Gravadora: XL
Data de Lançamento: 20 de novembro de 2015
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Adele é emoção. E, desde que o mundo é mundo, a principal forma de interação entre o ser humano e a música é a partir daquilo que sentimos.
É mais complexo do que se imagina, mas ao analisar o impacto arrebatador da obra desta britânica, é possível ter uma noção de como nossa forma mais primitiva de se conectar à música permanece determinante.
Adele é a personificação, a figura daquilo que temos de mais humano: nossa capacidade de sentir e de reagir com sinceridade. Seu acompanhamento ao piano e sua voz poderosa são cânones que espelham nossas apreensões: sofremos como Adele, temos os mesmos medos que Adele e, como mostra 25, seu 3º álbum, crescemos como Adele.
Quem não sente, ao menos compreende. É por isso que é tão difícil não gostar de Adele, ou simplesmente ignorar o fato de que o transbordar de suas emoções é o transbordar de emoções dos mais de 30 milhões de fãs dispostos a comprar seu disco físico.
25 é dotado de um novo grau de experiência técnica que garante mais segurança à Adele ao personificar os estragos e as esperanças sentimentais de suas canções
Dito isso, cabe analisar: o que mudou de 21 para 25? Esteticamente nada – a britânica ainda está assegurada ao piano, aos arranjos orquestrados e ao elemento catártico da pausa e da explosão vocal.
Essa simbiose musical prevalece em cada uma das 11 canções do disco, por isso é natural encará-lo, à primeira vista, como repetitivo, mais do mesmo.
Realmente, 25 escapa de qualquer paradigma inovador tão benquisto por seus críticos mais vorazes. A explicação é plausível: Adele é uma artista de singles, mas, sobretudo, uma artista que foca seus esforços vocais num pop galvanizador cujo escopo remonta a milênios.
No século IV a.C. Aristóteles já assinalava a catarse como o opus da tragédia na ópera e no teatro: é quando o intérprete radicaliza sua performance num grau de purificação dos elementos básicos da tragédia, como a piedade, o temor ou até o entusiasmo.
O filósofo grego ainda menciona as ‘melodias sagradas’, que intensificam a catarse. Vale a pena citar o que o pensador escreve em Poética:
“Mas, sob a influência das melodias sagradas, quando sentiram os efeitos dessas melodias, vemos tais almas, que foram excitadas até ao delírio místico, restauradas, como se tivessem encontrado a cura e a purificação. O mesmo tratamento deve ser aplicado aos que estão inclinados para a piedade, para o terror ou outra paixão, bem como a todos os outros, desde que sejam suscetíveis de padecer tais paixões. Todos esses necessitam ser purificados de algum modo e suas almas necessitam ser aliviadas ou satisfeitas”.
Não seria, então, esse o ponto nevrálgico que faz com que “Hello” influencie tantas pessoas a ligar para o ex, quando ela canta, em “Hello”: ‘Olá do outro laaaaaadooooo/Pelo menos posso dizer que tenteeeeiiii’? Ou quando ela diz que ‘sinto falta de você quando as luzes se apagam’ em “Miss You”?
Tudo isso está em torno de uma estrutura que responde a introdução, ponte (ou pré-refrão) e o momento catártico do refrão.
O piano é o instrumento perfeito para fazer a conexão entre todas as estruturas, porque acompanha as modulações sentimentais de Adele e sinaliza o momento adequado para que a síncope da bateria ou as cordas dramáticas do violino reforcem e até clamem para que o canto de Adele atinja o ápice.
Isso acontece em diferentes graus – em “When We Were Young”, escrita com Tobias Jesso Jr., num piano que já foi de Philip Glass, o tom é mais ameno porque aquela lembrança traz um clima nostálgico que proporciona algo prazeroso.
“Sweetest Devotion” tem no nervosismo de experimentar um novo amor a combustão emocional que justifica as altas doses de excitação de Adele. Esse testemunho por parte do ouvinte chega a ser um acalanto. Ora, todos estão cansados de saber o quanto a cantora sofreu com as experiências do antigo namorado, tema que permeou todo o disco 21.
Em 25 existe um grau de superação, de maturidade das emoções de Adele. Existe, também, um novo grau de experiência técnica que garante mais segurança à britânica ao personificar os estragos e as esperanças sentimentais de suas canções. Ela está cantando melhor, mas talvez isso nem seja tão importante quando o grande conforto é saber que Adele pouco mudou de quatro anos pra cá. Alguém queria que fosse diferente?
Outros lançamentos relevantes:
• Ringo Deathstarr: Pure Mood (Club AC30)
• Food: This is Not a Miracle (ECM)
• Frabin: Real (Midsummer Madness)
• Vena Sekto: Vena Sekto (Independente)
