fazê-lo com êxito, contratou o virtuoso guitarrista Carlos Alomar (que tocou com Ben E. King) e o baterista Dennis Davis (tocou com Roy Ayers) e passou a ensaiar algumas versões do gênero, com destaque para “Here Today and Gone Tomorrow”, dos Ohio Players. Em meia década, Bowie provaria que já era detentor da fórmula de hits e, mesmo em um gênero que muitos considerariam obscuro para suas invencionices, entregou nada menos que duas grandiosas canções que já valeriam o disco: a portentosa faixa-título, que até hoje é considerada o hino de uma geração que apostou na juventude durante as incertezas da Guerra Fria; e o funk híbrido de “Fame”, criado após Bowie fazer uma singela troca de termos dentro do estúdio. Escrita em parceria com John Lennon e adornada por guitarras latinas e espaciais, a refratária canção é um claro exemplo de que a idolatria, levada tão a sério no rock nos anos 1970, era um sentimento impávido e, acima de tudo, vazio. Naquela época, quem melhor que Bowie e Lennon para afirmar isso com tamanha convicção – e com tão poucas palavras?

Station to Station
Data de Lançamento: 23 de janeiro de 1976
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10
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No livro Bowie – A Biografia, Marc Spitz afirmou que nos anos 1970 David Bowie deve ter usado mais cocaína que todas as estrelas do rock. Com isso, ele se tornou mais abalado e se interessou por referências obscuras, incluindo a psicanálise de Sigmound Freud, o ocultismo satânico de Aleister Crowley e uma estranha devoção ao fascismo. E nasce Thin White Duke que, para propagar sua música, alia ao soul/funk explorado anteriormente o peso da fadiga de tempos artísticos onde se podia confundir o ridículo com experimentalismo. ‘É muito tarde para ser agradecido/É muito tarde para ser detestável’, canta na faixa título. A rima ‘grateful’ e ‘hateful’ mostra a volatilidade de suas emoções, típico de quem usa muita cocaína. Por mais que soe misterioso, medonho ou até mesmo errado, Station to Station é o melhor disco de David Bowie – pelo menos para este que vos escreve. Artisticamente, o álbum é o que melhor condensa os gêneros musicais testados por Bowie ao longo dos anos. E é também um raro momento em que a decadência joga a favor do artista. Afinal, o fracasso estava quase iminente: apenas seis canções (uma de mais de dez minutos), nenhuma delas para se chamar de single. O álbum é uma intensa incursão numa psique conturbada e estranhamente curiosa. Temos soul music arrastada (“Golden Years”) e um boogie roqueiro que logo revela ser uma de suas mais alienantes músicas (“TVC15”), sem esquecer a gênese apocalíptica de “Stay”, prelúdio de uma das fases mais interessantes do Camaleão: a trilogia de Berlim.
Leia também: Por que Station to Station é o meu disco favorito de David Bowie

Low
Data de Lançamento: 14 de janeiro de 1977
Gravadora: RCA
Avaliação: 9.5/10
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O vício em cocaína estava consumindo David Bowie e chegou o momento em que ele percebeu que era preciso respirar novos ares para não esgotar suas possibilidades artísticas. Foi trocando ideias com Brian Eno, ex-membro do Roxy Music que conquistou ótima reputação após quatro discos solo que exploravam experimentalismo e futurismo, que Bowie decidiu partir para Berlim. Lá se desenrolava uma cena difusa, mas muito criteriosa no sentido de explorar novas sonoridades. Acontecia o krautrock, que jogava na mesma prateleira o pioneirismo eletrônico do Kraftwerk, as invencionices desregradas do Neu! e o rock intensamente elaborado do Can. Nesse cenário surgiu Low, ainda mais pessimista que Station to Station. O disco já começa caleidoscópico com “Speed of Life” que, de tão espacial, parece penetrar outra galáxia. Bowie ainda estava encantado com a possibilidade sonora de guitarra distante e baixo onipotente – coisa que se vê em “Breaking Glass”, pequeno resquício do que se tornariam os Talking Heads de Remain in Light (1980). A partir do segundo lado do disco, que começa com “Warszawa”, Bowie explora sons atmosféricos instrumentais, dialogando com a densidade lúgubre do compositor alemão Robert Schumann.

