A trajetória do Radiohead vai na contramão do que se esperaria de uma banda pop.

Thom Yorke fez de seu canto pausado e melancólico – a ponto de se tornar ininteligível em picos de emoção – uma característica à parte.

O que era visto como um trejeito em Pablo Honey logo passou a se tornar uma extensão da banda em termos estéticos, principalmente a partir de Kid A e Amnesiac.

Jonny Greenwood é visto como o principal arquiteto sonoro da banda, por alternar entre efeitos, riffs e microfonias em diferentes tipos de guitarras, teclados e sintetizadores. Nesse sentido, o guitarrista Ed O’Brien opera como antítese e complemento a esses direcionamentos.

Mas o que seria do Radiohead sem os arpejos? Ou sem a estrutura rítmica cadenciada por Colin Greenwood (baixo) e Phil Selway (bateria), que parecia tímida no começo e passou a ser determinante a cada lançamento – chegando ao auge em The King of Limbs?

No ano em que o primeiro disco completa 25 anos, o Radiohead tem canções de sobra para apresentações viscerais.

Conhecida por testar novas versões de antigos clássicos e raridades, a banda volta para o Brasil para dois shows no festival Soundhearts, que passou por Argentina e Chile. O primeiro show será hoje (20 de abril), no Rio de Janeiro, e o segundo em São Paulo (22), com abertura de Junun (a outra banda de Jonny Greenwood) e Flying Lotus.

O Na Mira reavaliou todos os discos de estúdio do Radiohead, com exceção dos EPs e remixes. Fomos de Pablo Honey (1993) ao recente A Moon Shaped Pool (2016) em nossa análise.

Antes de seguir, confira nosso vídeo especial comentando brevemente a discografia:

*Inscreva-se no nosso canal do YouTube e acompanhe nossos vídeos

Pablo Honey

Gravadora: Capitol
Data de Lançamento: 22 de fevereiro de 1993
Avaliação: 4/10

Ouvir no Spotify

Nas comemorações de 25 anos do álbum de estreia, algumas publicações consideraram que ainda há muito a se rever em relação ao Radiohead. Afinal, era uma banda crua, que estava se adequando ao rock alternativo que passava a ser apreciado pelas gravadoras da época – e não podemos esquecer que a Capitol era uma baita gravadora.

Mas, por outro lado, Thom Yorke, os irmãos Greenwood e companhia já guardavam referências bem mais interessantes que as apresentadas em Pablo Honey. “Creep” foi um sucesso estrondoso, “You” foi um baita início, mas todo o preenchimento até a chegada de “Blow Out” – que, de certa forma, antecipa a sonoridade de The Bends (1995) – soa como um desperdício. Cadê as influências de Talking Heads, Cocteau Twins e afins que a banda havia mostrado lá no início?

A não ser que você seja um grande fã de guitarras distorcidas e queira relembrar os tempos de início de fase adulta-rebelde de Thom Yorke, não vejo muitos motivos para ficar retornando a Pablo Honey. “How Do You?” é uma guitar-song de peso, mas sem a profundidade do tipo de rock que a banda desenvolveria anos depois. “Anyone Can Play Guitar” é aquele tipo de composição de banda amadora de rock, que faz o possível para homenagear seus heróis (‘Eu quero, eu quero, eu quero ser Jim Morrisson‘, repete Yorke). Há muitas ideias e caminhos estéticos que remetem a Pixies e Sonic Youth – e, nesses casos, acho mais produtivo ir atrás dos discos deles mesmo.

The Bends

Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 13 de março de 1995
Avaliação: 9/10

Ouvir no Spotify

Colocando no papel, The Bends não representa uma ruptura estética assim tão grande comparado a Pablo Honey: temos basicamente o Radiohead criando guitar songs. Mas é na sutileza difícil de descrever em palavras que mora a grandiosidade. Muito mais madura, consistente e munida de composições um milhão de vezes mais relevantes que a leva de “Creep”, a banda chegou ao seu primeiro grande disco com The Bends. Fez diferença, também, a entrada do produtor Nigel Godrich, que a partir daí passaria a ser chamado de praticamente o 6º membro da banda.

