Gravadora: Drag City
Data de Lançamento: 26 de agosto de 2014

Manipulator é o aviso final de Ty Segall: ‘prestem atenção em mim’. Um aviso urgente, seguindo a premissa da faixa “The Singer”, ‘cante alto!’, enveredando por um rock moderado em seus padrões até incluir um solo torto de blues.

“The Singer” pode ser moderado; Manipulator, como um todo, está bem longe disso. Começa arrebatador com a faixa-título, que nos remete a um The Who circa The Quick One (1966) realocado após o final da década de 1960.

“Tall Man, Skinny Lady” é stoner-rock em padrões que diferem do que acostumamos ao modo Josh Homme. Segall apoia-se em violão cortinado de solos flamejantes de guitarra, soando tão vigoroso quanto o subgênero pede.

“It’s Over” é aquela música potente de um grupo que pode se chamar de grandioso. Perfeita pro pogo, pra ouvir alto em um palco com mais caixas do que espaço vago. Riffs ardentes, vocais arrasando como trator e eis Ty Segall em um dos melhores momentos no álbum.

Quem já ouviu alguma pedreira de Segall sabe que ele seria capaz de gravar um disco só com músicas pesadas, em que a guitarra protagoniza sucessões fritadas e ininterruptas.

Inquieto que é, o multi-instrumentista, que já gravou oito álbuns, trouxe elementos considerados ‘externos’ ao garage-rock em seu método de compor. O formato ficou redondo em Sleeper (2013). Manipulator segue a cartilha, com o adendo de ser mais grudento aos ouvidos ardilosos que vibram com riffs sórdidos e vocais desleixados.

Se encararmos Manipulator como uma obra essencialmente de garage-rock, entusiastas podem brochar com o avançar do long play. Ele abaixa um pouco a bola na tríade “Feel”, “The Faker” e “The Clock”, e isso é bom, porque nos permite ter contato com a rica confluência de sua música, que também abarca traços de rock sulista, folk-rock, o citado stoner-rock…

“Mister Main” também segue a mesma linha. Se por um lado diminui a tensão, por outro mostra o compositor desenvolvendo um estilo mais ousado, flertando com a no-wave e deteriorando o que alguns classificariam como ‘pegada indie’.

De tudo que se pode extrair de Manipulator, um dos aspectos mais interessantes é o domínio do violão. Qualquer roqueiro brasileiro tiraria uma partitura de “The Hand”, mas Ty Segall a bagunça com inserções abruptas de guitarras dopadas, criando uma espécie de hit acústico-subversivo.

“Green Belly” nos faz imaginar como seria se Marc Bolan reencarnasse e voltasse com o T. Rex.

“Don’t You Want to Know (Sue)?” tem um tiquinho de Neil Young da interessante fase solo.

Além das guitarras, que contêm o principal elemento estourado em Manipulator, teclados e sintetizadores somam à massa barulhenta e vigorosa do compositor. “The Crawler” é um desses exemplos. Atrai pela testosterona. Não ouvir alto é um desperdício.

A previsão que se faz é que muitos discos de Segall, daqui pra frente, tenham característica parecida com Manipulator. Pelas direções tomadas, o disco torna-se vitrine mais que essencial para quem ainda não acompanha o que esse jovem e talentoso rapaz de São Francisco (EUA) tem feito nos últimos seis anos.

Seja stoner, south-rock, garage, stadium, foda-se os rótulos, na mão de Segall tudo isso aí tem motivos de sobra para continuar instigando a velha e a nova geração.