Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2014

Thiago Pethit chegou onde queria com classe. Para buscar a essência roqueira de Lou Reed, David Bowie e todo o ideal glam-rock, convidou o ator e modelo americano Joe Dallesandro para abrir os trabalhos de Rock’N Roll Sugar Darling. Dallesandro é conhecido por ter sido um dos bel-prazers das telas de Andy Warhol, além de ser o personagem que inspirou o clássico “Walk on the Wild Side”, clássico de Transformer (1972).

Sujo e distorcido, o terceiro disco do compositor é leitura própria do que deveria ser a essência do rock. Se soa incômodo ao ouvinte o fato de ele chamar para ‘chupar meu rock’n roll’ na faixa-título, a provocação é intencional: “O rock é a coisa mais machista, branca, misógina, heterossexual e de direita hoje, por incrível que pareça”, disse o cantor em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. “Fiz o disco pra receber garrafada desse mundo”.

Rock’N Roll Sugar Darling tem como ponto forte a atitude de bater de frente com paradigmas sexistas e comportamentais, algo que o rock nacional não assimilou com agressividade desde os anos 1980 (a não ser no reduto punk). A sutileza das críticas sociais ficou tão incrustada no gene da música brasileira que, com exceção o rap, há poucas formas de protestos sociais tão latentes quanto essa ousada empreitada.

Thiago crava sua ira na preconceituosa sociedade em que vivemos, usando o gênero do rock como cartilha e contravenção aos padrões que criticou em sua declaração.

Ele é formado em artes cênicas, portanto o peso de sua obra musical cai na interpretação. Não importa se vai nos moldes dos grupos indie britânicos em “Save the Last Dance” ou na clara reverência aos Stooges em “Quero Ser Seu Cão”, Thiago dosa o peso na expressão corporal, algo que o ouvinte capta nas primeiras audições. Ser único, nesse aspecto, é uma das mais admiráveis de suas contribuições, principalmente quando se tem em conta a diversidade de seu curto legado: Berlim, Texas, de 2010, é acústico e intimista; Estrela Decadente, de 2012, brinca com diversos estados de espírito, passeando como voyeur por gêneros musicais.

Afora o contexto, Rock’ N Roll… nada oferece de inovador na seara do gênero. Um pouco de New York Dolls, a ousadia de Ziggy Stardust e as provocações de Lou Reed, pronto, você já decifrou o que Thiago tem a oferecer.

“Honey Bi” é fraca, soa como zoeira boba de adolescente pelo refrão pouco convincente: ‘Se você quer meu mel/Se esqueça de ir pro céu’. A faixa-título tem solos flamejantes de Pedro Penna, sobrepostos às esfumaçadas programações de Adriano Cintra; não fosse isso, soaria tão piegas quanto assistirmos a uma Xuxa revoltada nas telinhas.

Por depender da essência transgressora, Rock’ N Roll cai na amarra de transgredir onde não deveria. Algumas letras são descartáveis, o que reforça a seguinte contradição: as melhores faixas do disco são as que Thiago não confronta (ou esbarra?) diretamente o(s) alvo(s). Ao lado de Hélio Flanders, chega ao auge como compositor em “Romeo”: ‘Sou tua fumaça/E eu não sei pedir que queime devagar/Mas eu sei muito bem aonde quero chegar’. “De Trago em Trago” traveste a decadência com mais eficácia que as forçadas tentativas de soar roqueiro ao longo do disco. “1992” ensaia bem a roupagem pós-punk, mas escorrega em táticas manjadas de sedução; os ‘Come on/Come on/Come on’ são tão rebarbativos quanto aquele colega incômodo que insiste em te arrastar pra fazer algo idiota.

Thiago Pethit está certo em apontar os detratores maniqueístas que hoje defendem o rock como se fossem seus bagos. Rock’ N Roll Sugar Darling é prova parcial de que o gênero não é propriedade de antiquados, pelo contrário, é um campo aberto que aloca tudo quanto é tipo de expressão revoltosa. Sua causa, obviamente, é legítima. Isso não quer dizer, porém, que os que concordam com sua declaração automaticamente se disponham a gostar do disco. Encará-lo assim também é maniqueísmo.