“Heroes”
Data de Lançamento: 14 de outubro de 1977
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10
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A antológica capa e a antológica música. As aspas no nome do disco são intencionais mesmo, então já dá pra saber que havia um tom de ironia. Único álbum da trilogia totalmente gravado em Berlim, ‘Heroes’ mais uma vez trazia aquela estética de Low: canções numa estrutura (quase) convencional de um lado e viagens instrumentais que evocavam o declínio no lado B. Para levar ainda mais a sério a atmosfera que pairava em Berlim, Bowie alugou um castelo de frente para o Muro que separava a Alemanha Ocidental da Oriental. Há lendas de que ele havia chamado grupos locais como membros do Can para tocar algumas canções – algo que não chegou a se concretizar. Ao contrário das experimentações estéticas e improváveis que marcaram o excelente disco anterior, em ‘Heroes’ Bowie traz mais elementos roqueiros, sem deixar de adicionar microfonia e as novas sonoridades de aparatos que estavam sendo desenvolvidos e testados por alguns dos melhores grupos alemães de rock naquele tempo. Além do mais, Bowie tinha o engenhoso Robert Fripp (King Crimson) ao seu lado, que manjava e adorava brincar com novas formas de extrair sons de sua guitarra. É dele o clássico riff da faixa-título, citada como favorita por 11 entre 10 fãs do Camaleão. A marcante canção fala da possibilidade de um amor separado pela muralha de Berlim, fazendo clara alusão de que é possível estabelecer uma paz heroica. Só essa canção já valeria o disco, mas tem a ira de “Beauty and the Beast”, o alô ao Kraftwerk em “V-2 Schneider” e o rock odalisco de “The Secret Life of Arabia”… Precisa dizer que é o melhor disco da fase mais interessante do Camaleão?

Lodger
Data de Lançamento: 18 de maio de 1979
Gravadora: RCA
Avaliação: 7/10
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O disco que encerra a trilogia de Berlim é o menos falado dos três – e também o que mais destoa da obra como um todo. Não há mais aquela obsessiva divisão entre faixas antológicas de um lado e atmosferas híbridas no lado B. Sem falar que boa parte das canções foi concluída e masterizada fora da Alemanha. David Bowie está menos sufocado com a conturbação de sua vida pessoal e se sente mais livre para explorar uma musicalidade mais aberta, exigindo maior aceleração vocal em “African Night Flight”, que soa como se tivéssemos apertado o botão avante x8 em um dos membros do Kraftwerk. Além de fazer menção à África, Bowie viaja para referências orientais em “Yassassin”, que estaria bem alocada num quadro de paródia a Bruce Lee. Disco menos pessimista de Bowie desde Pin Ups, Lodger abriu um leque ainda maior de possibilidades musicais para o cantor depois de um oportuno hibridismo criativo. É besteira querer colocar o álbum à altura de Low ou ‘Heroes’. Porque Lodger é a prova de que Bowie já estava renascido das trevas para se interessar em novas abordagens musicais – algo que ele intensificou a partir daí, alçando a genialidade sem deixar de escorregar em (muita!) casca de banana.

