Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 8 de abril de 2016
A repetição é um fator indissociável da música eletrônica. Mesmo em sua pré-história nos anos 1950 e 60, quando Stockhausen e Beaver & Krause eliminaram padrões estéticos em suas explorações com os sintetizadores Moog, chegando ao que conhecemos como avant-garde, o elemento da repetição era implícito; se não se manifestasse na sucessão de acordes, tinha como ‘conforto’, ‘pano de fundo’ os drones – um som permanente que indicava vida, respiração, continuum.
Meio século depois a tecnologia mostrou outras formas e sentidos sônicos para a eletrônica, com ênfase aos programas digitais, que facilitaram e, segundo alguns, até democratizaram o acesso às plataformas composicionais.
Este contexto é indelével na música de Tim Hecker, mas talvez ele pouco se importe. Tanto que em Love Streams ele salta uns seis séculos de transição ao citar como influências os coros de música clássica do século XV e um momento pós-Yeezus (2013).
No seu oitavo álbum solo, o canadense estruturou uma progressão isolacionista. As repetições formam a base que serve como uma linha de tempo paralela aos eventos associados à ‘evolução da música’.
O clima gélido e sombrio, típico do post-rock islandês, é emoldurado pelo Icelandic Choir Ensemble, do compositor Jóhann Jóhansson. Isso permite uma miscelânea tida como ‘naturalizada’ na música de Hecker: em “Black Phase”, alterna curtos fragmentos de coros com drones, enquanto “Music of The Air” parece alinhar o volume de instrumentos da música de câmara no modus operandi repetitivo da eletrônica.
Ao contrário do anterior Virgins (2013), calcado no minimalismo de Steve Reich enquanto som, Love Streams é um abraço aos excessos.
O power-ambient de Ben Frost e as saturações arrancadas de Garden of Delete (2015), de Oneohtrix Point Never, também servem de pontos de partida nas explorações do disco. Em “Live Leak Instrumental”, por exemplo, aquele som de selva escondida dos discos de eletrônica dos anos 1980 são revisitados por synths fantasmagóricos, que se estendem às seguintes “Violet Monumental I” e “Violet Monumental II”.
Um dos principais atrativos de Love Streams é sua coesão. O álbum avança como um trem-bala em alta velocidade, tornando a permanência visual das paisagens por onde passa um lapso memorial.
Ao ouvir Tim Hecker, não é preciso ter ciência da interação social de Charles Ives na música experimental, não é preciso saber como John Cage contribuiu para os primeiros capítulos da eletrônica com Imaginary Landscape, talvez não seja nem necessário contextualizar a predominância do auto-tune.
Love Streams é uma passagem, um borrão. Diz muita coisa a capa ter um fundo roxo, ligado à espiritualidade e, ao mesmo tempo, à libertação de inquietações. Com sabedoria, Tim Hecker soube ser profundo e transitivo.
