Gravadora: Nonesuch

Nada é mais rock’n roll do que pegar uma van e sair adoidado por aí com seus instrumentos tocando em bares alternativos. The Black Keys pode não ser uma banda que faz mais isso naquele clássico método rústico, mas retomou este espírito não apenas com a capa do carrancudo El Camino; as 11 faixas do disco respiram e expiram elementos do rock, pautados pela inventividade.

Dan Auerbach e Patrick Carney novamente supõem novos caminhos para o blues moderno, mas desta vez a colaboração de Danger Mouse parece ter sido melhor absorvida. Percebe-se isso na atmosfera lúbrica colocada pelo produtor, que acompanha os riffs inventivos de Dan e a bateria ora jazzística (“Gold On the Ceiling”), ora inspiradas por ‘Bonzo’ Bonham (“Run Right Back”) de Carney. É como se houvesse uma cortina que, com seu abrir e fechar, contribui para o andamento do espetáculo.

Quando parece que a estética de alguma faixa é previsível, somos surpreendidos pelo virtuosismo dos músicos, que nos faz mudar de ideia na hora. É o caso de “Little Black Submarines”, que começa como uma balada folk levada por voz e violão; de repente, Auerbach parece se injuriar e emenda um riff poderosíssimo, que instiga Carney. A canção parece ser desenhada nos moldes de uma “Stairway to Heaven”, mas carrega as agruras de um Attack and Release que traça um singelo diálogo com Jack White.

“Money Maker” tem todas as características para integrar um disco do Queens of the Stone Age, com a adição psicodélica que quebra qualquer comparação: entra um efeito meio harmon mute de trompete à lá Sun Ra Arkestra. Já “Hell of a Season” é levado por riffs com pontuações duplas típicos de Joe Strummer, mostrando que o punk rock pode sim se mesclar ao indie rock sem cair na melancolia barata.

“Little Black Submarines”

“Money Maker”

(The Clash, por sinal, foi uma influência declarada na produção do disco. Percebe-se a pontuação clássica do grupo na maioria das faixas, o que possibilita um diálogo com outras vertentes do rock. Afinal, mantendo essa estética foi que o Clash conseguiu dialogar, com eficácia, com gêneros como ska, reggae e jazz a partir de London Calling.)

Se com Attack and Release o The Black Keys prosseguiu novos rumos com a produção de Danger Mouse e abraçou o pop com Brothers, El Camino veio para mostrar que caminhos experimentais são uma possibilidade no rock.

Não há razões para sepultá-lo.

Melhores Faixas: “Gold On the Ceiling”, “Little Black Submarines”, “Money Maker”, “Run Right Back”.