Gravadora: ANTI
Data de Lançamento: 3 de junho de 2016
Recentemente a New York Times Magazine juntou dezenas de jornalistas para definir o que classificaram como ‘canções que nos dizem para onde a música está indo‘. Ao citar singles de Justin Bieber, Coldplay e Kendrick Lamar (numa seleção que também traz Sun Kil Moon, Caroline Shaw e Wilco) não pude pensar em outra coisa: o conceito de inovação musical infelizmente ainda é visto de cima para baixo, mesmo em períodos em que a internet tem descentralizado as atenções e dado a possibilidade de colocar milhões de artistas em uma mesma plataforma.
A era do streaming está levando novamente à concentração a um número reduzido de artistas, num processo de afunilamento que jamais acreditaríamos que pudesse chegar a uma rede tão complexa de informações.
Quando não vejo nomes como Dawn Richard ou Gazelle Twin em listas como essa, ainda imagino que majors como Universal, Sony e afins, já detentoras do mercado, também passaram a dominar a análise musical.
Provavelmente esse filtro criado acabe excluindo também Xenia Rubinos.
A cantora, que nasceu em Connecticut (EUA), tem descendência porto-riquenha e, pelo fato de não se encaixar em nenhuma prateleira pop em seu primeiro álbum, Magic Trix, acabou adquirindo pouco destaque. “Eu adoraria poder achar um vocabulário diferente para descrever minha música”, disse Xenia ao Village Voice. “Não precisa se encaixar em nenhum box”.
O segundo álbum, Black Terry Cat, é fortemente calcado pelo R&B, mas de uma forma que os principais astros do gênero têm procurado para se desvencilhar dos clichês pop. O disco parece um passo adiante que Beyoncé e Erykah Badu dariam para surpreender seu amplo legado de fãs.
Xenia Rubinos se trancafiou por semanas em estúdio no segundo semestre de 2015. Ela passava por forte turbulência emocional, já que o pai havia falecido após complicações com o mal de Parkinson
A inovação na música de Xenia compreende as diferentes expressões da música negra norte-americana: a fluidez vocal de “Mexican Chef” é hip hop com acompanhamento de guitarras de fusion-jazz e uma leveza soul.
A junção pianos e efeitos de videogame em “Black Stars” é dicotômica, porque põe em contraposição dois elementos totalmente distintos, ligados pelo tempo musical. Nesse sentido, a lentidão é crucial, porque acostuma o ouvinte aos poucos a um senso rítmico idôneo. (Rihanna e Beyoncé, em seus novos discos, têm testado essas ondulações em seus hits – vide “Kiss It Better” e “6 Inch”; no caso de Xenia, a marcha de bateria imposta por Marco Buccelli faz com que o som se flexibilize por si só, resultando num doo-wop estranho que assimila referências como Robert Glasper e Mariah Carey.)
O principal single do álbum, “Lonely Lover”, tem o início com as castanholas que lembram o início do esplêndido Sketches of Spain (1960), de Miles Davis. O baixo é funky, o estilo de cantar é um R&B meio D’Angelo, mas a essência é toda jazzística.
“I Won’t Say” é ancorado pela gravidade do baixo e do violoncelo num tratamento que lembra Marcus Miller nos anos 1980
Tanto em “Lonely Lover”, “I Won’t Say”, como em qualquer outra faixa do disco, Xenia Rubinos cria um ambiente horizontalizado de canção, em que as sutis variações são pertencentes a um mesmo modelo. Não há muitos solos nas músicas dela; há fragmentações e sacadas rítmicas que englobam um universo inteiro de nomes, estilos e cenas, mas que não escapam de uma ideia estrutural.
O estilo é dela; as influências são tão múltiplas, que é possível citar nomes distintos, de Busta Rhymes a Betty Carter.
“Right?” endossa o inegável termo neosoul, certamente o que mais prevalece em todo disco. Mas, os estereótipos são subvertidos: Xenia Rubinos é multiinstrumentista, ou seja, os variados tiros estéticos que aparecem em Black Terry Cat vêm de sua experiência musical. O baterista Buccelli e o produtor Jeremy Loucas são os caras que ajudam a conceber isso. “Xenia sempre foi uma artista muito inovadora. Ela puxa inspiração de todos os lugares e funde todas essas coisas em seu próprio estilo”, contou Loucas, que a conheceu na renomada Berklee College of Music, onde Xenia se formou.
Para gravar o segundo disco, Xenia se trancafiou por semanas em estúdio no segundo semestre de 2015. Ela passava por forte turbulência emocional, já que o pai havia falecido após complicações com o mal de Parkinson.
As inspirações para este disco, no entanto, não são puramente melancólicas. É como se esse momento a ajudasse, indiretamente, a crescer enquanto artista. Black Terry Cat provavelmente não entre nos anais das listas musicais, mas certamente tem mais a dizer do futuro do que os hits com bilhões de visualizações no YouTube.
Outros lançamentos relevantes:
• Guizado: Guizadorbital (EAEO Records)
• Paul Simon: Stranger to Stranger (Concord / EMI / Paul Simon / Virgin)
• The Kills: Ash & Ice (Domino)
• Brad Mehldau Trio: Blues and Ballads (Nonesuch)
• Fiona Brice: Postcards From (Bella Union)
