Gravadora: ANTI-

O melhor não é saber que Tom Waits está de volta; surpreendente mesmo é comprovar que não precisamos buscar argumentos lá do fundo do poço para dizer que Bad as Me é um dos melhores trabalhos do bardo em anos, quiçá o melhor de sua carreira desde o obscuro e genuíno Mule Variations, de 1999.

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Aos 61 anos, sua voz continua rasgada por um Bourbon barato para falar dos temas do século XXI, sob a ótica de um personagem que está aos frangalhos após guerras incontáveis de seu país, a crise em Wall Street, multidões gritando ao mesmo tempo sobre os rumos incertos de vidas erráticas. Todos nós temos um lado mau, que ganha forças para prevalecer sobre a bondade cristã que muitos de nós gostaríamos de ter.

Por isso, soa natural quando Waits canta exasperadamente que devemos nos perder em “Get Lost”, saindo de um pouco de sua zona anárquica dentro do folk-experimental ao buscar uma dança impossível de ser executada. Há ligeireza nos riffs de uma guitarra bagunçadamente empunhada por Waits, enquanto o guitarrista Marc Ribot, eterno parceiro do vocalista, injeta solos blueseiros como se tivesse colocando ainda mais lenha em uma chama bem perigosa.

Tom Waits também faz questão de deixar-se levar pelas emoções que pululam à flor da pele ao forjar-se como um viajante que se perde a cada destino alcançado (“Pay Me”) ou ao despir-se como um amante que não quer mais ser tomado como estúpido na linda balada country de “Back in the Crowd”: ‘ponha o sol atrás das nuvens/e me coloque de volta à multidão’.

“Bad as Me”

Outra balada bonita, por sinal, é o dueto que ele faz com Keith Richards em “Last Leaf”. O guitarrista dos Rolling Stones, além de dividir os vocais e tocar violão, contribui com as guitarras de “Chicago” e “Hell Broke Luce”. Outro colaborador de presença em Bad as Me é o baixista Flea (Red Hot Chili Peppers), que também toca em “Hell Broke Luce” e “Raised Right Men”.

Na faixa-título, vemos o quanto Tom Waits ainda é capaz de nos surpreender: ele trabalha diversas tonalidades vocais ao interpretar um bêbado excêntrico que, provavelmente, poderia estar de encontro com um sóbrio que ainda não encontrou suas respostas no balcão de um boteco barato. Waits também interpreta vocais diabólicos, sempre exaltando as negatividades – adjetivo este que, felizmente, passa longe da qualidade do álbum Bad as Me.

Melhores Faixas: “Chicago”, “Get Lost”, “Pay Me”, “Back in the Crowd”, ‘Bad as Me”, “Hell Broke Luce”.