São nada menos que 12 motivos que deixaram bem claro: o Radiohead era muito mais que chororô nerd. “Planet Telex” e “Black Star”, duas joias que a banda acertadamente daria consistência nas apresentações dos anos que estariam por vir, mostram os novos experimentos de Thom Yorke e Johnny Greenwood com efeitos e traquitanas eletrônicas – caminho já apontado pelo lançamento do primeiro single do disco alguns meses antes, a intensa “My Iron Lung”.

The Bends também guarda alguns dos mais bem-sucedidos encontros do Radiohead com o pop, com a trinca “High and Dry”, “Fake Plastic Trees” e “Just”, intermediando violões acústicos e solos de guitarra que marcaram um novo direcionamento do rock alternativo. Definitivamente, entrava em cena uma banda de gente grande.

OK Computer

Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 16 de junho de 1997
Avaliação: 9.5/10

Ouvir no Spotify

1997 seria um ano decisivo nas eleições britânicas. Mais de 20 anos sob o conservadorismo da era Thatcher e o consequente arrocho dos mandatos seguintes, o New Labour liderado por um impetuoso Tony Blair trazia uma esperança, ainda que pequena, de que as coisas estariam por mudar. Blair foi eleito, e algumas mudanças realmente aconteceram: o País de Gales se tornou mais livre, empregos aumentaram e a comunidade LGBTQ teve mais espaço.

Um mês depois de eleito, o lançamento de OK Computer foi um balde de água fria. Um partido não mudaria o clima de incertezas nas ruas tão bem capturado em “Let Down” (‘Pessoas desapontadas/Agarradas a garrafas (…)/Tão desapontador‘). Enquanto a nação britânica vislumbrava um novo projeto socioeconômico, lá vinha o Radiohead falando de acidentes de carro (“Airbag”), paranoia individual (“Paranoid Android”) e autorrepressão (“Karma Police”). Será que indivíduos tão destroçados pela política estavam prontos para a promessa de algo positivo? (O tempo mostraria que não, uma vez que todo o projeto do New Labour acabou comprometido no momento em que Blair apoiou a invasão norte-americana de Bush no Iraque.)

Pode não parecer, mas todo esse contexto afetou, sim, a produção do Radiohead. Com exceção de “Electioneering”, referência explicitamente política tanto contra status quo conservador, quanto ao que era prometido, a banda enxergava um vazio. Um vazio que a ideologia não podia preencher, pelo menos não nos próximos 15 anos – porque, naquele momento, o medo do desconhecido estava prestes a obscurecer o Ocidente. Como reagir? ‘Sem alarmes e sem surpresas‘, diria um Thom Yorke chafurdando no niilismo.

Kid A

Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 2 de outubro de 2000
Avaliação: 10/10

Ouvir no Spotify

No contexto político, Kid A é de certa forma uma continuação de OK Computer. O sucesso e a consagração dos dois álbuns anteriores, porém, fizeram com que a banda refletisse acerca de sua própria estética. Foram longos meses de experimentação e renovação de melodias, ideias e andamentos musicais até que saísse o disco que representou um marco zero para a banda. As guitarras foram para segundo, terceiro plano; em seu lugar, reverbs vocais, piano, mellotron e até metais com um pézinho no free-jazz (vide “The National Anthem”).

Duas características do Radiohead que pareciam conflitantes se alinham em Kid A: as composições escapistas de uma realidade dura e a posição de confronto sociopolítico. Daí, o que antes era expressado em “You” e “Street Spirit (Fade Out)” se transforma em “Everything in It’s Right Place”, “How To Disappear Completely” e “Optimistic”, três das melhores músicas já gravadas pelo Radiohead. E se antes as influências vinham de R.E.M. e Sonic Youth, agora somava-se a isso experimentações com minimalismo de Terry Riley, os ritmos quebradiços do Autechre e as interferências na ambient de Aphex Twin – nomes que Jonny Greenwood não ocultaria anos depois em entrevistas.

Além de apagar todas as obviedades em relação ao Radiohead, Kid A contribuiu para que se sustentasse uma desconfiança com os novos tempos que estavam por vir – seja nas derrapadas de Blair, a paranoia com o terrorismo ou o ceticismo com o avanço da tecnologia. Talvez o disco pop mais relevante de 2000 pra cá.