Scary Monsters (and Super Creeps)
Data de Lançamento: 12 de setembro de 1980
Gravadora: RCA
Avaliação: 9/10
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Lembra da referência oriental do disco anterior? Logo na primeira faixa do disco, “It’s No Game (Part 1)”, conversas em japonês surgem repentinamente em um rock que não precisa de muitas audições para se mostrar potente. Além disso, tem uma faixa especialmente preparada para a edição japonesa: “Crystal Japan”, que parece ter vindo direto dos escombros de Low. Citado como o disco que carrega o último lampejo de excelência no currículo de Bowie (não é), Scary Monsters é a grande evidência de que o artista não tinha se perdido nas caminhadas obscuras desde Young Americans. Com impressionante sinergia entre as guitarras de Carlos Alomar e do gênio Robert Fripp e do baterista Dennis Dave, a faixa-título é uma das maiores provas de que Bowie é, antes de ser um Camaleão e andrógino, um verdadeiro rock star. E já que estamos falando de participações, vale citar o dueto espacial com Pete Townshend (The Who) em “Because You’re Young”. Ao contrário dos trabalhos anteriores, que não foram bem um sucesso de vendas tanto quanto um sucesso de crítica, Scary Monsters é o primeiro suspiro de reencontro com o hype. Isso ele conseguiu, e com muito louvor. Tanto com o appeal de “Fashion”, como com a melancolia funky de “Ashes to Ashes” que, três anos depois, ganhou um clipe soberbo que mostrava Bowie em cenários sci-fi conversando com uma velhinha, pousando para uma foto, empunhando um retrato falante e juntando uma sucessão de elementos e cenários que, de forma triunfal, conquistaram a juventude que começava a abraçar a MTV.

Let’s Dance
Data de Lançamento: 14 de abril de 1983
Gravadora: EMI
Avaliação: 6/10
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Com a chegada dos anos 1980 e a praga da reticência criativa após uma década regada a fama, drogas e dívidas com a MainMan, David Bowie percebeu que os tempos já não eram mais os mesmos. A chegada da MTV provou que a juventude abraçava cada vez mais as canções dançantes, na esteira do que propagava a new-wave. Ainda que tenha conquistado relevância no mercado musical, o punk-rock logo voltou àquilo que sempre lhe pertenceu: o underground. E Bowie não queria saber de underground. Afinal, ele já foi a maior estrela do mundo e queria seu trono de volta. Limpo das drogas e passada a fase obscurantista de sua carreira, o Camaleão decidiu que era hora de ser positivista, de incitar à dança e encarar os novos tempos com otimismo. Para tanto, contratou o guitarrista do Chic, Nile Rodgers, e injetou tecladinhos e sintetizadores em batidas funky, flertando diretamente com a disco music feita para as pistas. “Modern Love”, a primeira faixa, entrega logo as novas influências do cantor. Há uma versão oriental que não soa mais que engraçadinha de “China Girl”, que ele ajudou a escrever para Iggy Pop no antológico The Idiot (1977). A faixa-título é um convite forçado à dança, apesar da instrumentação que inclui uma bela performance no sax tenor de Robert Aaron. Se Bowie queria o sucesso, bom, ele o obteve: até hoje Let’s Dance é o álbum mais vendido do britânico. Com o êxito comercial, também veio a praga: depois desse disco, Bowie não mais conseguiria se restabelecer no mainstream com tanto estrondo por um longo período de tempo. O que era estratégia criativa para angariar crítica e público aos poucos se tornou um tiro na culatra para Bowie – vide seu nome quase apagado na década de 1980. Os tempos eram outros e não hesitavam em ser cruéis com aqueles que não o entendiam. Nem David Bowie passou impune.

Tonight
Data de Lançamento: 1º de setembro de 1984
Gravadora: EMI
Avaliação: 3/10
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A década já tinha se mostrado uma praga à boa parte da pecha criativa do final dos anos 1970. Era tempo de new-wave, e isso não necessariamente queria dizer que a música ia bem. Após se render ao otimismo das pistas, Bowie queria trazer novo frescor artístico ao seu trabalho. Bom, esse é o lado mais otimista para analisar a bizarrice que é Tonight. “Loving the Alien” é uma péssima tentativa de saldar os dividendos com sua fase espacial. O reggae de “Don’t Look Down” é fake, sem gingado e joga a influência jamaicana no nicho da vergonha. O cover de “God Only Knows”, dos Beach Boys, deveria manter-se trancafiado nos estúdios de tão horripilante. E “Tonight”, que já tava bem registrada por Iggy Pop em Lust For Life (1977), foi sumariamente piorada por ganhar uma versão preguiçosa. Qualquer ser vivente que ouvisse isso antes de sair de casa permaneceria desolado embaixo das cobertas pra não perder o mingau.

