Gravadora: Def Jam/G.O.O.D. Music
Data de Lançamento: 12 de fevereiro de 2016
Kanye West não para de falar merda por aí há um bom tempo. Se acha o “melhor roqueiro de todos os tempos” e se diz no direito de contestar consagrações a outros artistas que não sejam de seu círculo, vide a repercussão do VMA em que atrapalhou o discurso de Taylor Swift (e quase fez o mesmo com Beck).
A culpa de tudo isso é nossa, da imprensa, dos críticos. Elogiamos seu salto mais ganancioso de arrogância, My Dark Beautiful Twisted Fantasy (2010), como uma obra grandiosa por unir megalomania nas composições e na produção.

Crítica: Kanye West | Yeezus (2013)
Ele quis ser gigante e foi gigante, e isso não foi nada bom; desencadeou em declarações estapafúrdias e atitudes duvidosas que deram mais buzz ao seu trabalho. O bom e velho ‘falem mal, mas falem de mim’.
Repercutir as deliberações de Kanye West tem sido um exercício feito à exaustão pela imprensa nos últimos anos.
Depois de My Dark Beautiful, a chegada de Yeezus (2013) pode não ter sido comprometida pelas falácias. Já não podemos dizer o mesmo de The Life of Pablo.
Após quatro mudanças de título, alterações em tracklist e decisões compartilhadas que fizeram dos ansiosos fãs testemunhas da ‘evolução’ de seu disco, as atitudes ególatras de Kanye West não demoraram a adquirir tons perversos. O álbum The Life of Pablo manifesta ao menos dois exemplos: a canção “Famous”, em que insulta Taylor Swift (‘Sinto como se eu e Taylor estivéssemos transando/Por que? Fiz essa vadia famosa’); e “Facts”, em que questiona: ‘Alguém se sente mal por Bill Cosby?’, defendendo o apresentador acusado de estuprar dezenas de mulheres.
Na psicanálise a embriaguez pelo êxito, ou a ‘loucura’ provocada pelo poder, tem o nome de Síndrome de Hubris. Comumente mencionada ao analisar ditadores e políticos, é compreendida como “aspecto pouco atraente, mas compreensível daqueles que anseiam poder”, de acordo com estudo da Universidade de Oxford.
O paralelo pode ser bem estabelecido porque músicos também têm a influência, o alcance e o poder de propaganda de políticos. “O poder confunde-se com virtude e tende a levar o indivíduo à onipotência”, explica J. William Fulbright, ex-senador dos EUA e autor de A Arrogância do Poder. (Impossível não lembrar-se de “Power”, onde Kanye dizia, em primeira pessoa: ‘Faço melhor que qualquer um que você já viu fazendo isso’.)
O diz-que-me-diz e a arrogância artística compromete, sim, a representatividade de The Life of Pablo. E não há nenhum erro em estabelecer esse paralelo, pois não existe imparcialidade
Não levar atitudes execráveis do rapper a sério culmina em reações cada vez mais extremadas, algo que vemos Kanye West fazer desde que o desconhecido sucessor de Yeezus se materializou em The Life of Pablo, e continua revelando novos episódios (no último, Kanye pediu US$ 1 bilhão emprestado a Mark Zuckerberg para pagar suas dívidas).
Esse cenário repleto de diz-que-me-diz e arrogância artística compromete, sim, a representatividade de The Life of Pablo. E não há nenhum erro em estabelecer esse paralelo, pois não existe imparcialidade.
Antes de falar sobre o disco, é importante dizer: como esse amontoado de bobagens nos afeta na interpretação de sua obra?
Como editor do Na Mira, admito que toda essa superficialidade me afastou do Kanye West que me empolgou com My Beautiful Dark… Hoje, vejo Yeezus como um passo muito mais qualitativo que seu antecessor, mas só porque sua competente habilidade de produtor permitiu abrir os campos para uma musicalidade saturada, um passo à frente do trap, predominante no hip hop desde Gucci Mane.
Portanto, vamos a The Life of Pablo.
Demora demais pra começar. As três iniciais “Ultralight Beam” e “Father Stretch My Beams Pt. 1” e “Pt. 2” são desnecessárias porque representam o contrário ao que Yeezus ofereceu de melhor: foco.
Ao contrário do que críticos do The Guardian e Chicago Tribune apontaram, a falta de um direcionamento no disco não é um problema, a não ser no início.
“Famous” realmente é misógina, e a intro com Rihanna não diminui isso.

Crítica: Kanye West | My Dark Beautiful Twisted Fantasy (2010)
O primeiro ponto positivo do álbum, porém, surge com a crua “Feedback”, em que o Pablo do título revela ter proximidade com o traficante Pablo Escobar, principalmente quando diz: ‘Pablo comprou Roley e um rottweiler/Parece mais como algo famoso/Eu só sou mais selvagem’. (Entre as outras referências advindas do título estão Pablo Picasso e o apóstolo Paulo, da Bíblia.)
“Low Lights” e “Highlights” são mais amostras da predominância dos autotunes, e o disco só começa a chamar atenção novamente com “Waves”, com participação de Chris Brown. Mas ela despenca tão abruptamente, que a retomada efetiva mesmo só acontece com a chegada de “FML” – a 11ª canção! Ah, e isso após dois minutos de muita hesitação…
A grande verdade é que, enquanto disco conceitual, The Life of Pablo é falho. Justamente por forçar essa unidade, ele decai.
A salvação está na segunda metade, com “Real Friends”, “30 Hours” e “No More Parties in LA”. Seus interlúdios são longos demais em alguns casos, mas cumprem a função de superar as expectativas geradas.
Por não seguir essa linha, a colaboração com Kendrick Lamar (“No More…”) se destaca diante das outras. A produção de Madlib apresenta frescor a partir de uma contradição: é a única que assume a musicalidade nostálgica e celebra as rimas ágeis do hip hop. É o único take clássico diante de uma sinestesia dramática que se propõe inovadora.
Seria preciso Kanye West se calar para que The Life of Pablo adquirisse novas perspectivas? Provavelmente não, porque, uma vez entregue, o álbum passa a falar por si só.
O problema é: até que ponto a infecção marqueteira, ególatra e narcisista afetou o disco? Se você passou por este teste ou é neutro demais, ou pode considerar-se sortudo.
Outros lançamentos relevantes:
• Ed Motta: Perpetual Gateways (Must Have Jazz)
• Rokia Traoré: Né So (Nonesuch)
• Ute Lemper: The Nine Secrets: Words by Paulo Coelho (Chamaleon / Steinway & Sons)
• Avishai Cohen: Into the Silence (ECM)
• Michel Benita/Ethics: River Silver (ECM)
