Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 4 de março de 2016
O 5º disco de Esperanza Spalding apresenta uma jazzista que você não tinha se deparado antes. Sai de cena a contrabaixista que melhor representa o pop no gênero para dar lugar a uma epifania, a uma voz que permaneceu oculta por muito tempo aos seus fãs e ouvintes costumeiros.
Emily’s D+ Evolution demorou mais de três anos para ser concebido. A sonoridade justifica a demora: mais elétrico, o disco trabalha meticulosamente a influência do fusion e do avant-garde, estilos que nem mesmo o ousado mix que inclui soul e hip hop – que resultou em Radio Music Society (2012) – se aproximaria.
O disco “é um monte de coisas”, disse Esperanza ao Village Voice, no ano passado. “Volta atrás para seguir adiante; retorna para ainda antes de um período que as pessoas passaram a me ouvir. Então é o novo, ainda que seja velho. É uma velha curiosidade que foi explorada de uma nova maneira por mim”.
Por mais que tenha contorno fantasioso, Emily é o nome do meio de Esperanza e representa um lado noturno de sua obra. Influenciada pelas possibilidades da lua cheia, surgiu como um lampejo criativo dias antes de seu aniversário de 29 anos (hoje ela tem 31).
Emily é uma personagem que pertence ao seu ‘lado adolescente’, com foco no ensinamento e no aprendizado. “Minha inteligência e meu amor pelo aprendizado nunca se refletiu nas minhas notas escolares”, disse a cantora. “Mas eu adoro crescer e aprender, e estou sempre seguindo adiante. Nunca fui capaz de refletir isso com uma série de A’s. Me sentia como uma estudante nível A, mas simplesmente não era”.
A primeira amostra foi surpreendente: lançada no ano passado, “One” tem um crescendo orquestral que se abre para um pop que absorve o jazz e o rock na mesma proporção. Os solos de guitarra de Matthew Stevens são breves, mas suficientemente flamejantes para demarcar essa nova fase.
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Para uma cantora que poderia muito bem continuar fazendo o que faz para coletar premiações, Emily’s D+ Evolution é mais um passo a frente que um recuo. Esperanza tem à disposição um grupo de prontidão para seguir em sua viagem interna – além de Stevens na guitarra e ela no baixo, a banda é composta por Corey King (trombone, teclados, backing vocals), Nadia Washington (guitarra, backing vocals) e Justin Tyson (percussão).
O baixo de Esperanza é salutar. O grave do instrumento contrapõe a fluidez de seu canto, evitando que a canção perca o rígido andamento
Logo de início, em “Good Lava”, ela aumenta o volume dos amplificadores e deixa que o rock vulcânico tome a dianteira. A seguinte, “Unconditional Love”, balanceia a eletricidade como se fosse parte da vivacidade da personagem, uma espécie de reflexo de sua testosterona.
O baixo de Esperanza é salutar nas entradas de todas as 12 canções do disco. O grave do instrumento contrapõe a fluidez de seu canto, evitando que a canção perca o rígido andamento – afinal, é aí que reside o balanço de seu estilo musical.
Além do rock, o funk é um dos estilos perpassados no disco. Essa conexão, claro, tem tudo a ver com os anos 1970, o que aufere coerência por parte de Esperanza em conectar as influências a algo ‘conceitual’. “Funk The Fear” é exemplo irrefutável desse recorte de espaço/tempo: o som lembra uma banda num show de calouros disputando para se tornar a próxima Sly & The Family Stone.
“Judas” pega o mesmo bonde, mas mostra o grupo muitos anos mais ‘maturado’ – ainda que ‘experiência’ não seja um substantivo utilizável para Esperanza Spalding, embora talentosa, ainda jovem.
As referências se expandem à Joni Mitchell (“Noble Nobles”) e à fase pop de Annette Peacock (“Earth to Heaven”). “I Want It Now”, por exemplo, é cover de Veruca Salt para o clássico filme de 1971 “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Por ser a faixa final, mostra que as ambições estéticas do disco se entremeiam às ambições de uma persona enérgica – característica perceptível de Esperanza Spalding, mas levada ao extremo por Emily.
Outros lançamentos relevantes:
• Violent Femmes: We Can Do Anything (PIAS)
• Guerrilla Toss: Eraser Stargazer (DFA)
• Krokofant: Krokofant 2 (Rune Grammofon)
• Qluster: Echtzeit (Bureau B)
• Elephant9 & Reine Fiske: Silver Mountain (Rune Grammofon)
