Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 13 de novembro de 2015
E se a eletrônica assimétrica do Oneohtrix Point Never fosse materializada como rock? Daniel Lopatin, o cara por trás do projeto, já fez isso antes de você começar a imaginar como “Memory Vague” e “Problem Areas” ficariam se tivessem adição maciça de guitarras.
Seu novo disco, Garden of Delete, imagina essa fusão pela via industrial. E essa assimilação também engloba a síncope – que, num dado momento de “Sdfk”, usa bateria à exaustão.
Pense em Hesitation Marks (2013), mas sem a voz de Trent Reznor. Em seu lugar, ondas de transmissões e sons ambientes de lugares recreativos podem se convergir (“Mutant Standard”), à mesma medida em que podemos testemunhar a linha de raciocínio de um alienígena, em “Ezra”: cada fragmento carrega uma complexidade estética, entrelaçada por diferentes graus de repetição.
Daniel Lopatin pediu para que enviassem algumas releituras durante a concepção do disco, e chegou a ser acusado de plágio
Neste caso, Lopatin compreende que o maximalismo de Rustie e a entrecruzada sônica de Aphex Twin estão correlacionadas no disco que classifica como a materialização sonora influenciada pela vida de um alienígena chamado Ezra. Ele seria integrante de uma banda, Kaoss Edge. A partir daí, Lopatin criou uma ‘vida paralela’, subindo faixas em um perfil do SoundCloud e pedindo a fãs que enviassem versões de músicas que tivessem a mesma prerrogativa do Oneohtrix Point Never.
As coisas saíram do controle, e chegou um momento em que ninguém mais reconhecia o que era o OPN ou não – tanto que Lopatin chegou a ser acusado de plágio por alguns deles, que disseram que ele teria se apropriado de batidas para compor algumas faixas de Garden of Delete. “O Kaoss Edge representa aquele momento entre as porcarias da sociedade e a beleza de algum tipo de zona inefável”, explicou o músico à FACT Magazine.
Segundo ele, o ‘personagem’ veio de uma conversa num avião com o seu melhor amigo, que assina o designer da página ‘oficial’ da Kaoss Edge. “Ele é uma construção fantasiosa de uma vaga lembrança de minha infância, um composto de memórias traumáticas”, revelou.
Por isso o clima de Garden of Delete é claustrofóbico e visceral, mas, sobretudo, fruto de alguém solitário. “Child of Rage”, nesse sentido, é sintomática: sua levada remete à eletrônica oitentista, pegando os elementos mais básicos do house mezzo 808 State. É uma releitura de um tempo já desgastado pela lembrança.
A corpórea “Sticky Drama” é uma explosão de sentimentos reclusos, unindo IDM e dubstep à imprevista ação de uma criança, ou adolescente. É uma das melhores canções do disco, espécie de momento histriônico, diretamente herdado do recente SYRO.
“I Bite Through It” já representa um ato mais determinado. Se há algo de obscuro na canção, ele é claramente intencional, porque transita dos acordes secos ao eletrônico dark, de forma calculada e meticulosa. Essa já tem mais a ver com outra influência de Lopatin – o ensaio Poderes da Perversão, de Julia Kristeva. Seguindo esse raciocínio, a sociedade tem dificuldades de representar as experiências que passa e, ocasionalmente, recorre a termos como ‘merda’, ‘sujeira’, ou algum tipo de dejeto, de acepção mórbida. Isso tende à unilateralidade, aspecto que resume bem a proposta e o direcionamento de Garden of Delete.
Outros lançamentos relevantes:
• Anna von Hausswolff: The Miraculous (City Slang)
• BOOTS: Aquaria (Columbia)
• Rustie: Evenifudontbelieve (Warp)
• Le1f: Riot Boi (Terrible)
• Ty Dolla $ign: Free TC (Atlantic)
