Gravadora: On-U Sound
Data de Lançamento: 31 de maio de 2019

Disco da Semana: Lee ‘Scratch’ Perry | Rainford

O Brasil esteve na rota de Lee ‘Scratch’ Perry e Adrian Sherwood na viagem sonora de Rainford, álbum que dá uma cara mais universalista à linguagem do jamaicano – aprimorado pelas intersecções espertas do britânico, parceiro do produtor desde os anos 1980.

Dá pra ouvir cuíca, em “Makumba Rock”, e sacar uma correlação com o batidão do funk como elemento de “Run Evil Spirit”.

O projeto teve início há 10 anos, “quando fui ao Brasil e trabalhei com uma percussionista maravilhosa, chamada Simone Soul, em seu estúdio em São Paulo”, como explica Sherwood. “Por volta de 4, 5 anos depois, coloquei Lee no ritmo em que trabalhamos, e tivemos o ponto de início e os critérios estabelecidos para trabalhar no disco”.

“Makumba Rock” tem elementos de vodu e samba numa linguagem de um dubstep embrionário, totalmente globalizado. Mesmo para os altos padrões de Lee, trata-se de um single com um hibridismo acima do esperado. Sherwood teve o cuidado de justapor os vocais do cantor como se fosse parte da mixagem, resultando em um som de ecos indefinidos, de espiritualidade difusa.

Lee ‘Scratch’ Perry: afrofuturista, sim!

Numa era de redescoberta do afrofuturismo, Rainford apresenta uma perspectiva mais visceral, que engloba reação da natureza, manifestação de revolta, lembranças pessoais.

Em mais de 5 anos operando sob o guarda-chuva do dub, foram raras as vezes em que Lee ‘Scratch’ Perry soou tão criativo e biográfico.

O disco se encerra com a dura lembrança de ter crescido em uma plantação escravista na Jamaica e ter trabalhado com Bob Marley, traçando uma trajetória que o levou a ser um upsetter, que serve tanto como referência ao grupo The Upsetters, com quem se projetou entre os anos 1960 e 70, e por ser afeiçoado à perturbação de uma ordem social benéfica apenas a quem estava no poder.

Muito da intensa parceria de Perry-Sherwood surge nas entrelinhas das demais composições. Em “Kill Them Dreams Money Worshippers”, vemos a dupla compartilhar a ojeriza pela era Trump e do Brexit, em um momento que pode ser considerado verborrágico para um inquieto cantor de 83 anos.

“Se encaixa tanto com a nossa era de agora, toda a coisa do pesadelo capitalista pela qual estamos passando”, disse Sherwood sobre a canção, em entrevista à Vinyl Factory.

Tanto no pessoal quanto no espiritual

Lee é um crítico nato da estrutura sistemática da sociedade. Em Rainford, que faz menção ao seu nome de nascença, Rainford Hugh Perry, prevalece sua espiritualidade.

Calma, você não vai ficar ouvindo rasta disso, rasta daquilo. O músico nos apresenta borrões de uma personalidade incomodada com extravagância, religião enquanto política e por um tipo de colonização ‘moderna’, expressa em “African Starship”, que permite vislumbrar por que a sociedade é tão erroneamente dividida nos dias de hoje.

Sherwood e Perry compartilham muito mais que excelência técnica em estúdio. O texto de divulgação compara a “profunda pessoalidade” extraída do cantor ao trabalho de Rick Rubin, quando gravou a série American Recordings, com Johnny Cash.

Por se tratar de um músico de ideias interplanetárias e habilidades que transcendem a junção de instrumentos e de produções elaboradas, tem-se como resultado um documento mega-abstrato, tal qual uma pintura de Basquiat em que alienígenas se confundem com seres humanos em rabiscos, cores desajustadas e sentimentos enigmáticos. Põe profundidade nisso.

Outros lançamentos relevantes:

Sinkane: Dépaysé (City Slang)
Kishi Bashi: Omoiyari (Joyful Noise)
Damon Locks & The Black Monument Ensemble: Where Future Unfolds (International Anthem)

Leia também: Crítica do disco Rise Again, de Lee ‘Scratch’ Perry (2011)