Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 23 de março de 2016
O piauiense Valciãn Calixto teve que usar uma interjeição para definir sua estreia: Foda!.
Porque, segundo ele, “resume toda a evolução e batalha de um compositor piauiense para colocar sua música no cenário musical independente do Brasil, de alguém que cresceu em meio a um abismo cultural sem medida em Teresina no Piauí e que, do fundo do abismo, ensaia um salto com esse disco”.
Se tem uma coisa que Valciãn não consegue neste disco é revelar quem realmente é enquanto artista. Foda!, apesar de se destacar como “lamuriento”, tem bastante distorção estética, algo que a primeira canção, “Agarrado à Minha Frustração”, já mostra: um rock que bagunça sintetizadores de axé e se entrega à sujeira das guitarras.
Em “Cerimonialista”, dá a impressão de se ouvir lasers disparados, enquanto ele lamenta a história do ‘amigo que até viado é’: ‘Mas eu preciso entender/Como seu silêncio tem ajudado/A denunciar as agressões/Que você sofre com os que estão do seu lado?’.
Valciãn, neste caso, é narrador. E, por valorizar isso, ele dá voz a outros possíveis personagens de sua epopeia em busca de histórias desvalorizadas que revelam um Brasil oculto, à margem.
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Foda! não deixa de refletir o calor do momento, em que as posições políticas se sobrepõem às amizades. Isso nos leva a uma pergunta: será que o respeito esteve de fora em nossas relações sociais?
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Em “Sobre Meninas e Porcos”, por exemplo, ele dá voz à Eryka Alcântara, que conta em primeira pessoa como foi abusada por um tio que ‘confiou no seu prestígio com os adultos lá de casa’. Então, ela muda o comportamento, corta os cabelos e passa a se questionar: ‘Se meu pai fosse vivo nada disso teria acontecido’. Não é uma história com final feliz, mas mostra como uma mulher criou rejeição ao homem, por achar que ‘qualquer garoto fosse incapaz de me compreender’. Um relato emocionante, onde há muito a se aprender.
Foda! recorre ao spoken-word novamente em “Núcleos de Um Romance Engavetado”, colocando vários narradores relatando histórias que envolvem problemas como dislexia, rejeição, bullying e a hipocrisia que ronda a família.
A assimilação das autocríticas não deixa de ser uma particularidade muito positiva do artista. Claro exemplo disso é “Teoria do Abacaxi”, em que diz ‘não me falta defeito’ em meio a riffs que têm lá sua proximidade com o metal.
Embora faça uso de ritmos repletos de swing, como frevo e jazz, em “Marcha – Ranço” o compositor fala de amarguras e de abandonar o convívio em sociedade. Não deixa de refletir o calor do momento, em que as posições políticas se sobrepõem às amizades. Isso nos leva a uma pergunta: será que o respeito esteve de fora em nossas relações sociais? Até quando a posição do outro afeta o que penso dele?
A urgência de Foda! condiz muito bem com a forma que ele foi produzido: segundo Valciãn, o irmão dele, Marciano Calixto, gravou as baterias sem pré-produção, “em pouquíssimo tempo”, além de dar cabo de todos os instrumentos harmônicos: baixo, guitarras, sintetizadores, teclados e violão.
O timing não poderia ser melhor: que outra interjeição teríamos para tempos como este?