Labyrinth
Data de Lançamento: 23 de junho de 1986
Gravadora: EMI
Avaliação: 8/10
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Se pensarmos Scary Monsters como uma transição do período obscuro de Berlim para a sua fase mais new wave que seria selada com Let’s Dance, Labyrinth vem para atestar uma afirmativa nesta década tão obscura para David Bowie: é o seu álbum mais criativo neste período. Nele, temos pinceladas de Tonight mais os dois discos supracitados dentro de uma sonoridade muito usual em toda a década. Pense em Michael Jackson e Prince como artifícios pop desta era, e você vai entender que Bowie, com o toque magistral africano do compositor Trevor Jones, estabeleceu uma trilha que evocava desejos juvenis (“Magic Dance”) e mostrava caminhos interessantes para enigmas misteriosos – coisa da clarividente e ótima “Hallucination”. Se pensarmos no soundtrack perfeito para um thriller aventureiro, Labyrinth não apenas cumpriu seu papel como pano de fundo do ambicioso filme produzido por George Lucas e dirigido por Jim Henson (e estrelado pelo próprio Bowie). Fez muito mais: encapsulou o que mais de interessante foi produzido na música pop dos anos 1980 (em termos criativos), com o toque de mestre de Trevor Jones nos arranjos. Baita parceria!

Never Let Me Down
Data de Lançamento: 27 de abril de 1987
Gravadora: EMI
Avaliação: 5/10
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Neste tempo, a imprensa estava pouco se lixando para o lado pessoal de David Bowie. Por isso, não deram muita bola à faixa-título, uma pequena homenagem à sua empresária faz-tudo Coco Schnabel. A voz em falsete com curtos slaps do baixo funky de Erdal Kizilcay e efeitos que lembram uma gaita fazem de “Never Let Me Down” uma canção razoável. No entanto, ela é a que mais se destoa do 17º disco de Bowie. Depois de muitas críticas e bastante ocupação ao trabalhar com Iggy Pop, Bowie decidiu que sua volta seria ainda mais bombástica nos palcos. Ele deixou os artifícios para as pistas de lado e tratou de empunhar novamente uma guitarra. Algumas canções são bem empolgantes, como a ágil “New York’s In Love” – onde finalmente o cantor estava se ajeitando aos anos 1980 – e “Zeroes”, uma boa canção de arena. “Glass Spider”, que seria o nome da grande turnê para promover o disco, tem uma introdução que casaria perfeitamente com a preparação das parafernálias dos shows. É uma canção relativamente empolgante, mas só por causa do solo fogoso na guitarra de Carlos Alomar. “Time Will Craw”, que o Camaleão defende como uma de suas melhores músicas em todos os tempos, realmente é uma boa canção. Mas aí você lembra de “Ashes To Ashes” – afinal, lembra de Scary Monsters inteiro. Passa pela tristeza que é “Shining Star (Making My Love)”… E bate o martelo: Bowie, este disco não convence.

Tin Machine
Data de Lançamento: 22 de maio de 1989
Gravadora: EMI
Avaliação: 8/10
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Formar a Tin Machine com Reeves Gabrels (guitarra), Tony Sales (baixo) e Hunt Sales (bateria) foi o passo mais sábio de David Bowie nos anos 1980. Sem invencionices, sem figurinos especiais e sem pretensão artística, a ideia era fazer rock’n roll do jeito que ele deve ser. Este é o momento em que Bowie mais leva a sério a importância de se ter uma banda unida (tão a sério que estampa uma capa de terno e gravata com os demais integrantes). As canções são instigantes do começo ao fim: no rock de arena “Heaven’s In Here”, no industrial de “Tin Machine”, no punch cativante de “Under the God”… Até “Crack City”, com potencial para rivalizar com a popularidade do Guns’N Roses, é adequadamente rejuvenescida. As composições foram feitas para cantar com vontade – ao contrário daquelas produções forçadas que bagunçaram seus discos nos anos 1980. Com a mesma devoção de um Bruce Springsteen, Bowie ovaciona o orgulho operário em “Working Class Hero”, uma resposta concreta às incertezas de “’Heroes’” (esta canção, vale lembrar, foi escrita por John Lennon e anteriormente registrada por Marianne Faithfull em Broken English, de 1979). Apesar de ser um disco ‘volta às origens do rock’n roll’, em “Pretty Thing” percebe-se um flerte com o rock alternativo graças aos loopings criativos e vocais quase ininteligíveis. Intencional ou não, foi uma bela cartada de Bowie.

