Gravadora: Interscope
Data de Lançamento: 17 de julho de 2015
Era uma vez um rapaz. Ele estava com sono. Colocou pra ouvir Currents, 3º disco do Tame Impala.
Todo mundo vivia dizendo que era a banda do momento, que a genialidade do vocalista Kevin Parker em ‘agitar’ synths em texturas onduladas significava uma direção criativa nessa onda neopsicodélica.
Colocou “Let It Happen” pra rodar. Curtiu as batidas dance que introduzem a cancão, mas quando o tal Kevin decidiu isolar seus vocais, lembrou que já ouvira isso antes. Deve ter sido de algum vinil empoeirado. Strawberry Fields Forever (1967)…? Legal.
Períodos transitivos são recorrentes em Currents; viradas, recargas de energia e alternância entre (poucas) guitarras, synths e vocais dreamy caracterizam esta nova empreitada sonora dos australianos
Veio “Nangs” e, em seguida, o primeiro bocejo. Dá pra perceber que o músico tenta inserir variações nas batidas que não necessariamente acompanham um padrão rítmico. Às vezes, parece um amador manipulando um programa de edição. Ou, como deixa claro “The Moment”, que esse cara cresceu achando que Tears For Fears é algo relevante dos anos 1980. Então, os olhos do rapaz começaram a cerrar.
O sonolento não viu outra opção a não ser começar a pular faixas. Se sobrevivesse, voltaria a elas. Se eu fosse amigo dele, porém, diria que evitar a modorrenta “Eventually” ou a ininteligível “The Less I Know The Better” não teria problema algum, afinal, esse tal de Kevin não tinha nada a oferecer que desse outra perspectiva à mensagem ingênua daquele período paz e amor anos 1960. (Sem falar que a decisão de fazer tudo sozinho, por conta própria, denota não apenas arrogância de quem se vê como gênio isolado; denota, também, desperdício em evoluir a base de ideias com que trabalha.)
Resoluto, tentou “Yes I’m Changing” e “Cause I’m a Man”. Afinal, os títulos remetem à maturidade intrínseca a alguém que está chegando aos 30. Quando o Tame Impala empreende uma sonoridade límpida, é possível ouvir Kevin divagando como se tivesse se transportado a uma comunidade hippie de São Francisco. Então, parece que ele ingere LSD enquanto canta, e logo algo ininteligível paira no ar entre frases como ‘Eu posso fazer/você pode fazer‘… Rooooncccc!
“Past Life” deu uma boa acordada. A injeção de synths new-wave com vocais robóticos cria uma intro de ficção científica inspirada nos melhores momentos de Syd Barrett. Mas aí o tal de Kevin decide abusar dessas transmissões radiofônicas e, na hora de fazer a transição para que seus vocais predominem, algo sai errado. A canção fica presa numa viagem sem volta, como dá a entender o teor da composição.
Importante lembrar que períodos transitivos são recorrentes em Currents; como sugere o título do álbum, viradas, recargas de energia e alternância entre (poucas) guitarras, (muitos) synths e vocais dreamy caracterizam esta nova empreitada sonora dos australianos.
O antes sonolento, agora dorminhoco, jaz sem perceber isso. Talvez porque… não importa mesmo tanto assim.
