
Hoje é o Dia Internacional do Rock, data em que as mais diferentes ramificações dessa tribo se unem para celebrar o ritmo que mudou o comportamento dos jovens a partir da década de 1950 – e até hoje é tido como um dos ritmos mais influentes de todo o globo. Por isso mesmo, elaborei uma playlist de 20 canções que causaram estranhamento e furor. Nem todas são tão conhecidas, mas carregam em si o fator surpresa que marcou algumas das melhores canções do gênero.
Confira abaixo em ordem alfabética:
Captain Beefheart and His Magic Band: “Moonlight on Vermont”
Ano: 1969
Álbum: Trout Mask Replica
Instrumentos de corda entrando em colapso, vozes entrecortantes, solos de blues esvoaçantes e todo aquele grave imposto pela voz de Don Van Vliet (a.k.a. Captain Beefheart) formaram a estética de uma das canções mais estranhas do gênero. Musicalmente anárquica e esteticamente complexa, “Moonlight on Vermont” é um dos grandes clássicos do disco mais experimental de todos os tempos, segundo a Mojo Magazine.
Captain Beefheart and His Magic Band: “Moonlight on Vermont”
Chico Science & Nação Zumbi: “Sobremesa”
Ano: 1996
Álbum: Afrociberdelia
O manguebeat revolucionou a forma como o rock era produzido no Brasil e colocou em cena uma das regiões mais prolíficas da música brasileira: o Recife. Essa canção é bem viajandona e imagética, sugerindo objetos abstratos que flutuam em uma atmosfera sonora que jamais foi atingida novamente – nem mesmo pelos integrantes do Nação Zumbi de hoje.
Chico Science & Nação Zumbi: “Sobremesa”
Chuck Berry: “Too Much Monkey Business”
Ano: 1956
Álbum: After School Session
Uma das músicas de rock mais regravadas de que se tem notícia pode não ter causado estranhamento, mas coloca Chuck Berry em um degrau acima de Elvis Presley no quesito trejeito musical. Sem falar que seus solos eram estarrecedores em uma época em que o ritmo estava se gestando ainda, criando maturidade.
Chuck Berry: “Too Much Monkey Business”
David Bowie: “Young Americans”
Ano: 1975
Álbum: Young Americans
Cada álbum lançado era uma surpresa para os fãs de David Bowie. Em uma de suas melhores eras, o camaleão fez um casamento inconfundível entre rock e soul e R&B. “Young Americans”, além de ser um petardo de composição, encantou os ouvidos com aqueles instrumentos metálicos de fundo, sugerindo que o rock poderia seguir outros caminhos sem problemas (pelo menos para Bowie, né?)
David Bowie: “Young Americans”
Funkadelic: “Super Stupid”
Ano: 1971
Álbum: Maggot Brain
George Clinton era um inquieto músico que, por mais que estivesse colhendo bons frutos com o Parliament, se via criativamente restrito à gravadora. Por isso, fundou o Funkadelic como um laboratório experimental. O excelente guitarrista Eddie Hazel foi o parceiro triunfante nos esfuziantes solos de “Super Stupid” que, lógico, não vingou comercialmente.
Funkadelic: “Super Stupid”
Jefferson Airplane: “White Rabbit”
Ano: 1967
Álbum: Surrealistic Pillow
Citada na maioria das listas de publicações musicais como a canção mais drogada de todos os tempos, o Jefferson Airplane conseguiu se destacar naquela horda de grupos psicodélicos de 1967 pelas lisérgicas incursões flageladas. Em “White Rabbit”, os solos de guitarra foram suavizados para algo mais denso, refletindo o momento mais insano após o uso do LSD.
Jefferson Airplane: “White Rabbit”
Jimi Hendrix: “Machine Gun”
Ano: 1969
Álbum: Band of Gypsys
O rei da guitarra aqui se mostra capaz de se tornar a voz de uma geração somente com as cordas elétricas de sua Fender Statocraster. Ele fala com poucas palavras sobre o Vietnã, mas os solos evidenciam o medo e o terror dos americanos, temerosos de um dia serem escalados para a guerra.
Jimi Hendrix: “Machine Gun”
Os Mutantes: “A Minha Menina”
Ano: 1967
Álbum: Os Mutantes
Quem imaginaria que um dos grandes hits de Jorge Ben pudesse ser distorcido desta forma, sugerindo a deturpação e a ironia de um país viciado na onda da música de protesto da MPB? Transgressora até o fim, essa versão dos Mutantes se tornou uma das principais vozes da Tropicália e um dos rocks brazucas mais experimentais de que se tem notícia.
Os Mutantes: “A Minha Menina”
Pavement: “In the Mouth a Desert”
Ano: 1992
Álbum: Slanted & Enchanted
Enquanto o grunge fazia a cabeça dos jovens, os caras do Pavement sugeriram algo absolutamente o contrário: usar a música para algo mais reflexivo e, ao mesmo tempo, satírico. E aí nascia a indie music (que teve outros caminhos, infelizmente). As distorções lembram um pouco o looping do My Bloody Valentine, que impactou um ano antes, mas as composições confessionais de Stephen Malkmus são parte do grande charme que se tornou o Pavement.