Tin Machine II
Data de Lançamento: 2 de setembro de 1991
Gravadora: London
Avaliação: 5/10
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Dois anos e grande imersão com a turnê de Sound + Vision (preparada para revisitar toda a sua carreira), além da participação no filme Romance Por Interesse: tudo isso culminou em um desfoque artístico em relação à Tin Machine. Como estamos falando de uma banda relativamente democrática, este tempo também marcou outros caminhares dos demais integrantes. Por exemplo, o guitarrista Reeves Gabrels estava mergulhado no industrial de Nine Inch Nails – algo notável em “Baby Universal” e “You Belong in Rock’n Roll”. Com o passar das canções, o que se percebe é que Tin Machine II nos arremessa para diferentes direções: da nostalgia era The Man Who Sold the World em “Amlapura” ao arrojo desnecessário que estragou o cover “If There Is Something” (do Roxy Music), Bowie não soube o que fazer com a imersão roqueira tão bem catalisada no primeiro trabalho com este novo grupo. As canções parecem meio arrastadas e, quando chega na sétima ou oitava faixa, nossos ouvidos já clamam pelo término do disco.

Black Tie White Noise
Data de Lançamento: 5 de abril de 1993
Gravadora: Arista/BMG
Avaliação: 9/10
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Se tem um disco que mostra como a música eletrônica tem tudo a ver com música negra, o disco é este. É um trabalho de transição de David Bowie, que vejo como um clássico perdido. Novamente com Nile Rodgers, o Camaleão explorou o aspecto mais ‘livre’ da disco music e foi para terrenos longevos, transfigurando jazz e soul com um tempero musical farto. Novamente ele empunhou seu sax, numa procura de intersecções esparsas (naquele momento, ele disse que a última coisa que queria era a zona de conforto). E aí ele dialoga com o funk espacial em “Looking For Lester”, com trompete de Lester Bowie (que não é parente do Camaleão, e sim um renomado jazzista do Art Ensemble of Chicago) a partir do prenúncio da faixa-título, em que diz que sua nova face não tem nada a ver com raça, citando até What’s Going On (1971), de Marvin Gaye. Apesar do disco não ter nenhuma letra expressiva como seus clássicos, os achados estéticos são bem valiosos. O que é aquela linha trêmula de baixo em “The Wedding”? E aqueles efeitos que voam no interlúdio de “Nite Flights” (cover de um clássico dos Walker Brothers)? Ou o atraso vocal em contraponto ao space-funk na transfiguração de “I Feel Free” (do Cream)? Aos poucos, Bowie estava pavimentando seu novo terreno musical naquele momento: a eletrônica. Um disco que merece ser ouvido com mais atenção.

The Buddha of Suburbia
Data de Lançamento: 8 de novembro de 1993
Gravadora: Virgin/EMI
Avaliação: 6.5/10
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Em 1993, a BBC preparou um documentário de quatro episódios inspirado na novela The Buddha of Suburbia, escrita por Hanif Kureishi três anos antes. O enredo é centrado na história de Karim, filho de mãe inglesa e pai indiano que sofre preconceito na Grã-Bretanha quando tenta a carreira de ator. Ao chamar David Bowie para musicar a trilha, provavelmente a ideia da emissora não era a busca de uma música tipicamente britânica, tampouco indiana. Certamente Bowie exerceu sua liberdade criativa para entregar uma sonoridade experimental, que liga a música clássica à eletrônica (vide os pianos de câmara em choque com batidas pré-programadas em “South Horizon” e “Bleed Like a Craze, Dad”). Por ser uma trilha sonora, o disco trabalha com ações, momentos, takes, cenários. Ou seja: procurar uma unidade musical no álbum pode ser o caminho errado para tentar entendê-lo. Isso porque há alterações de tempo e ritmo que tornam a audição completa uma experiência exaustiva (não por menos: são 55 minutos). Se levarmos em consideração o êxito artístico de Labyrinth, dava pra esperar mais. Mas é legal perceber que uma música como “Strangers When We Meet” se encaixaria muito bem num Scary Monsters, ou contemplar um David Bowie partindo levemente para o intimismo na faixa-título – que ganhou outra versão com Lenny Kravitz na guitarra. Ou mesmo ver o Camaleão mais maduro na sua incursão pela eletrônica com “Dead Against It”.

