Gravadora: Deckdisc
Data de Lançamento: 18 de maio de 2018

Disco da Semana: Elza Soares | Deus é Mulher

Elza Soares está em uma fase flamejante, e ela começou em A Mulher do Fim do Mundo (2015), em que a produção de Guilherme Kastrup e a participação de músicos como Kiko Dinucci, Romulo Fróes, entre outros, trouxe uma energia frenética em temas que falam sobre a força da mulher na sociedade.

O segundo disco, Deus é Mulher, já deixa implícita a ideia de empoderamento. Neste que pode ser considerado o segundo capítulo de uma nova jornada estética em sua carreira, Elza conta novamente com Kastrup, Fróes e outros colaboradores em comum para uma arquitetura sonora cáustica e chamuscante.

Temas de compositores como Douglas Germano (“O Que Se Cala”) e Tulipa Ruiz (“Banho”) abrangem assuntos como a língua nacional e a natureza, que exigem uma abordagem diferente por parte de Elza.

Se antes o empirismo lhe garantia a autoridade de falar sobre violência e desprezo machista, agora a cantora encara esses novos desafios de composição do zero. Ela conquista o ouvinte – algo que demora poucos segundos – e reconstrói essa autoridade em cada canção.

“Exú nas Escolas”, delicado tema de Dinucci e Edgar, ancora-se num trio de guitarras rítmicas que se alternam. É a repetição que ajuda o ouvinte a se situar antes da entrada de Edgar, que lembra o quanto a distorção do que deveria ser um estado laico tem prejudicado a discussão sobre o convívio de diferentes religiões. ‘Pois acredito que até Cristo era um pouco mais crítico em relação a tudo isso‘, diz o convidado.

Elza explicita sua fé de maneira mais direta em “Credo” (Germano), clara resposta à intolerância religiosa: ‘Credo, credo, sai pra lá com essa doutrinação‘, canta, desenrolando um tipo de samba apocalíptico em que a síncope possui marcações eletrificadas.

Deus é Mulher: simbologia

Pelo título obviamente Elza não deixaria de abordar a mulher na sociedade. Em “Eu Quero Comer Você” (Alice Coutinho e Romulo Fróes), a marcação do baixo de Marcelo Cabral acompanha os versos de Elza, que não economiza nas repetições: ‘eu quero dar pra você’.

Promiscuidade? Não, meu caro, trata-se da reafirmação do poder de escolha, algo comumente questionado quando a mulher é a portadora desse poder.

A mulher dentro de cada um não quer mais silêncio’, introduz Elza em “Dentro de Cada Um”. É onde a simbologia de Deus é Mulher começa a tomar forma.

Entre porradas, dificuldades e acuidades, vem a sabedoria e a paciência que, defende a cantora, ‘vai sair‘. Pode ser de um garoto recauchutado, a mulher que apanha do marido… Mulher representa força, e ninguém mais adequada que Elza para reforçar essa mensagem.

Outros lançamentos relevantes:

Courtney Barnett: Tell Me How You Really Feel (Marathon)
Brad Mehldau Trio: Seymour Reads the Constitution! (Nonesuch)
Nicola Conte: Let Your Light Shine On (Universal)
Arturo Sandoval: Ultimate Duets! (Universal)