Gravadora: Island
Data de Lançamento: 15 de abril de 2016

Em The Hope Six Demolition Project, PJ Harvey é uma observadora.

Após viagens por Kosovo, Afeganistão e Washington ao lado do fotógrafo de guerra Seamus Murphy, ela testemunhou histórias de ‘zumbis’ abandonados por programas estacionados do governo, pessoas que sofreram com guerras e a paralisação coletiva diante de cenários isolados bem caóticos.

No álbum anterior, Let England Shake (2011), a 1ª Guerra Mundial serve de contexto para compreender o papel da Inglaterra nos dias de hoje.

Neste novo disco, PJ Harvey está munida da experiência in loco de locais traumatizados pela ganância e pelo descaso.

A poesia, neste caso, é bem mais afetada que a música. Hope Six captura a atmosfera lúgubre do anterior: em “River Anacostia”, um rio imundo tem sua paisagem de outrora reimaginada pela nostalgia dos choirs, evocando um spiritual preso ao passado. Alguns escravos ficavam submersos naquele rio para fugir de castigos; hoje, ele é o acúmulo de dejetos que liga Maryland a Washington, nos Estados Unidos.

“Near The Memorials to Vietnam to Lincoln” também é imbuído de uma caracterização acústica perene na maioria das faixas de Let England Shake; mais uma vez o coro musical está presente. As interjeições nos remontam ao disco White Chalk (2007), com violão, digamos, em sua função mais social: apenas de acompanhamento a um canto coletivo que parece um hino. A canção é um dos precedentes que alguns críticos classificaram como o ‘Let American Shake’, tanto que a forma em que é cantada nos remete a algumas práticas que associamos ao ‘american way of life‘: norte-americanos se reunindo para celebrar os heróis do passado, provavelmente com bandeiras de seu país ressaltando o orgulho da nação.

Então, surge o nosso olhar crítico: não é se aproveitando de atitudes como essa que o candidato republicano (e xenófobo) Donald Trump ganha força, engrandecendo uma supremacia nacionalista em detrimento dos direitos de imigrantes e estrangeiros?


Ser uma cantora pop britânica é o fator indelével que cria um distanciamento entre a realidade de PJ Harvey e das comunidades que visitou. Por outro lado, num momento em que as pessoas tendem a julgar sociedades e crenças a partir de manchetes de Facebook, sua peregrinação, só pelo fato de ser in loco, não deixa de ser um ato louvável e corajoso.

Logo na primeira canção, “The Community of Hope”, a cantora deixa claro: ‘Pelo menos foi o que me contaram’. A cartilha é seguida em “The Ministry of Defence”, em que cita crianças que ‘espalharam grafite em árabe’ num cenário tórrido com ‘vidros quebrados, osso maxilar branco, seringas, lâminas de barbear e uma colher de plástico’.

Crítica: PJ Harvey | Let England Shake

Se prestarmos atenção nas conclusões prévias da cantora, percebemos o quanto ela também possui uma visão ocidentalizada. Na própria “Ministry of Defence”, ela não deixa escapar: ‘esta é a forma que o mundo vai acabar’, certamente aludindo ao Afeganistão, que desde o final dos anos 1970 sofre com a invasão do Taleban e a entrada de armas soviéticas. (Quem leu Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, já construiu uma imagem de como deveria ser aqueles anos.)

O ocidental, neste caso, está no distanciamento. É exatamente isso que esperamos quando lemos uma grande reportagem de um correspondente de guerra na New Yorker ou mesmo no Al Jazeera: um interlocutor que tenha sapiência para interpretar o que acontece ao seu redor, evitando ao máximo intervenções que explicitem seu próprio universo pessoal.

The Hope Six Demollition Project, que começou com o livro de poesias The Hollow of the Hand e vai ganhar um documentário com todas essas conclusões distópicas, mas verdadeiras, sobre recessão econômica, descaso governamental e guerras injustificadas, enaltece uma abordagem artística muito comum a PJ Harvey: não é por outra que ouvimos ecos de Stories From the Sea, Stories From the City (2000) – principalmente no começo do disco – ou de sua influência que vem da música de Captain Beefheart (“The Wheel”).

Além da narrativa, há a música. É a junção disso que faz de PJ Harvey, assim, tão fabulosa.