Gravadora: ACM Productions/Jazzbook Records
Data de Lançamento:
14 de abril de 2017

Apresentada como protegida do saxofonista Archie Shepp nos anos 1990, a cantora francesa de origens do Benim Mina Agossi é e não é jazzista.

Pouco importa o fato de que seu currículo inclua músico do grupo de Dizzy Gillespie ou turnês com o mestre do piano Ahmad Jamal (com quem deve se apresentar este ano em diversos países): Mina é tradição ao mesmo tempo em que é contemporânea, orbitando um espaço que nem mesmo a riqueza de variedades do pequeno país do oeste africano oferece como paralelos.

Com mais de 60 dialetos e dezenas de ritmos, desde que a independência do Benim passou a ser aceita mundialmente, nos anos 1960, diversas expressões locais foram surgindo.

Entre os gêneros mais conhecidos estão o zinli, de Alékpehanhou, que parece uma procissão lenta. Se você ver o clipe de “Awo Mèwito”, vai entender como eles transmitem uma mensagem, passam por um ritual e transformam sua música numa plenitude em que a dança e a ligação com as raízes são parte de um todo.

Por outro lado o país também abriga o som pop de Angelique Kidjo, que traz algumas semelhanças com o som caribenho e uma originalidade de figurino como raramente se vê na música ocidental.

Esse mapeamento é importante, porque mostra que, fora o trabalho já comparável à Flora Purim, o universo de Mina Agossi é amplo e ainda assim insuficiente para o que ela apresenta em seu novo álbum, UrbAfrika.

Universo em cada música

Intencionalmente descrito como um retorno às “energias orgânicas” de Benim, a cantora reúne os ensinamentos que obteve com Gilles Loueke e põe o pequeno país africano num palco de grandeza estética que parece unir o som espacial dos The Heliocentrics, a força dos teclados afro-beat de Fela Kuti, a dispersão percussiva de Naná Vasconcelos e o sentimento de união de Nneka.

Entre sussurros, clamores e entregas espirituais, Mina Agossi trouxe dois convidados que uniram originalidade e groove num pacotão só.

Um deles é o vocalista e baterista Jean Adagbenon, do Benim, que oferece um contraste vocal importante que separa sua música de quaisquer encaixes da world-music.

O outro é Paco Sery, tocador de sanza, um instrumento tradicional da África que lembra a forma de uma calimba. Em “Si Bien”, é possível ver como ela parece vir da mesma família da percussão, trazendo um timbre mais agudo que dá a impressão de múltiplas respirações embaixo d’água.

Não dá pra definir as origens de cada uma das 11 músicas de UrbAfrika. O sotaque do francês de “I Don’t Want to Be Alone” dá um sentido de integralismo áfrico-europeu.

Em “Another Life”, ela canta como uma diva do jazz, enquanto “Juicy Fruit” tem um traço do pop da mencionada Angelique Kidjo.

“Otto Dagbe” parece que tem a mesma intenção de um clamor, mas ‘o fato é que eu não ligo/O mundo é apenas um playground’. Então você entende a delineação daquele teclado setentista e a profusão de uma sonoridade aguda repleta dos traços da típica música da África Ocidental.

“Shake Your Tree” parece mais convincente em angariar ouvintes, porque tem como atrativo um dos maiores poderes da música: a ginga. E ela conta com a percussão de Philippe Combelle e a dinâmica de Adagbenon na bateria, modulando sua voz com o tremeluzir do baixo de Eric Jacot (que, em “Another Life”, oferece uma densidade pra lá de cativante).

O passeio técnico promovido por UrbAfrika é mais ou menos como a descoberta de universos inteiros em cada escolha, em cada batida percussiva, em cada justaposição de espaços dos músicos.

Da riqueza da tradição do Benim à multidimensional música africana, Mina Agossi devaneia, dança, se diverte, impressiona… Sinceramente: depois disso aqui, o ouvinte chegará à conclusão que não sabe necas de música diante de tanta riqueza.

Outros lançamentos relevantes:

Preservation Hall Jazz Band: So It Is (Legacy/Sony Music)
Regina Carter: Ella: Accentuate the Positive (OKeh Records/Sony Masterworks)
Mr. Mitch: Devout (Planet Mu)