Gravadora: Sony
Data de Lançamento: 9 de novembro de 2018

Disco da Semana: Karol Conka | Ambulante

Cinco anos sem disco novo é muito tempo, mas Karol Conka não ficou fora de evidência nesse ínterim. Sua presença em programas de TV (incluindo um próprio, no canal GNT), boa circulação em festivais brasileiros e considerável base de seguidores nas redes sociais ajudou a efervescer o interesse na sua carreira musical, que começou em um distante 2001 com um EP homônimo e atingiu grandes proporções com Batuk Freak (2013).

A curitibana tornou-se referência de personalidade feminista – mais por suas posições declaradas em apresentações, entrevistas e posts no Instagram do que por sua música.

Embora Batuk Freak tenha marcado forte posição política ao propor rompimento com a barreira ‘do gueto ao luxo’ e, claro, traçado o perfil de mulheres que lutaram em busca da liberdade (vide “Sandália”), o álbum tinha mais o compromisso de fazer de Karol Conka uma cantora pop.

O sucesso de Karol teve uma ascensão diferente comparada a outras estrelas contemporâneas, como IZA e Anitta, por exemplo. Seu discurso ganhou mais contundência no tête-à-tête, de forma que sua música, naturalmente, tornou-se extensão de suas ideias e princípios. É preciso se deparar com o discurso de Karol para compreender sua arte – uma relação cada vez mais indissociável com a força das mídias sociais.

A inimitável Karol Conka

A turbulência sociopolítica dos últimos anos no Brasil – que, de 2013 pra cá, passou por manifestações contra o transporte, eleições conturbadas, ascensão da ultradireita e alta propagação de notícias falsas – está ainda mais intrínseca à arte de Karol.

Ao longo desse período ela expressou com veemência sua posição política e estreitou ainda mais os laços de sua música com rap e eletrônica – lamentavelmente encarados como duas coisas distintas por aqui. (Os exemplos vão do remake de “Cabeça de Nêgo”, de Sabotage, à parceria com Tropkillaz na impactante “É o Poder”, que ajudou a inclinar ainda mais seu forte discurso social.)

Compreender essa trajetória é importante, porque não dá para estabelecer uma linha comunicativa entre Ambulante e Batuk Freak ignorando esse contexto.

Infelizmente Karol continua sendo alvo de racismo e desprezo – por isso, a primeira pessoa é crucial em suas músicas. “Kaça” a coloca como uma personalidade inimitável por sua postura e trajetória, enquanto “Bem Sucedida” é expressão empírica de como a equiparação salarial entre homens e mulheres tem muito a evoluir enquanto discurso.

A favor das liberdades individuais (afinal, ela é feminista, luta por isso), Karol concorda que cada um deve seguir sua trajetória da forma que quiser em “Vogue do Gueto” e, sob uma base techno-industrial mais melancólica, reforça o quanto é necessário seguir em frente em “Desapego”.

Boss in Drama soube como enaltecer o sentimento por trás de cada música de Karol. Suas batidas ajudam a tornar o discurso da cantora mais acessível. “Vida que Vale”, por exemplo, tem a força para revigorar uma ouvinte desamparada, enquanto a divertida “Dominatrix” tem o appeal para momentos a dois (ou a três, quatro, enfim).

Por mais que seja o primeiro álbum em uma grande gravadora, Ambulante enfatiza a forma com que Karol lida com o mundo: de forma leve, sem fugir de tretas, combativa e com a consciência tranquila – sempre em primeira pessoa, claro.

Leia também: Crítica do disco Batuk Freak, de Karol Conka (2013)

Outros lançamentos relevantes:

Charles Bradley: Black Velvet (Daptone)
Little Dragon: Lover Chanting (Ninja Tune)
Marcus Strickland’s Twi-Life: People of the Sun (Blue Note)