Pavement: “In the Mouth a Desert”
Pink Floyd: “Bike”
Ano: 1967
Álbum: The Piper at the Gates of Dawn
A fase do Pink Floyd com Syd Barrett pode ter ficado ofuscada com o estouro de Dark Side of the Moon ou The Wall, mas colocou em cena o rock considerado progressivo, em sua estética mais espacial e ininteligível que possa se imaginar. Os efeitos de estúdio e as galinhas chocas só reforçam a estranheza da última faixa do disco.
Pink Floyd: “Bike”
Run DMC & Aerosmith: “Walk this Way”
Ano: 1986
Álbum: Raising Hell
Depois de muito sucesso nos anos 70, o Aerosmith enfrentava dificuldades para conquistar aquele público carente da década seguinte. O hip hop estava se gestando, e ninguém entendeu por que Run DMC sugeriu uma parceria como essa. O videoclipe estourou na televisão e ambos os públicos, hoje, podem dizer que um clássico nasceu desta união improvável.
Run DMC & Aerosmith: “Walk this Way”
Slayer & Ice-T: “Disorder”
Ano: 1993
Álbum: Judgement Night
A proposta da trilha sonora do filme de mesmo nome era mostrar como funcionaria a junção entre rock pesado e hip hop. O resultado causou um estranhamento danado: quem imaginaria o Ice-T adquirindo vocais guturais para entrar no mesmo clima do Slayer? É fúria total, sem precedentes!
Slayer & Ice-T: “Disorder”
Sly and Family Stone: “I Want to Take You Higher”
Ano: 1969
Álbum: Stand!
Sly Stone foi um dos principais músicos de funk de todos os tempos, mas essa canção dialoga muito bem com o rock lisérgico que estourava na década de 70. Dançante, envolvente e absurdamente sincrética devido aos órgãos Hammond e a profusão de instrumentos metálicos, “I Want to Take You Higher” já encantou muitas pistas e mostrou que os roqueiros brancos tinham muito – muito mesmo – a aprender com o funk para sobreviver.
Sly and Family Stone: “I Want to Take You Higher”
Television: “Marquee Moon”
Ano: 1977
Álbum: Marquee Moon
De todas as crias do punk rock, este é o maior exemplo de que virtuosismo estava sim absolutamente compatível com a expressão de liberdade, intrínseca ao movimento. Tom Verlaine foi genioso na composição deste solo encantador com toques de poeticidade. Os jovens podem ter estranhado e até associado às ‘chatices’ do rock progressivo, mas duvido que não se encantaram com esta beleza de canção.
Television: “Marquee Moon”
The Beach Boys: “Good Vibrations”
Ano: 1967
Álbum: Smiley Smile
Brian Wilson competia na genialidade de compositor de rock naquela época com Paul McCartney e John Lennon. E se saiu muito bem na maioria das vezes, gravando um épico repleto de truques vocais e experimentos em estúdio.
The Beach Boys: “Good Vibrations”
The Beatles: “A Day in the Life”
Ano: 1967
Álbum: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band
Até quem não gosta muito de Beatles tem que admitir que este é o ápice do gênio musical John Lennon. Talvez fosse a devida resposta a “Good Vibrations”. As emoções fluem naturalmente em uma visão cinematográfica refletida nos arranjos e nas diferentes tonalidades de voz de Lennon. Sem dúvidas, a maior contribuição musical dos Beatles está nesta canção.
The Beatles: “A Day in the Life”
Rolling Stones: “Sympathy for the Devil”
Ano: 1967
Álbum: Beggars Banquet
Dizem as más línguas que, em “Sympathy for the Devil”, Mick Jagger e Keith Richards estavam impressionados com a força das percussões nos candomblés de terreiro da Bahia quando vieram ao Brasil. Com riffs jogados em meio a muita obscuridade, essa faixa mostrou como os Rolling Stones poderiam se reinventar a todo o tempo.
The Rolling Stones: “Sympathy for the Devil”
The Stooges: “I Wanna Be Your Dog”
Ano: 1969
Álbum: The Stooges
Niilismo é o termo que define bem o início de carreira dos Stooges. Por que diabos um compositor diria que quer ser o cachorro de alguém em uma canção? ‘Come on!’. Não é à toa que se tornou uma das maiores referências para a gestação do punk rock sete anos depois. ‘Now I’m ready to close my mind’. É um artista sujo defendendo sua colocação na sarjeta.
The Stooges: “I Wanna Be Your Dog”
The United States of America: “Hard Coming Love”
Ano: 1968
Álbum: The United States of America
Acha que daria para fazer rock sem guitarra? Pois é, foi exatamente isso que esse grupo de rock experimental de Los Angeles conseguiu fazer, munido de muito órgão, sintetizadores, violinos elétricos, contrabaixo e o tal do harpsichord, usado no período Barroco. É bem estranho, mas envolvente.
The United States of America: “Hard Coming Love”
The Velvet Underground: “Heroin”
Ano: 1967
Álbum: The Velvet Underground and Nico
Repleto de intrigas não só pela imposição de Andy Warhol para que Nico integrasse o grupo, mas também com a quieta guerra de egos entre os gênios precoces Lou Reed e John Cale, The Velvet Underground and Nico conseguiu ultrapassar esses turbilhões e se tornou um dos maiores clássicos de rock de todos os tempos. E “Heroin” foi a faixa que quebrou barreiras por falar abertamente de drogas em uma sonoridade interpolada pelos violinos distorcidos e a guitarra crua. Classudo!
The Velvet Underground: “Heroin”
E aí, o que achou? Muito velhaca e antiquada?
