Gravadora: Sacred Bones
Data de Lançamento: 8 de setembro de 2017
Avaliação: 7/10
Olhe bem para a máscara que estampa Okovi, 6º disco de Zola Jesus. Ela tem algo de obscuro, de opressor, associação que se fortalece à medida que se analisa a expressão da mulher por trás dessa máscara. A primeira vez que vi esta capa pensei que estaria diante de um disco que expeliria demônios por meio do sofrimento. Mas, não se trata disso.
Eletrônico, gótico e pungente
De fato, Okovi é um disco violento (não daria para esperar coisa diferente de um título cujo termo, em eslavo, significa grilhões).
Lida diretamente com a repressão, mas não de forma submissa. Em “Exhumed”, single que a cantora disse ter concluído após dois anos de bloqueio criativo, um tipo de batimento espartano cria uma sensação de pungência. Nela, Zola supõe observar o sangue no campo de batalha – de modo figurativo, claro. ‘Não deixe que isso te coloque pra baixo’, aconselha, mas num tom distante da serenidade.
A cantora do Arizona (EUA) de origem russa disse à revista The Fader que estava com muita raiva antes de compor “Exhumed”.
Mesmo dentro do que muitos consideram eletrônico-gótico, a característica de Zola Jesus costumava perpassar por algo mais atmosférico. Entretanto, após os ecos de “Doma”, o que surgem são pancadas. Ainda assim, nada do que se esperaria de uma cantora que se diz influenciada por Diamanda Galás e Swans.
“Soak”, por exemplo, tá mais para um mix de Ute Lemper e Depeche Mode, só que com inevitável appeal pop. Em via contrária, “Veka” inicia com uma linha obscura, como se colocasse o ouvinte dentro de um labirinto, até que o cenário se desenha a partir de synths oitentistas, batidas monocromáticas (que simulam algo cardíaco, demasiado humano) e um questionamento sobre o que somos no tempo-espaço – afinal, veka, em russo, significa século.
Inquietude pessoal e social
Muitas das ideias das canções mais marcantes de Okovi surgiram de interlúdios. Este é um método de composição salutar para quem combina canto gregoriano com temas pulsantes e criativos.
Mas, se for encarado como uma peça pop, Okovi pode despertar conclusões precipitadas. Não se trata de um disco baseado no formato canção – embora tenha grandes canções, a exemplo das mencionadas “Exhumed” e “Veka”.
Okovi é um disco sobre a inquietude, seja ela pessoal ou social. Em “Wiseblood”, por exemplo, ela sugere uma autorreflexão para aprendermos com aquilo que nos cerca, no melhor estilo Björk à lá Biophilia (2011).
Já em “Remains”, o que se tem é a pressão de todo o ambiente destrutivo lá fora querendo nos destruir por dentro. ‘O que sobra da gente?’, questiona Zola, num techno-industrial em crescendo a ponto de estourar. Sonoramente, poderia ser uma catarse, mas não dá pra pensar em algo positivo quando ela pinta um cenário em que ‘tento me abrir, mas não consigo achar nada’.
Então, percebe-se o que realmente tá imposto na capa de Okovi: não é medo; é receio. Um receio que muitos de seus ouvintes devem compartilhar ao vislumbrar a situação das coisas ao redor, esteja onde estiver.
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