Amnesiac

Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 5 de junho de 2001
Avaliação: 5.5/10

Ouvir no Spotify

É sabido que as músicas que resultaram em Amnesiac vêm das gravações de Kid A, mas não associo um ao outro. Amnesiac apresenta melhores encontros rítmicos, em que se percebe melhor integração entre Colin Greenwood e Phil Selway, que não costumam ser lembrados por suas desenvoltas construções harmônicas. Isso é perceptível tanto em “Pyramid Song”, baladaça melancólica mesmo para os altos padrões do Radiohead, e “Knives Out”, com uma estética que anteciparia em alguns anos In Rainbows.

Mas a real é que Amnesiac está longe do alto padrão do Radiohead porque evidencia a inconsistência do grupo. Thom Yorke tem poucos momentos marcantes, Jonny mal dá as caras com os experimentos com a eletrônica… Paralelamente, Colin, Phil e Ed O’Brien parecem ter atingido um tipo de integração com potência de sobra para um momento ‘rock adulto’ – algo que a banda, como um todo, aproveitaria melhor no disco seguinte.

Hail to the Thief

Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 9 de junho de 2003
Avaliação: 8.5/10

Ouvir no Spotify

O disco claramente mais político do Radiohead é, também, seu disco mais torto. O produtor Nigel Godrich declarou alguns anos depois que a banda deveria ter burilado melhor algumas ideias das canções de Hail to the Thief, mas a impressão que se tem é que o álbum adquiriu um tipo de vivacidade diferente quase 15 anos depois. Naquele momento, dois atos geopolíticos fizeram com que a banda voltasse à sua essência de rock alternativo, só que mais madura: a posição de George W. Bush perante o 11 de setembro; e o apoio do então primeiro-ministro britânico Tony Blair à invasão do Iraque.

Se por um lado essa revolta soa bobinha em “Sit Down. Stand Up”, por outro a banda nos entrega uma de suas composições mais ácidas, “Go To Sleep”, um blues-rock-futurístico em que Yorke repete: ‘Algo grande está para acontecer/Sobre meu corpo morto‘. A faixa que abre o disco, “2 + 2 = 5”, é um rock inspirador que liga a distopia de Dante Alighieri a George Orwell. “Where I End And You Begin” é daquelas músicas não tão celebradas no momento em que o disco saiu – mas que hoje tornou-se uma gigante, principalmente por seus versos que ligam a criação do homem, na Bíblia, com relação amorosa – conexão que “There There” levaria para o momento em quatro paredes.

O que muitos consideram incompleto em Hail to the Thief vejo como transição: o Radiohead estava se subvertendo nos desencontros rítmicos de “Backdrifts” e nas distorções de “Myxomatosis”, mas a grande verdade é que, no meio da falta de coesão e propósitos fragmentados, a banda desenvolveu um de seus trabalhos mais criativos.

In Rainbows

Gravadora: XL
Data de Lançamento: 10 de outubro de 2007
Avaliação: 9.5/10

Ouvir no Spotify

In Rainbows é o disco mais atemporal do Radiohead. Serve para qualquer momento, é aplicável em diferentes contextos. O lado bom, bom mesmo, é que se tem uma música boa atrás da outra: “15 Step”, a pesadona “Bodysnatchers”, a cética e melancólica “Nude”, que dá entrada ao mergulho nas profundezas de “Weird Fishes/Arpeggi”, que fala sobre o receio com o desconhecido…

E se a primeira metade pega o ouvinte logo de cara, a segunda parte não decepciona com a sequência de canções que se tornaram clássicos precoces: “Reckoner”, “House of Cards”, “Jigsaw Falling into Place”, fechando com a simples e sofisticada “Videotape”, que Yorke considera a melhor música da banda.

