01 A Tooth For An Eye 02 Full of Fire 03 A Cherry on Top 04 Without You My Life Would Be Boring 05 Wrap Your Arms Around Me 06 Crake 07 Old Dreams Waiting to Be Realized 08 Raging Lung 09 Networking 10 Oryx 11 Stay Out Here 12 Fracking Fluid Injection

13 Ready To Lose

Gravadora: Rabid

Shaking the Habitual é o álbum mais errático de 2013. Pelo menos, até agora. Não há linearidade, tampouco preocupação com o ouvinte neste quarto disco do duo sueco The Knife.

“A Tooth For An Eye” e “Full of Fire”, que abrem o disco, podem ser consideradas as faixas mais portentosas daqui. A primeira fala de vãos desejos interpretados como homossexualismo, perversão ou promiscuidade com batidas entrecortadas por percussões. A faixa encerra: ‘Desenhando linhas com uma régua/Traga o combustível para o fogo’ – a deixa perfeita para o flamejar sedutor de “Full of Fire”, canção que também agregaria adjetivos como grudenta, esquisita, catártica.

“Full of Fire”, com seus 9 minutos recheados de batidas estridentes que jogam num ventilador acid house, dubstep, vocoder e sci-fi, retrata as impulsões de alguém que prefere dar vazão à dúvida sexual, ao invés de assumir que é hetero ou homossexual. ‘Liberais estão me dando uma coceira nervosa’, repete o vocal atônito.

Reconhecendo a chama do desejo, vem a pergunta inevitável: ‘Quando você está cheio de fogo/Qual é o objeto do seu desejo?’. Pau ou boceta? Homem ou mulher? ‘Vamos falar sobre gêneros, baby/Vamos falar sobre você e eu’.

As batidas intensas e transgressoras sugerem mais repetição para as próximas músicas, e é aí que o Knife parece tomar um caminho errático. “A Cherry On Top” é um drone, quase um post-rock. Agora, analisando a quebra de tabus já gerada nas duas grandes canções do álbum, a breve ‘pausa’ de oito minutos desta faixa revela que Shaking the Habitual tem um compromisso maior com os sentidos de quem ouve do que com a possibilidade de agradar ou não. Afinal, sentidos são incontroláveis. E, claro, podem ser erráticos.

Entra “Without You My Life Would Be Boring”, e logo o fervor de nossos sentidos é acionado novamente. Vocais meio Lady Leshurr são jogados numa intempérie de flautas orientais, percussões ágeis, gritos, sussurros, barulhos de bichos, selvas… Elementos e lugares desconexos formam uma fuzarca que impede a chegada do tédio.

Partindo para uma linha mais experimental – uma espécie de Björk-meets-Sunn o))) -, “Wrap Your Arms Around Me” exibe um Knife enrijecido. É um fechamento natural, mostrando que a abertura e indagação inicial das duas primeiras músicas são impulsos. Impulsos necessários, polêmicos e esmagadores que, ainda assim, não escondem a fragilidade de quem os profere.

Tal fragilidade é exposta cruamente em mais de 19 minutos. Sim, “Old Dreams Waiting to Be Realized” é longa, exaustiva e, a não ser que você queira buscar o verdadeiro sentido do disco, pode ser totalmente descartável. Um pouco desse clima é retomado em “Fracking Fluid Injection”. (No momento que escrevo esta resenha, posso dizer que ultrapassei duas dezenas de audições do disco completo. Continuo não pulando as canções enquanto o disco roda.)

Após a longa travessia, a banda responde com mais uma canção com força pra ser clássica: “Raging Lung”. Ao invés da sexualidade, o Knife nos transporta para a velhice, usando artifício de sua maior virtude: a sabedoria ao abordar rapidamente sobre a ‘loteria’ da vida, ‘pobrezas lucrativas’ e ‘algo no sistema que continua circulando’ a partir de alguém que vivenciou tudo isso. Apesar de difusa, a canção tenta exemplificar a vida de um idoso momentos após um transplante, e logo estamos submetidos a barulhos de serras, placas tectônicas. E entendemos que a batida repetitiva ao fundo representa o respiro. O sussurro é como a voz do pensamento. ‘E é quando dói/Quando você vê a diferença’. (Eis uma das canções mais lindas da carreira do Knife.)

O eletrônico pelo eletrônico mesmo funciona em “Networking”, um techno que, isoladamente, encaixa-se muito bem nas pistas. “Stay Out Here” parece querer ir de encontro com a batida de um Rustie, e logo a repetição vocal entra na esfera errática que permeia o disco.

Então, partimos para o substancial. Uma vez aguçado os sentidos no meio desse caminho todo, nada mais natural que entreguemos a ele o direito de resposta.

A trajetória de Shaking the Habitual até “Stay Out Here” adquire um significado mais abstrato e complexo – assim, o que poderia ser uma canção superficial de música eletrônica transfigura-se numa legítima manifestação de sentidos. Sentidos extremados, talvez injustificáveis.

Caso delineássemos um gráfico para o que seria o disco, diríamos que ele despencaria vertiginosamente em “Ready To Lose”, faixa de encerramento. O que era desejo, virou medo e insegurança. Como a tendência de se expor ao defeito é mais tímida, a canção tem pouco mais de 4 minutos – praticamente uma anomalia para um disco de 13 músicas com quase 1h40min de duração. A diminuição de testosterona não representa bem uma queda ruim; quando eles dizem ‘pronto para perder um privilégio’, estão diante do momento chacal de tomar uma decisão única e definitiva. Estão diante de uma encruzilhada, e devem escolher um lado (aí, o impulso já não é permitido).

Em “Ready To Lose”, o Knife fala em perder uma espécie de ‘aura’, ou a curiosidade ingênua da juventude. O duo não deixa de criar um espectro soturno para encarar de outra forma o inevitável: a maturidade.

Ao longo de Shaking the Habitual, eles dão pistas nada óbvias de como é o avançar da idade. Mas, no espectro da sexualidade, não há como responder com objetividade as perguntas nada óbvias apontadas no disco.

Melhores Faixas: “A Tooth For An Eye”, “Full of Fire”, “Wrap Your Arms Around Me”, “Raging Lung”, “Stay Out Here”.