Gravadora: Nice Life/Atlantic
Data de Lançamento: 19 de abril de 2019

Disco da Semana: Lizzo | Cuz I Love You

Uma cantora com o vozeirão de Lizzo garantiria fácil um bom contrato com uma major que trabalha com pop e R&B. E ela conseguiu, com a Atlantic, a partir de um percurso diferente.

Se ela participasse de um reality show musical poderia vencer, provavelmente pelos motivos errados. Que cantasse Mary J Blidge, Beyoncé ou Diana Ross; sua voz atinge as notas altas e têm força para antecipar um caminhão sonoro na hora do clímax.

Mas, não. Que bom!

R&B e suas ramificações

A primeira coisa que vem à minha cabeça ao ouvir Cuz I Love You é o poder de romper barreiras. Investir apenas no vozeirão seria um caminho certeiro, principalmente na mão de um produtor que conhece bem o trajeto do sucesso.

Lizzo, porém, não tem o padrão de beleza que parte da audiência ainda associa erroneamente ao sucesso. E não se prende ao R&B ou à força do canto.

Na real, seu som possui uma musculatura que impressiona por se manter firme em todos os seus passeios estéticos: do rock psicodélico de “Crybaby” à versatilidade de adaptar flows a batidas, como em “Exactly How I Feel”, com participação de Gucci Mane.

Por mais que o R&B tenha ajudado a redefinir o caminho do pop desde que Ray Charles provocou uma revolução musical via gospel, por muito tempo houve essa separação entre R&B alternativo e mainstream sob rótulos diferentes – muitos deles subjetivamente ligados à imagem.

Lizzo, porém, interliga todos os gêneros irmãos e primos do R&B – incluindo uma repaginação moderna que supõe coexistência entre Jill Scott e Rita Ora.

Ela fez questão de diversificar produtores, mas o que fortalece o disco é justamente essa unidade integradora. “Soulmate”, por exemplo, é certeira em seus punches sonoros, falando sobre autoestima em uma mensagem simples, com a força de identificação digna de uma música pop de qualidade.

Efetiva jornada de Lizzo

Cuz I Love You é um disco que potencializa as muitas frentes da música negra: do doo-wop de “Jerome” à euforia do trap afrofuturista de “Tempo”, num feat espetacular ao lado de Missy Elliott, Lizzo tem ciência de que existe um público conectado por todas essas referências, não importa se seja clássica ou moderna.

Para isso, ela se preocupa com a narrativa.

Em tempos em que os números dos serviços de streaming despertam novos questionamentos sobre a forma de divulgar arte, Lizzo cria uma sequência que compreende a jornada do ouvinte no universo digital.

Ela começa o álbum com o soul arrebatador da faixa-título. Mostra-se antenada ao que há de mais efetivo no pop com “Like a Girl” até ir de encontro a uma estética meio Katy Perry em “Juice”, seu maior sucesso até então.

Perceba que são transições mais cautelosas, até que surge “Crybaby” para dar uma nova perspectiva à sua obra. Aí sim o disco melhora, com as citadas participações de Missy Elliott e Gucci Mane, o trocadilho para reconfigurar o senso de heroísmo, em “Better in Color”, o agito histriônico de “Heaven Help Me”, uma espécie de gospel moderno com um ritmo insistente de piano que hipnotiza…

E, por fim, o retorno à influência do soul límpido em “Lingerie”, canção imagética que sugere autoconhecimento do seu corpo em frente ao espelho.

Lizzo é versátil, mas não sei se este termo diz muito sobre o que ela apresenta em sua música. Ela sabe como ramificar suas referências a partir de uma raiz firme e autêntica. Uma música dela pode ter elementos artísticos fáceis de captar, mas seguir este caminho para interpretá-la seria o mesmo que definir um líder por uma frase.

Cuz I Love You é uma obra de comunicação que celebra a autoestima, gerando um impacto musical positivo. Talento aqui, embora evidente, é secundário.

Outros lançamentos relevantes:

Angélique Kidjo: Celia (Verve)

Wand: Laughing Matter (Drag City)
Gang of Four: Happy Now (Gang of Four Inc)

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