Gravadora: Def Jam
Data de Lançamento: 30 de junho de 2015

Das coisas que imaginamos começar com um tiro: guerras, revoluções, brigas de bar. O que já sabemos que inicia com disparo: discos de rap.

De Notorious B.I.G. a Racionais, a lista também inclui o primeiro disco de fato de Vince Staples. Tanto a primeira como a segunda parte de Summertime ’06 recorrem a esse tipo de impacto. Partindo da lógica que define Vince como o “rapper do momento”, dar importância a um tiro é dar corda a uma questiúncula – mas é a análise das questiúnculas que podem separá-lo do que é ou não banal. Não, este não é o caso de Summertime’ 06. Por outro lado, a estreia do rapper não é tão magnificente quanto se propaga.

A moderação enérgica é um dos principais atrativos de Summertime ’06. O que estraga, porém, é o excesso de moderação. Para um disco duplo, com 20 canções, poucas valem adjetivos positivos.

O primeiro disco é tão incisivo quanto se viu na mixtape Hell Can Wait (2014). Quanto ao disco 2, infelizmente há muito a se descartar

Vince tenta nos entregar um Aquemini (1998), mas nem chega perto de um The College Dropout (2004) – dono de uma superestimação sem precedentes.

Com apenas 21 anos, Vince traz de berço o que nós, críticos, entendemos como dinâmica musical. O cosmic-rap de “Dopeman”, por exemplo, nos dá uma dúbia percepção sobre Vince: ao mesmo tempo que parece um pimpão ao lado das minas, soa como o camarada legal com os parças Kilo Kish e Joey Fatts, que poderíamos encontrar nas noitadas – e isso tem tudo a ver com drogas e chapação.

Também com participação de Kilo Kish, “Surf” é a escalada que passa por Snoop Dogg (pela tentativa de sedução) e Azealia Banks (devido à ressignificação do que o pop tem feito a partir da música africana).

Há muito a se descartar em Summertime’ 06, especialmente no disco 2. “Might Be Wrong” consegue ser ainda pior que as tentativas pop de The Weeknd; “Get Paid” é a inevitável “Mamacita”, capaz de manchar qualquer disco considerado acima da média. “C.N.B.” é imbuído da inocência de quem almeja o status de West após My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), apesar do interessante lado Killah Priest também perdurar na canção.

O primeiro disco é tão incisivo quanto se viu em Hell Can Wait (2014). “Lift Me Up” cativa a atenção de imediato pelo repetitivo refrão que se apoia no tempo retraído, tal qual Earl Sweatshirt.

Onde se faz comparação com Earl, por sinal, é onde percebemos que Vince mantém melhor domínio de suas rimas. “Birds & Bees” tem a aura psych-rap de Ka e a compreensão da difícil situação que é viver com o pior nas ruas de um The Chronic (1992). Summertime ’06 infelizmente não devolve a parceria indefectível ao amigo de “Wool”, mas acerta ao optar por explorar tempos percussivos quentes em atmosferas frias, como em “Jump Off The Roof” (com Snoh Aalegra) e “Lemme Know” (com  Jhené Aiko & DJ Dahi).

Ao ouvir o disco como um todo, soa estranha a escolha de “Señorita” como single, pela estrutura. O time, no entanto, justifica: a produção de Christian Rich (o mesmo de “Burgundy”, de Earl, e “Sparks Will Fly”, de J Cole) favorece a entrada de Future, Elijah Blake e, claro, Vince, que bem poderia ter chamado Riko Dan para dar mais peso à melancolia do piano que, mais uma vez, remonta a My Beautiful Dark Twisted Fantasy.