Gravadora: Tri Angle
Data de Lançamento: 13 de julho de 2018
Disco da Semana: Lotic | Power
Euforia, caos, raiva, ressentimento, vontade de pular que nem louco, ou simplesmente mandar todo mundo para aquele lugar. Difícil traçar um personagem que expresse tudo isso, mas as coisas começam a clarear quando o criador por trás desses momentos e atmosferas é transgênero.
Power é o álbum de estreia de Lotic, conterrânea de Beyoncé (nasceu em Houston) e residente em um dos principais polos contemporâneos da eletrônica (Berlim).
No entanto, vale lembrar que Lotic está longe de ser novata. Seu primeiro EP, More Than Friends, foi lançado em 2011. Além disso, o próprio Power foi um processo complicado de composição que levou dois anos.
Numa era em que discursos de empoderamento têm inspirado cada vez mais mulheres e homossexuais a externarem seus sentimentos, suas lutas e frustrações, Power surge com fácil classificação após apresentarmos suas credenciais (e esse é o tipo de reducionismo que afasta tais expressões do público que realmente deveria prestar atenção no que elas têm para expressar).
Lotic complementa seu techno-industrial – que ora flerta com uma soundtrack de terror (“Nerve”), ora com um tipo de som cristalino que beira o lúdico (“Love and Light”) – com vocais, interjeições e percussões que se confundem em meio a sintetizadores e reverbs cósmicos.

Power: sensorial e dialético
Para um disco de estreia, é inegável a ambição em fundir o sensorial com o dialético, por mais abstrato que isso possa parecer.
“Distribution of Care” é o maior exemplo disso. A persistência de uma percussão amedrontadora, somada a cordas de violino que dimensionam um macroambiente mal assombrado, revela a existência de uma barreira quase intransponível entre a solidariedade e o preconceito. A dialética, aqui, está intrínseca à personagem de Lotic, que aqui representa toda a comunidade LGBTQ que, a cada dia, vê sua bandeira e suas escolhas questionadas por uma sociedade que ainda não abandonou a hipocrisia.
(Caso não esteja a fim de encontrar linearidade de discurso, sem problemas. Pancadas sonoras, como “Resilience” e a faixa-título, talvez sejam até mais efetivas em despertar reações adversas nos ouvintes. A resposta a essa música se confunde à reação do ouvinte diante dos desejos e sentimentos de Lotic, o que fortalece a unidade estética de Power.)
Se em “Distribution” ela não recorre aos vocais, não é o que se pode dizer de “Heart”, em que o argentino Moro une-se a Lotic para dizer que ‘daria seu coração, se confiasse em você’. É a pura manifestação de um sentimento positivo por trás de batidas intensas, thrillers macabros e um estranho appeal em causar impactos, principalmente por unir algumas das melhores características de gente do calibre de Arca, Oneohtrix Point Never e The Knife.
Deixe a Lotic conquistar você também.
Outros lançamentos relevantes:
• Dirty Projectors: Lamp Lit Prose (Domino)
• Marco Scarassatti: Hackearragacocho (Quintavant)
• Body/Head: The Switch (Matador)
• Bjørn Torske: Byen Smalltown (Supersound)
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