Gravadora: G.O.O.D. Music/Def Jam
Data de Lançamento: 25 de maio de 2018

Disco da Semana: Pusha T | DAYTONA

O rapper Pusha T é conhecido por ser um dos principais parceiros de Kanye West, mas seu vínculo atual com o noticiário vem de uma treta: no mesmo dia em que o rapper lançou o álbum DAYTONA, Drake surgiu com o single “Duppy Freestyle”, clamando que ele se posiciona como se ‘vendesse drogas para Escobar nos anos 1980‘.

Resumindo tudo, Pusha T chegou a rimar sobre o suposto ‘oportunismo’ que o mentor de Drake, Lil’ Wayne, teve ao processar por milhões a gravadora Cash Money. E, no meio de toda essa corrente, tem Meek Mill, que saiu da prisão recentemente (aqui lembrado em uma canção chamada “What Would Meek Do?”, com participação vocal de Kanye).

De qualquer forma, nada disso importa com o lançamento de DAYTONA. (Mesmo porque, na última música, “Infrafred”, ele questiona quem seriam os verdadeiros compositores por trás do sucesso de Drake.) Fato é que temos a maturidade lírica de um rapper que parece sair da sombra de Kanye – uma saída tímida, é verdade, visto que seu patrão da G.O.O.D. Music destaca-se como produtor de todas as 7 faixas do álbum.

DAYTONA nas entrelinhas

Para captar a maturidade de Pusha T em DAYTONA é preciso sacar as entrelinhas. Isso porque a produção sombria, crua e opaca de Kanye garante um brilho que pega de cara o ouvinte.

Na primeira faixa, “If You Know You Know”, tudo se reduz a uma bateria contínua, mas o verdadeiro appeal está no esquema de rimas de Pusha T, com repetições de termos que favorecem a dinâmica evolutiva.

O que Kanye faz com o refrão da música equivale-se à genialidade de My Dark Beautiful Twisted Fantasy (2010), tanto que DAYTONA, no quesito dark-soul-R&B, soa como um primo próximo da grande obra de Kanye.

Em “Hard Piano” (com participação de Rick Ross), Pusha T segue uma linha mais agressiva. As notas de piano se espalham como pós de cocaína em uma faixa que questiona sucesso – lembrando, claro, que é sempre bom tirar uma casquinha de tudo isso.

Pusha T: sinceridade afiada

A grande habilidade de Pusha T está em buscar sinceridade em suas rimas, sem meias palavras. Ele não está aí para disputar com JAY Z, Kendrick ou mesmo o parceiro Kanye. Fala, majoritariamente, de negociatas, trutas e tretas.

Mesmo quando intitula uma faixa como “Santería”, existe um motivo maior: relembrar o trágico assassinato de De’von Pickett, antigo road manager de suas turnês: ‘Não há mais para o que rezar, manos são atacados/Escurecem minhas portas, eles me disseram que o dia se foi/Está me ouvindo, De’von?’.

Portanto, a força de Pusha T reside mais na consistência de sua abordagem. Ela pode ser pouco abrangente e repleta de vácuos poéticos, mas funciona muito bem numa proposta de álbum de 21 minutos, com uma produção pra lá de pretensiosa.

Pelo que vem apresentando, diria que Pusha T conseguiria seguir de boa sem o parceiro Kanye – mas aí, perderíamos o que o chefão faz melhor: produzir. De preferência, quietinho na dele.

Outros lançamentos relevantes:

Sudan Archives: Sink (Stones Throw)
Parliament: Medicaid Fraud Dogg (Kunspyruhzy)
A$AP Rocky: TESTING (RCA/Sony)
Arnaldo Antunes: RSTUVXZ (Rosa Celeste)