Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 3 de agosto de 2018
Disco da Semana: Toinho Melodia | Paulibucano
Falar de bambas automaticamente nos remete aos morros do Rio de Janeiro, à gloriosa época do samba. Mas, só pelo título você já deve ter sacado: Paulibucano trata-se da identidade de alguém que nasceu e cresceu no Pernambuco e foi tentar a vida em São Paulo.
Músicas sobre o êxodo rural, sobre saudade, perrengues ou, como diria Stuart Hall, “a volta para casa”, têm exemplos que vão de Luiz Gonzaga a Di Melo, mas não é só isso que propõe o compositor Toinho Melodia, que lança seu primeiro disco aos 68 anos.
O sambista pernambucano tem um timbre de voz que lembra Candeia e um jeito de compor que remete a Nelson Sargento.
Sua trajetória como sambista, porém, está atrelada às escolas paulistas Unidos do Peruche, Vai-Vai e, principalmente, Unidos de Vila Maria, onde tocou e aprendeu com Jangada, Talismã e Toniquinho Batuqueiro.
Toinho se manteve ativo nas décadas de 1970 e 80, até que tornou-se figura conhecida na festa Samba da Vela, que rolava no bairro de Vila Madalena, em São Paulo. Com o sucesso, chegou a ser atração do Ó do Borogodó, até que pôs o trabalho de estreia para crowdfunding, em 2016.

Paulibucano e as biografias dos migrantes
Quando ele começa com um tema meio nostálgico no samba-canção “Referência”, que abre o disco, temos a impressão de que Toinho vai abrir seu coração, relembrando amigos, bons momentos e aprendizados.
“Traste” fala de arrependimentos e do peso da consciência de atitudes de outrora, mas o disco adquire outra perspectiva com as linhas de acordeom que emanam de “Aboio”, que coloca esse instrumento tão típico do forró ao andamento do samba. (A música, porém, relembra com tristeza as mortes de vários gados no sertão pernambucano, prejudicando os pequenos agricultores do interior do estado.)
A partir daí, começa uma viagem pela cultura nordestina, que cita a figura do boiadeiro e as peculiaridades da culinária local, em “Siri de Lá”.
Na dobradinha “Pretexto” e “Sem Rumo” Toinho já fala de seus perrengues na metrópole: ‘Se eu tivesse dinheiro/Te levava pro estrangeiro/No cruzeiro em alto mar’.
Por mais que as crônicas de Paulibucano remetam a uma difícil autobiografia, Toinho compôs pensando em personagens.
Segundo o texto de divulgação, o álbum narra “a trajetória do menino negro que deixa a periferia de Pernambuco, mais especificamente Recife, e vai – em busca de uma vida melhor – morar na maior cidade do país. Em São Paulo, entre as tardes e noites na Vila Maria, Peruche e Vai-Vai, torna-se compositor e entende seu caminho artístico entre os bambas do samba”. Um personagem um tanto autobiográfico, diga-se.
Reforçando a teoria de Hall, o disco interliga a terra deixada e a ‘nova terra’ focando em desafios superados, formando um intercâmbio particular que certamente se identifica com os milhões de migrantes que construíram as grandes metrópoles do nosso país.
Outros lançamentos relevantes:
• Helena Hauff: Qualm (Ninja Tune)
• Spider Bags: Someday Everything Will Be Fine (Merge)
• Travis Scott: Astroworld (Epic)
Leia também: Toalha da Saudade (1976), de Batatinha, na seção Grandes Álbuns