Outside
Data de Lançamento: 26 de setembro de 1995
Gravadora: RCA
Avaliação: 8/10
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Um total de 19 músicas pode assustar o primeiro ouvinte – principalmente aquele que se depara de primeira com a versão deluxe, que conta com mais 12 remixes e duas faixas inéditas: a acelerada “Get Real” e o space-rock que distorce o gospel de “Nothing to Be Desired”. Mais ou menos como uma jornada por um interior desconhecido, Outside revela um David Bowie tão longínquo quanto a obscura fase de Station To Station (e que perdurou até a Trilogia de Berlim). Se por um lado não há nenhuma persona excêntrica por trás do disco, por outro vemos Bowie debruçar-se em experimentalismos melancólicos, seja no temor de “Wishful Beginnings” ou na intensa musicalidade de “A Small Plot of Land”, contrapondo linhas de piano virtuosas que nos remetem a Aladdin Sane com vocais que sugerem incertezas daqui pro futuro: ‘O falatório de suas vidas/Permanece tão perto’. Com sucessivos lançamentos de Bowie desde Let’s Dance que torceram o nariz da crítica, até hoje esse disco sofre com a preguiça de séquitos que preferem acreditar naqueles argumentos que o detratam como um álbum irregular e arrastado. O trabalho de Brian Eno na produção e as guitarras excepcionais de Carlos Alomar são apenas um adendo nas várias facetas que Bowie nos mostra em faixas como “We Prick You”, “Hallo Spaceboy” (uma de suas melhores músicas de todos os tempos) e “Strangers When We Meet”, encerramento em que o Camaleão parece desabrochar de tal distanciamento criado ao longo do disco. Ele diz ter uma ‘pobre alma passivamente machucada’ e agradece ao fato de se manter ‘estranho quando nos conhecemos’. Não haveria conclusão mais adequada num dos raros casos em que o intimismo revela mais perguntas do que respostas óbvias.

Earthling
Data de Lançamento: 3 de fevereiro de 1997
Gravadora: RCA
Avaliação: 5/10
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Na primeira metade dos anos 1990, gêneros como drum’n bass, jungle e dancehall invadiram as pistas com seus ritmos tão acelerados quanto quebrados. Desbravador da cena eletrônica há muito tempo, David Bowie não deixaria de dar um alô a esses gêneros – algo que faz de um jeito estranho neste álbum. Na verdade, os gêneros citados são apenas influência na estética diversificada que o músico escolheu. Quem gosta de rock’n roll ficará muito satisfeito com o que Reeves Gabrels toca em “Looking For Satellites” (uma das melhores). Mas a grande novidade é ver como Bowie trabalha com o drum’n bass em “Telling Lies”, condensando a repetição de refrão com algo um tanto cinemático. “Battle For Britain (The Letter)” é ainda mais incendiária nessa proposta, com admiráveis loops de bateria de Zachary Alford. O ponto em comum deste disco com o que o Camaleão faz de melhor está em “I’m Afraid of Americans”, com vocais robóticos distorcidos que adentram em um industrial poderoso. A música muito se assemelha ao que o Nine Inch Nails explorou em The Downward Spiral (1994).

