Gravadora: Wondaland/Bad Boy Entertainment/Atlantic
Data de Lançamento: 27 de abril de 2018

Disco da Semana: Janelle Monáe | Dirty Computer

Quase 5 anos depois de The Electric Lady (2013) e passagens notáveis no cinema nos papéis de Teresa (em Moonlight) e Mary Jackson (Estrelas Além do Tempo), Janelle Monáe lançou Dirty Computer dois anos depois de perder um dos principais mentores do disco: Prince.

A primeira homenagem veio em formato de canção. Em “Make Me Feel”, a gênese que une funk e rock da maneira mais dançante possível estava repaginada, e Janelle teve todo o cuidado de já deixar claro que, sim, Prince estava naquela canção. O resultado é inquestionável.

Junto a ela veio “Django Jane”, um rap afrofuturista que põe o flow do trap na forma de protesto contra a marginalização da mulher negra na sociedade: ‘Nega, volte, sente-se, você não estava envolvida/E aperte o botão mudo, deixe a vagina ter um monólogo‘.

De forma muito bem encadeada, ela relaciona séries protagonizadas por atrizes negras, como Scandal e How to Get Away with Murder, a versos que criticam o patriarcalismo.

‘Sou uma Dirty Computer

As 14 músicas de Dirty Computer são divididas em três diferentes momentos: Reconhecimento, Celebração e Reclamação.

Da parte de Reconhecimento, a faixa-título, com participação do ex-Beach Boys Brian Wilson, e “Crazy, Classic, Life” fazem as primeiras honras, num tipo de nebulosidade sonora em que vemos Janelle se despir, aos poucos, da persona Cyndi Mayweather, a andrógina futurista que catalisa as opressões e os potenciais de todas as minorias: LGBTQ, mulheres negras, imigrantes…

“As primeiras músicas lidam com a realização de como a sociedade me vê. Isso é como eu me vejo. Sou uma dirty computer, está claro. Serei empurrada às margens, para fora das margens, do mundo”, disse a cantora à New York Times Magazine.

Na parte de Celebração, Janelle conta com algumas ajudas importantes. Em “Pynk”, Janelle e Grimes encontraram o meio-termo perfeito entre o eletropop e o R&B, enquanto “I Got The Juice” traz um Pharrell inspirado nos grupos vocais da Motown anos 1950, com influência da trilha de Pantera Negra.

Janelle Monáe: novo pathos sonoro

Aliás, Dirty Computer propõe uma expansão do pathos sonoro da trilha de Kendrick Lamar. Muitas das concepções artísticas que envolvem o filme e a trilha vieram de Atlanta, cidade-natal da cantora (e de sua gravadora, Wondaland). (Antes de colocar o disco na rua, Janelle convidou os atores Chadwick Boseman e Lupita N’yongo para ouvir o álbum. Ambos aprovaram, sem pestanejar.)

Já da seara Reclamação vemos Janelle totalmente despida da personagem que marcou The ArchAndroid (2010). É daí que veio “I Like That”, que deixa bem posta sua posição política: ‘Estou sempre à esquerda do centro, e é aí que eu pertenço‘, diz o refrão da música. ‘Eu sou a pequena nota aleatória que você ouve nas músicas principais‘, um trecho do qual muitos irão discordar, já que os holofotes têm acenado bem aos experimentos de Janelle.

As últimas músicas de Dirty Computer resolvem alguns enigmas do perfil politizado, mas comedido de Janelle.

Em “Don’t Judge Me”, onde ela propõe ‘nos reintroduzir, de um ponto de vista livre‘ ao dar pistas de sua sexualidade – “ser uma mulher negra queer na América, alguém que já esteve em relacionamentos tanto com homens quanto mulheres – eu me considero uma filha da puta de bunda livre”, disse Janelle à Rolling Stone sobre o assunto.

“Americans”, que encerra o álbum, é uma das melhores composições do disco. Ela satiriza o machismo intrínseco à onda conservadora que tem se espalhado não só em seu país de origem, mas no mundo todo. Aqui, ela advoga pela representatividade de ser uma mulher negra que cresceu em um local que jamais deixou de ser racista – e aí ela elenca as demais ramificações do problema, que vão do menosprezo da mulher na sociedade à brutalidade policial.

Se em The ArchAndroid ela apresentava-se conceitualmente e, em The Electric Lady, universalizou essa linguagem ao âmbito pop, Dirty Computer é a Janelle marcando posição. Isso ela expressa com inteligência, fazendo conexões com a ficção e propondo o diálogo de forma mais horizontal. No fundo, percebemos Janelle em busca de um mundo menos intolerante, algo que suas palavras, música e referências compreendem como algo possível.

Outros lançamentos relevantes:

J. Cole: KOD (Interscope)
Van Morrison & Joey DeFrancesco: You’re Driving Me Crazy (Exile Records/Legacy/Sony)
Grouper: Grid of Points (Kranky)
Marc Ribot’s Ceramic Dog: YRU Still Here? (Northern Spy)