Gravadora: Independente
Data de Lançamento: janeiro de 2014

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Termos como integralista e protestante irremediavelmente estão interligados a um tipo de pensamento de esquerda.

Questões ideológicas à parte, essas teorias se aplicam em um rumo progressista quando se fala na América Latina como um todo.

Como bem denunciou o escritor uruguaio Eduardo Galeano na obra-prima As Veias Abertas da América Latina, a forma exploratória com que os impérios europeus trataram os países de cá reflete no subdesenvolvimento de hoje (hoje, infelizmente, porque por mais que o livro tenha sido escrito nos anos 1970, pouca coisa mudou até então).

Mas, não é só isso. Nossas reações sobre anos de improbidade administrativa, pelo menos no Brasil, têm mudado. Prova disso é o levante de junho de 2013 em diversas capitais brasileiras.

Galeano pode ter sugerido um novo contexto para sua obra-prima, mas permanece influente no pensamento contemporâneo. Comprova isso o surgimento do projeto Trummer Super Sub América, idealizado pelo líder da Banda Eddie, Fábio Trummer, com o baixista Luca Bori e o baterista Dieguito Reis, ambos da banda Vivendo do Ócio.

Eles colocam o pensamento de Galeano em “Medo da Rua”, provavelmente uma das melhores letras do pós-junho de 2013. ‘Tu tá com medo da rua/E tudo o mais que possa acontecer’, detrata Fabio. ‘Supere-se criatura/Assuma o risco que existe em você/Faça da sua armadura/A insustentável leveza do ser’.

No disco, uma constatação é bem relevante: o aspecto sociopolítico também infere no sentimento do homem. ‘Da necessidade eu caio no apavoramento/Emendando pensamentos sem atenção/Certeiro’, diz a letra de “Ardendo em Chances”, sob a perda de controle, o ‘exílio’ próprio diante da vontade de lutar.

De tanto que se repercutiu sobre as passeatas que se desdobram desde o ano passado no País, há de se esperar que algum músico dedique seu lápis só a isso. Não é o que o Trummer Super Sub América faz.

Quando contextualiza a ‘bomba que desmantelou Recife’ em “De Olinda ao Mississipi”, conecta diferentes movimentações que não necessariamente tenham a ver com o que aconteceu por aqui. ‘Povo pobre em combustão com uma pedra na mão’ tem em todos os lugares, ainda mais que os nomeados na canção.

Se fosse para dar um único sentido a Trummer Super Sub América, diria que é um disco de olhar otimista e humanista sobre a vontade e necessidade de lutar. (Para cada suor respingado, há de se pensar no acalanto de “Eu Tenho Fé”, ‘iluminando com esses olhos todo o horizonte lindo’.)

O disco acerta em supor as possíveis consequências dessa luta. Em “Sindicato Natural”, aponta de forma subjetiva um possível revés da natureza.

O rock flamejante de “Descompasso”, originalmente escrita por Trummer em parceria com integrantes do Nação Zumbi para o projeto 3naMassa, não soa nada desencaixada. Pode ser interpretada como desequilíbrio emocional, algo praticamente inevitável nas relações humanas.

“The End”, por outro lado, é o novo recomeço após a dura batalha. E pode-se imaginar um cenário com manifestantes ao lado também se abraçando forte.

A identificação por nós, brasileiros, com as composições de Trummer Super Sub América é imediata. Mas paira um sentimento de incerteza quando ouvimos a primeira canção, “SAS (Salve a América do Sul”). Porque não temos o costume de ver o Brasil como um país inserido em um continente; costumamos tratá-lo como nosso, único, parcialmente potente, gigante, sempre protagonista quando o assunto é regional.

Não há panfletarismo algum na canção, mas há de se pensar no ‘comportamento trágico’ de nossa parte em preferir ignorar que cogitar a possibilidade de reconhecer econômica, política e culturalmente nossos vizinhos. ‘Esse amargo que se fez/Do estupro que sofreu’ dos colonialistas criou uma separação que não deveria existir.

Infelizmente, não aprendemos Galeano nos ensinos fundamental e médio, o que nos distancia ainda mais de um contexto continental.

Trummer Super Sub América não tem compromisso de estreitar tal distância, mas nos coloca emocionalmente em um mesmo patamar dos demais hermanos. Sofremos com o descaso dos países desenvolvidos, temos manchas não apagadas de ditaduras militares e motivos não nos faltam para protestar. Por isso, gritemos: ‘Americanos, uni-vos!’.