Hours…
Data de Lançamento: 4 de outubro de 1999
Gravadora: Virgin
Avaliação: 5/10
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David Bowie decidiu seguir uma linha bem inventiva durante toda a década de 1990, mas no final dela quis dar um breque. Eletrônica, space-rock, ambient? Que nada: “Thursday’s Child”, de início, mostra que o Camaleão queria fazer as pazes com a música pop. Os arranjos orquestrais e o auxílio dos backing vocals de Holly Palmer mostram a verdadeira cara de quem um dia criou Ziggy Stardust. “Something in the Air” e “Survive” seguem a mesma linha acústica de Hunky Dory. E isso não é um elogio: a impressão é de que Bowie aponta os mesmos clichês nostálgicos – como se deparasse, por exemplo, com o colégio que estudou décadas antes. “If I’m Dreaming My Life” sugere um rumo mais interessante, talvez pela linha de guitarra de Reeves Gabrels, tão protagonista quanto (e melhor nesse aspecto que) Bowie no disco. Este é um dos poucos indícios de que o cantor está assumindo sua velhice – que continua exposta no clima saudade da família em “Seven”. Quem gosta do Bowie fase Berlim pode se empolgar com o disco a partir de “What’s Really Happening”, adornado por efeitos massivos. A coisa fica mais excitante em “The Pretty Things Are Going To Hell” e, mesmo com a dupla incongruência de “New Angels of Promise” e “Brilliant Adventure”, Hours… finaliza com a melhor faixa: “The Dreamers”, um olhar distópico sobre o sonho da juventude. A versão japonesa ainda conta com um bônus track: “We All Go Through”, que só deve interessar aos fãs devotos do Bowie. Simples canção descartável.

Heathen
Data de Lançamento: 11 de junho de 2002
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 5/10
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Há quem defenda Heathen como o disco que colocou as ideias de David Bowie nos eixos. Não partilho dessa opinião. Não é só porque o produtor de longa data Tony Visconti retornou que houve uma espécie de ‘salvação’. Porque Bowie não precisava. Acredita nisso quem vê álbuns como Black Tie White Noise e Outside como passos errados – quando, na verdade, mostravam que o Camaleão sabia aproveitar o novo momento de sua carreira. O clima de incerteza misteriosa é acionado em “Sunday” para, na seguinte “Cactus” (do Pixies), revelar uma paixão avassaladora que não se desvaneceu com o passar dos anos. Faixas como “Slow Burn” e “I’ve Been Waiting For You” são provas cabais de que o músico ainda detém o poder de fazer música pop de qualidade, mas, convenhamos, falta um pouco de tempero. “I Took A Trip On a Gemini Spaceship” pode ser mais uma de suas manifestações obsessivas pelo espaço, mas o appeal trazido pela eletrônica é irresistível. Numa época em que reinava o rock ingênuo e setentista de The Strokes e The White Stripes, “I Would Be Your Slave” e “Everyone Says Hi” soavam como um bom respiro, mas estavam bem longe do páreo de conquistar novas audiências. Sim, Bowie reatou com as paradas norte-americanas, entregando seu trabalho comercialmente mais bem-sucedido desde Tonight (1984). O que me leva a uma teoria: discos ruins de Bowie têm uma curiosa relação de proximidade com o mercado.

Reality
Data de Lançamento: 16 de setembro de 2003
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 5.5/10
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Convenhamos: David Bowie nunca precisou entrar em eixo algum. Então, se Heathen fez isso para quem gosta de ligá-lo ao passado, Reality faz melhor. Melhor ajustado, o álbum revelou um Bowie mais autoconfiante e ousado. Por mais que houvesse uma tentativa de criar novos hits no álbum anterior, em Reality o músico justifica o título sem forçar a barra na tentativa de cravar canções emblemáticas. As iniciais “New Killer Star” e “Never Get Old” são incumbidas de perceptível espontaneidade. Bowie delineia sua voz em terrenos já visitados em clássicos como Scary Monsters e The Man Who Sold The World – provavelmente o álbum que mais estrala ao ouvir este trabalho. No conceito e na forma, “Pablo Picasso” é a apropriação da composição do Modern Lovers, como se fosse uma de suas odes estranhas (‘Pablo Picasso nunca foi chamado de imbecil/Não como você, wow’), como fez em “Andy Warhol” ou “Song For Bob Dylan”, só que com uma pitada mais Outside. Os temperamentos das canções estão bem extremados: ele soa vigoroso na faixa-título e rememora o clima ressaca de forma ainda melhor que Tonight no encerramento “Bring Me The Disco King”, com mais um uso espertíssimo do piano (crédito de quem? Óbvio, o genioso Mike Garson). Ah, e se a balada “Where Are We Now?” causou impacto no início deste ano, é bom constatar que o embrião veio de “The Loneliest Guy”, uma das músicas mais tristes de toda a carreira do Camaleão.

