Gravadora: Domino
Data de Lançamento:
3 de junho de 2016

O The Kills não lançava um disco novo havia cinco anos (o último, Blood Pressures, foi considerado um dos melhores de 2011). Entretanto, o grupo de Alison Mosshart e Jamie Hince não fez tanta falta assim.

Não é por falta de qualidade; é que simplesmente o rock de garagem capta a inovação de forma diferente, principalmente nos dias de hoje. A bem da verdade, as pessoas preferem continuar ouvindo os discos do Fugazi e do Black Flag – quando o caso é algo com vocais femininos e uma pegada eletrificada, lembram-se mais de The Distillers ou Garbage.

Com o quinto álbum, Ash & Ice, o duo não deve mudar isso – o que não quer dizer que não esteja evoluindo de alguma forma.

O fato de ter mais de 50 minutos de duração e 13 faixas (o mais longo que eles já lançaram) permitiu ao The Kills melhor trânsito por acordes e por formas de testar as canções.

Risco assumido, claro, conforto exaurido: há algumas faixas que não permanecerão tanto na memória dos ouvintes, como “Hard Habit to Break”, um indie-rock fustigado pelo mau encaixe das rimas.

Entretanto, o apego à submissão de “Heart of a Dog”, no esquema pop mesmo, subverte a forma com que amor e companheirismo são vistos no dia de hoje. O clipe oficial, que mostra tanto Alison quanto Jamie dividindo o cotidiano com filtros à lá Instagram, dá a entender que o que as pessoas que veem de fora encaram como submissão, para eles, é a prerrogativa do companheirismo. “Assim que você descobre que pode se tornar o mais próximo possível da pessoa, mas nunca poderá ser namorado dela, ou nunca não ser amigos… Você sabe que neste ponto simplesmente funciona”, explicou Jamie ao The Line of Best Fit. É assim, uma grande lição de amizade mesmo. “Por causa disso, o The Kills funciona”.

Crítica: The Dead Weather | Dodge and Burn

Entender essa relação torna a deglutição de Ash & Ice justificável por si só. Embora Alison e Jamie se assumam completamente diferentes, na música a aproximação é que torna o grupo idôneo.

Não importa o que Alison faça com o Dead Weather – ou o real impacto de Jamie ter machucado os dedos, motivo pelo qual a banda ficou cinco anos sem lançar nada. O Kills mostra que é bem mais que uma banda de garagem quando, em “Bitter Fruit”, deixa que os efeitos dissolvam o que poderia ser um dueto.

Em “Days of Why and How” eles mostram que o R&B também é levado em consideração – embora a canção lembre bastante um certo Ultraviolence (2014), o álbum de Lana Del Rey que os fãs odeiam.

A sequência “Let It Drop” e “Hum For Your Buzz” mostra que o termo garage-rock, ligeiramente citado no início do texto, deveria era ficar bem afastado. Eletrônica, baterias ácidas, solos viajandões de guitarra: essa cara do The Kills, já incrustada anteriormente, agora permite que o ouvinte seja testemunha de um appeal pop diferente.

Alison usa muito os termos em primeira pessoa, mas pouco importa se sua vida pessoal esteja ou não em jogo. Ela fala de fé em “Hum For Your Buzz”, critica que o amor do outro ‘está todo fodido’ em “That Love (Death Row)” e diz que o mundo está à nossa espera no indie-rock “Black Tar”. Todos mostram diferentes facetas do Kills (baladas, codas, rifferamas), riscos necessários e iminentes para quem já tá na estrada há 15 anos.

Ash & Ice engloba tanto as contradições quanto as certezas intrínsecas ao rock’n roll. Flexibilidade é um termo praticamente oposto à música de garagem, mas tenho outra teoria: os tempos são outros, e esse tipo de som também. Cultivar Fugazi e Hüsker Dü faz parte, mas ignorar The Kills pode ser a oportunidade perdida de compreender por que reclamamos tanto que o rock de hoje é bem diferente de outrora.

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