Gravadora: 12 Tone Music/Aftermath
Data de Lançamento: 16 de novembro de 2018
Disco da Semana: Anderson .Paak | Oxnard
Que hip hop e soul-music são ritmos irmãos já sabemos, mas poucos músicos reúnem características tão caras a esses gêneros – o flow, a expressão sentimental e a imperceptível transição entre um e outro – como Anderson .Paak.
Não que o cantor de 32 anos da Califórnia seja o único do gênero. Mas, na linha do tempo que inclui Posdnuos, Q-Tip e Andre 3000, Paak apresenta uma linha mais versátil, com a força dos backings de sua banda de apoio, The Free Nationals, e o importante direcionamento de Dr. Dre, que mixou todas (e produziu algumas) músicas de Oxnard, seu terceiro disco.
Oxnard: parcerias importantes
Anderson .Paak ficou mundialmente conhecido após participar de algumas das melhores faixas de Compton (2015). Embora já carregasse um disco na bagagem (Venice, de 2014), Malibu (2016) surgiu alguns meses depois superando expectativas precoces.
Seu dinamismo com jazz, hip hop e R&B remetia à afiada integração entre D’Angelo e os Soulquarians – algo potencializado em Oxnard, que surge com uma proposta de maior diálogo estético.
Isso é percebido no montante de colaborações. O primeiro single lançado, “Tints”, repete a parceria com Kendrick Lamar num som que tem a cara da música californiana: estreita-se o eixo entre rap e soul num groove encantador para ouvir no talo em qualquer lugar que esteja.
Pusha T e J Cole também se apresentam como parceiros ajustáveis à noção musical de .Paak. Em “Brother’s Keeper”, o looping da bateria firma a entrada do rapper, enquanto “Trippy” tem um appeal mais sedutor – e digo isso mesmo citando a entrada de um J Cole disperso ao dizer: ‘Costumava ter uma garota que todos gostavam quando criança, mas de certa forma ficamos desconectados antes do Facebook tornar-se tão grande’.
Reconexão, de fato, é algo importante no disco de .Paak. Oxnard é o nome de sua cidade-natal, local crucial para assimilar diversos estilos musicais e buscar inspirações em filmes e séries da infância.
Essa busca pelo lado mais lúdico de sua vida é sedimentada em “Who R U?”, com direito a backings de Dr. Dre. Num boom-bap que parece unir o G-funk ao bouncing de Miami, vemos o flerte da ficção com narrativas reais de negros perseguidos pela polícia como alguns dos medos e arquétipos ligados a .Paak.
As proximidades de Anderson .Paak
Entretanto, Oxnard não se trata apenas de uma jornada individual. Para o soul plastificado de “Smile/Petty”, .Paak disse que se inspirou na história de um dos guitarristas da sua banda, “que foi posto para fora de casa e teve suas coisas jogadas na rua”, como afirmou em entrevista à NPR. “Ele estava tentando falar com sua mulher enquanto estávamos saindo do avião, então ele perdeu a recepção da chamada. Foi um ótimo material para escrever uma música”.
Em homenagem ao rapper Mac Miller, que morreu recentemente de overdose, com apenas 26 anos, Anderson .Paak dedicou a música “Cheers”, falando sobre proximidade, reflexões e maus hábitos.
O final elegíaco, com ótima performance no sax-tenor de Sly Jordan, prova que Oxnard se fortalece em suas conexões. Nem todas, porém, são bem-sucedidas. A participação de Q-Tip, por exemplo, acabou comprometida pela mixagem de Dr. Dre.
Outros lançamentos relevantes:
• Lupe de Lupe: Vocação (Balaclava Records)
• Various Artists: Brainfeeder X (Brainfeeder)
• Daniele Roccato & Ludus Gravis: Stefano Scodanibbio: Alisei (ECM)
Leia também: Como Anderson .Paak encontrou o meio-termo de rap e soul-music no disco Malibu (2016)