The Next Day
Data de Lançamento: 8 de março de 2013
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 7/10
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Quem escuta The Next Day hoje pode achar que é O disco de David Bowie depois de décadas, mas não é bem assim. Reality (2003) prova que o Camaleão estava se adequando novamente ao hype, mas o hiato mais longo de sua carreira lhe deu o frescor necessário para compilar experimentações bem-sucedidas de seus trabalhos mais elogiados. A capa é de ‘Heroes’ (1977), e assim como o disco da trilogia de Berlim, começa de forma explosiva com a faixa-título – bem mais festiva, otimista e ágil que “Beauty and the Beast”, vale frisar. O álbum tem muitos bons momentos: “Dirty Boys”, “The Stars (Are Out Tonight)”, “Valentine’s Day”, “I’d Rather Be High”… Finalmente os fãs, novos e antigos, têm um disco novo e de indubitável qualidade de Bowie para poder cantar junto. Mais assimilável e bem melhor burilado que os outros trabalhos do músico pós-anos 2000, The Next Day faz da nostalgia algo para se celebrar. Nele, temos o Bowie de Low (“If You Can See Me”), o Bowie que novamente menciona o espaço sidereal (“Dancing Out of Space”), o Bowie de arena (“(You Will) Set the World On Fire”)… Quem não torcia para que o músico voltasse? Ora pois, se essa era a expectativa, The Next Day é o melhor que Bowie poderia oferecer. Apesar de carecer do fator inovação, sempre presente nos seus melhores registros, The Next Day surgiu como um trabalho potente e consistente. Caso o músico queira encerrar a carreira o quanto antes, pode-se dizer que fechou da melhor forma possível.
Leia também: Crítica do álbum The Next Day, de David Bowie

★ Blackstar
Data de Lançamento: 8 de janeiro de 2016
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 9/10
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Quando o álbum derradeiro de David Bowie foi lançado, confesso que não entendi muito bem. Foi uma despedida angustiante, dolorosa, que passou a fazer sentido a partir de um bom período de assimilação. Por isso, ao trazer Blackstar para esta reavaliação, achei crucial encará-lo a partir de uma segunda crítica. Sim, trata-se de um dos melhores discos de David Bowie, um tipo de jazz obscuro, num canto apocalíptico em que a linguagem do rock é encarada de forma como raramente vista. Cada acorde tem o peso de se liberar de uma dor lancinante – uma dor, por sinal, pela qual Bowie sofreu calado durante mais de dois anos após descobrir que tinha câncer. A faixa-título e “Lazarus” tornaram-se as mensagens mais dolorosas de sua partida, mas ter ‘I Can’t Give Everything Away” como última canção do último disco deixa bem claro que a música foi e continuará sendo sua principal forma de comunicação. Guitarras elegíacas e solos arrepiantes de sax criaram uma cortina sonora diferente para o Camaleão. Ele conseguiu transpor a dor, o medo e a resignação com a morte em um álbum enigmático e profundo, tão profundo que jamais poderia ter sido concebido em outras circunstâncias. Descanse em paz, Bowie.
Leia também: Crítica do álbum Blackstar, de David Bowie
ERRATA:
• A música “Pablo Picasso” (do álbum Reality), como o comentarista Vitor Brito mencionou, é de autoria dos Modern Lovers.
