Gravadora: Quae
Data de Lançamento: 6 de agosto de 2018
Eu tenho um sonho. O sonho de ver o pop brasileiro a partir de suas próprias raízes culturais. Mais percussão, mais metais, mais letras que condizem com o que vemos (ou fingimos não ver) nas ruas.
Por um momento, vi o Cromossomo Africano representando a materialidade desse sonho. Em seu terceiro disco, o grupo formado por Michelle Oliveira (voz), Ricardo Cunha (guitarra e voz), Marcelo Kavalim (sax tenor, teclado e voz), Leonardo Brasilino (trombone), Alexandre Arnoni (bateria), Gláucio de Deus (contrabaixo), Léo Lana (percussão) e DJ Flávio Machado (toca-discos) reforça a versatilidade e a riqueza sonora das dezenas de elementos que formam a cultura brasileira.
Temos candomblé, black rio, jazz, soul, funk e uma grande preocupação com o que tem formado nosso estrato social.
Eutu Ubuntu é um ensaio sobre o significado de coletividade – algo já implícito no título, com o neologismo Eutu que, de acordo com a vocalista Michelle, representa “a junção do eu com o outro numa pessoa só”, mais Ubuntu, palavra africana de origem zulu que significa “sou porque todos nós somos”.
Mais uma vez Celson Ramos, que trabalhou no anterior Pangeia, assume a produção – ao lado do guitarrista Ricardo. O resultado é um afropop híbrido que vai muito além das raízes de Minas Gerais, de onde o grupo vem.
Cromossomo Africano: diversidade e consciência
A primeira faixa, “Ubuntu”, tem participação do grupo Tambor Mineiro e é um convite a uma discussão de forma leve e paciente sobre os vários problemas que configuram o coletivo brasileiro.
Com sampler inicial de Mano Brown, “Renovar” é um funk que fala sobre seguir em frente com calma e paciência.
O Cromossomo Africano se preocupa em criar um contexto para os temas que aborda, embora não rejeite fazer o caminho inverso. Em “Qual É”, Michelle resume a voz dos muitos machistas que realmente acreditam que as mulheres têm o mesmo espaço que os homens. Ela sustenta esse argumento ao longo da canção, até o finalzinho da canção, onde diz: ‘Eu posso ser quem eu quiser/Cale seu machismo e escute a mulher/Silêncio‘.
“Xampu” é outra canção de forte cunho sociopolítico. A música fala sobre o quanto manter a naturalidade do cabelo está ligada à valorização da raça negra: ‘Isso sempre foi imposto e ela está contrariada/Quero ver ela contente sendo crespa ou cacheada‘.
São inúmeros os exemplos de artistas e bandas que têm provocado uma conscientização do que representa diversidade em um país tão intolerante quanto o Brasil. Mas, no meio dessa cena positiva e efervescente, o Cromossomo Africano vem com o tom brando de um bom início de conversa, groove irresistível e originalidade pop acessível.
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