Gravadora: Matrero Records
Data de Lançamento: 25 de novembro de 2016
À sombra de um saxofone tácito diz o projeto de rap Síntese, em “Vive Aqui”: ‘Ao definir você me nega, ou melhor, me pega pra você‘.
O trabalho de sites como o Na Mira é definir, independentemente das implicações do termo. A definição faz parte do entendimento, ou melhor, é a síntese de algo.
Não estamos em busca de apontar contradições argumentativas, mesmo porque estamos analisando o trecho de uma música. Isolar um trecho musical é uma forma de buscar ambiguidade, sendo ambíguo. Errado, talvez.
Este foi apenas um exercício pueril para falar sobre um grupo que cresceu através de uma ambiguidade. Quando Neto e Leo lançaram Sem Cortesia, em 2012, já estavam com os dias contados com o projeto Síntese.
O fato é que a dupla de São José dos Campos (SP) agradou e conquistou boa base de fãs, embora apenas Neto tenha seguido com o projeto.
Ter dado certo foi algo que eles não esperavam. “A gente parou com o rap e soltou o álbum. É algo muito profundo pra mim, é tão profundo que eu não consigo nem visitar direito, é muito a minha vida, tudo que a gente viveu e acreditou”, disse Neto ao Noisey.
Surge então a contradição. Neto disse que não é tão fã de rap assim, e isso de certa forma ajuda a entender a unidade buscada pelo Síntese.
Em seu segundo álbum, Trilha para o Desencanto da Ilusão Vol 1: Amém, vemos o Síntese seguir o percalço mais óbvio para um bom álbum de rap: teclados e metais em vez de samplers, pegada orgânica e a produção de Daniel Ganjaman, o cara que ajudou a criar base para dois dos grandes fenômenos do rap dos últimos anos: Sabotage e Criolo.
As críticas do Síntese não têm mira direta. Compreendem a pulverização dos problemas e apreensão das pessoas, com prognósticos que parecem distantes, mas não são
Houve um caminho natural que levou a essa parceria. O Síntese já era afeito ao estilo meio A Tribe Called Quest de estruturar as canções – embora nunca tenham mencionado isso. Portanto, Ganjaman foi uma questão de encaixe.
Vivemos um tempo em que a estética do rap é apenas parte dos muitos elementos musicalmente contidos em um disco. Tire as batidas, pense em novos paradigmas, e aí sim encaixe bem o que realmente representa Trilha para o Desencanto.
Primeiramente, é reflexo de uma geração complexa (preste atenção no vocabulário), efêmera (vide o tempo das canções, com menos de 3min) e intensa (batidas e rimas marcantes em mesma proporção).
Em “Meu Caminho”, Neto relaciona o fato de ser reconhecido pela música como uma bênção.
“Desconstrução” é dotada de uma climatização que evoca o Olimpo para falar de hedonismo, Sodoma, Gomorra: ‘Catam seu oxigênio e te desacatam‘, filósofa Neto. ‘A vigilância é o mais sutil relaxamento‘, continua, dando a ideia de que, das passagens do Velho Testamento para o mundo de agora, as ambições pouco mudaram. Há uma enormidade de dinâmicas complexas, mas a finalidade é a mesma: valorização da individualidade.
As críticas do Síntese não têm mira direta. Compreendem a pulverização dos problemas e apreensão das pessoas, com prognósticos que parecem distantes, mas não são. ‘Água limpa vou buscar onde tiver/Pra compartilhar/Nessa seca de nós mesmos‘, canta Neto em “Gotas de Veneno”, certamente imaginando um plano de ideias que fuja dos algoritmos das redes sociais.
O desencanto mencionado pelo Síntese não é compatível com pessimismo – nem otimismo. “Representa o encontro íntimo com a verdade”, explicou Neto. Esse é o clima que prepondera em “Novo Dia”, que pede para deixar pra trás a intolerância: ‘Leia o que te faz querer amar quem te odeia/E trazer consigo a mudança no mundo que tanto anseia’.
Não é fácil seguir a mudança que se prega, porque os percalços são justamente aquilo que queremos evitar para não sair da zona do conforto – ou, pelo menos, não entrar em atrito direto com aquele que pensa tão diferente da gente.
O colapso existe, tá aí, e precisa ser combatido. Antes de tudo, é preciso entendê-lo, dentro de suas variadas complicações. Eis a síntese do Síntese.
Outros lançamentos relevantes:
• Julia Holter: Bleed for This (Milan)
• Oliver Coates & Mica Levi: Remain Calm (Slip)
• IFÁ: Ijexá Funk Afrobeat (Natura Musical)
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