Quando saiu, o primeiro álbum do Radiohead revelou certa ambição pop, talvez por um motivo estratégico: dar um tiro certeiro para conquistar mentes e corações. Num momento desse, por exemplo, algo como Hail to The Thief seria chacal, porque não era momento de testar, e sim, provar. Por isso a banda optou em deixar separadinho a força do pop no formato alt-rock, com o disco 1, e explorar produções mais defasadas, desencontros rítmicos e canções mais obtusas no disco 2, que nos brindou com as ótimas “Down is The New Up” e “Bangers + Mash”, que é uma porrada no estômago com Jonny inspirado nas distorções.

The King of Limbs

Gravadora: XL
Data de Lançamento: 18 de fevereiro de 2011
Avaliação: 8.5/10

Ouvir no Spotify

Com o sucesso de público e crítica de In Rainbows – e o benefício de não ter que prestar contas a uma grande gravadora – os membros do Radiohead trabalharam em seus respectivos projetos paralelos. Ao voltar aos estúdios, decidiram que tinham que levar a banda a outro patamar. Colin e Phil desenvolveram um tipo de sincronia que ligava o rock ao drum’n bass, e Jonny aproveitou para catalisar referências da música clássica e da IDM, dois gêneros tão distintos, para desenvolver um tipo de arquitetura sonora que parecia estranho mesmo para uma banda tão mente aberta quanto o Radiohead.

Os experimentos com a eletrônica já fascinavam Thom há um bom tempo, portanto ele deve ter ficado bem satisfeito quando The King of Limbs nasceu, para descalabro dos fãs mais ‘tradicionais’, que desceram a lenha na banda. Essa busca por uma nova pulsão resultou em uma das melhores coisas que o Radiohead poderia ter feito: um avant-rock-IDM de bagunçar os sentidos.

“Bloom” é sustentada por um sequencer bagunçado, em que a voz de Thom soa como a única interferência límpida possível. “Morning Mr. Magpie” é lúdica e violenta ao mesmo tempo, enquanto “Lotus Flower” é a trilha perfeita para a busca da própria espiritualidade. King of Limbs não é uma obra que agrada de cara – tanto que, na época, me senti compelido a escrever duas resenhas. Ao propor explorá-lo, você terá a chance de fazer uma das melhores redescobertas sônicas de um disco dos anos 2010.

A Moon Shaped Pool

Gravadora: LLLP/XL
Data de Lançamento:
8 de maio de 2016
Avaliação: 5/10

Ouvir no Spotify

O rechaço diante de The King of Limbs provou uma coisa: que um número considerável de fãs do Radiohead prefere sua fase mais pop. De certa forma isso provocou uma nova reação à banda, mas não se pode esquecer de alguns pormenores pessoais, como o fato de Thom Yorke ter terminado um longo namoro e Jonny já ser considerado um soundmaker versátil após as trilhas de Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012), de Paul Thomas Anderson. Além do mais, a banda quis testar novas possibilidades: sai a eletrônica e a potencialidade das percussões para um desenvolvimento mais soul, que reforçou o já alto teor melancólico do Radiohead.

A Moon Shaped Pool começa com “Burn the Witch”, lembrando os tempos de protesto de Hail to the Thief – só que, no lugar das guitarras, as fricções nas cordas de violino é que ditam o tom. “Daydreaming” flerta com um dos momentos mais difíceis da vida de Thom: testemunhar o avanço do câncer de Rachel Owen, sua companheira por mais de 23 anos, que veio a falecer em 2016. Na época em que a conheceu, Thom tinha composto “True Love Waits”, que chegou a ser apresentada em vários shows, mas só ganhou uma versão definitiva neste disco. O trecho ‘Apenas não vá/Não vá’, neste caso, ganhou outro significado.

Fora esses detalhes, A Moon Shaped Pool está longe da inventividade de outros trabalhos – com exceção de “Identikit”. Talvez não fosse um bom momento criativo para Thom ou para Jonny, já comprometido com outros projetos (incluindo a congratulada trilha de Trama Fantasma, que viria em 2018). Os demais integrantes também não se destacam, e o resultado, como um todo, é um disco que nasceu apagado e assim deve permanecer por um bom tempo.

Confira uma playlist especial só com as melhores músicas do Radiohead (já aproveita e segue o Na Mira no Spotify):

Leia também: O retorno melancólico do Radiohead com A Moon Shaped Pool (2016)